*



[ o ]

[ Ode I-XI "Carpe Diem" - Quintus Horatius Flaccus (65-8 AC, poeta) ]


Tu ne quaesieris - cire nefas - quem mihi, quem tibi finem di dederint, Leuconoë, nec Babylonios temptaris numeros. ut melius, quicquid erit, pati! seu plures hiemes, seu tribuit Iuppiter ultimam, quae nunc oppositis debilitat pumicibus mare Tyrhenum. Sapias, vina liques, et spatio brevi spem longam reseces. dum loquimur, fugerit invida aetas: carpe diem, quam minimum credula postero.




[ Ode I-XI "Carpe Diem" - Quintus Horatius Flaccus (65-8 AC, poeta) ]


Não procures, Leuconoe, - saber é nefasto - que fim a nós os deuses destinaram. não consultes sequer os números babilónicos: Melhor é aceitar! E venha o que vier! Quer Júpiter te dê ainda muitos Invernos, quer seja o derradeiro este que ora desfaz nos rochedos hostis ondas do mar Tirreno, vive com sensatez destilando o teu vinho e, como a vida é breve, encurta a longa esp'rança. De inveja o tempo voa enquanto nós falamos (enquanto vivemos, o tempo, invejoso, corre depressa): trata pois de colher o dia, o dia de hoje, que nunca o de amanhã merece confiança. (Desfrute do momento de hoje, acreditando minimamente no amanhã.)



***~~~



Kings Of Convenience - Cayman Islands

Through the alleyways to cool off in the shadows / then into the street following the water / there's a bearded man paddling in his canoe / looks as if he has come all the way from the cayman islands

these canals, it seems, they all go in circles / places look the same, and we're the only difference / the wind is in your hair, it's covering my view / I'm holding on to you, on a bike we've hired until tomorrow

if only they could see, if only they had been here / they would understand, how someone could have chosen / to go the length I've gone, to spend just one day riding / holding on to you, I never thought it would be this clear



Kings Of Convenience - Ilhas Cayman

Através dos becos para acalmar nas sombras / Depois na rua seguindo a água / Ali há um homem barbudo remando em sua canoa / Até parece que ele veio lá das Ilhas Cayman

Estes canais, parece, eles todos são em círculos / Os lugares parecem os mesmos,e nós somos a única diferença / O vento está em seu cabelo, está cobrindo minha visão / Estou me segurando em você, / numa bicicleta que nós alugamos até amanhã

Se ao menos eles pudessem ver, se ao menos eles estivessem aqui / Eles entenderiam como alguém pode ter escolhido / Ir tão longe quanto eu fui, para passar somente um dia passeando / Segurando em você, eu nunca pensei que seria tão claro




***~~~




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[ Definitivamente, não vivo no meio-termo, na tepidez da covardia assumida, às sombras da ignorância de acreditar que tudo é Bom, Verdadeiro e Belo, só por que alguém disse. ]

















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[Sexta-feira, Janeiro 09, 2009]


...como uma visita tardia que encontrasse cerrados os seus próprios umbrais. Quão irônico e satisfatório isso me soa? Eu gozo nos sentidos mais sádicos e sarcásticos, também.

E eis que venero a misantropia de forma tão... nem sei, viu? Um brinde.

Recostou-se na cadeira, deixou-se ficar assim por uns minutos, depois levantou-se. Despiu-se em movimentos exaustos, enfadados, lentos... mas desta vez não se olhou no espelho e nem questionou-se metafisicamente. Não havia tempo. A vida é tão corrida, e tão linda... não há tempo para cegueira. Mas quiçá, para não dizer com convicção, sempre há tempo para saramaguismo e neologismo.

E a escrita dessa vez me veio predicativa e paulatina, um dia seguido de outro. E o motivo é pertinente o suficiente para me tirar esse tempo precioso de verborragizar. Desde 25/10 a rotina dessa casa mudou. Caso não se lembrem, foi nesse dia que o pequeno começou a andar... e desde então as portas estão sempre fechadas, os móveis perigosos sempre afastados, e a bagunça sempre posta... lindo! As mães saberão do que se trata meu relato, é só lembrarem que o outrora bebê hoje anda, corre, mexe em coisas que precisam sempre do “não” da mamãe aqui. E por isso, o tempo quase todo é dele, do andarilho de fraldas. Por isso passei tanto tempo descuidando disso aqui. Agora estou arriscando dedilhar essas letras sobre o filho, mas ao mesmo tempo ouço lá na sala o barulho dos meus livros sendo retirados da estante e jogados no chão. E por falar nisso, entre tantos, ele escolheu JUSTO o livro que penei tanto para encontrar no sebo - um bem antigo sobre análises buarqueanas. – e rasgou-lhe a capa. Sem dó, sem dor, sem piedade. Mas é isso. Ando sem tempo para configurar o blog. parágrafos, páginas, paráfrases. todas armazenadas no word, para quando o filhote decidir gentilmente hibernar e assim eu conseguir tempo para algo além de ler, cuidar da casa, namorar, enfim, sabe como é. O fato é que quando ele finalmente dorme, convenhamos: o tempo que sobra tem que ser perfeitamente bem utilizado. Ou – e meçam bem esse “ou” – eu hidrato o cabelo e cuido da pele, das unhas, etc, ou leio uns livros, ou faço faxina na casa (o que prefiro procrastinar e esperar pela faxineira hehehe), ou o gostoso sexo, que quase sempre ganha (às vezes o remorso da casa bagunçada vence), ou simplesmente dormir... e então o tal “escrever no blog” fica lá no final da lista. Não obstante, se vocês imaginam que a cena “bebê vendo desenho sentadinho, ali na sala” é suficiente para a mamãe sentar seu bumbum pequeno e branquelo na frente do computador, lamento. Ele aprendeu que vir até o quarto me pegar pela mão funciona. Então ele me leva até lá e me faz sentar ao lado dele. Por isso, meu MSN passa o dia ligado, embora eu não faça uso dele nem por 10 minutos num dia. No máximo, deixo a música tocando, para que eu não entre em colapso com tanta musiquinha de desenho animado. Mas isso tudo não é uma queixa. Chega a ser mais uma justificativa, ou um pedido de desculpas, ou sei lá o quê, para que o remorso de não me dedicar a isso aqui desapareça.

E eis que estou aqui sentada, enquanto meus livros são arremessados no tapete, mas eu não ligo. Hoje é quarta e é o clássico dia de cinema, pipoca, baganas, namorico, sushi, cinta-liga... amanhã eu me viro com a arrumação.

Os dias têm sido como sempre. Líricos, apaixonados, maternos e eróticos. Algumas visitas, boas garrafas de vinho, belos pratos, violões afinados, e aquilo tudo. Resumi em “aquilo tudo”, porque pelo que ouvi agora, terei que colar outra capa de livro... já volto.

Caramba, ouvi um “rasg”. Espero que tenha sido o livro “tudo o que você precisa saber antes de pensar em engravidar novamente”. Hehe. Brincadeira.

Deixo aqui um tópico para o próximo falatório. “feliz demais! putz!”


Por sed non satiata * 9:50 PM

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[Sexta-feira, Outubro 24, 2008]


É incrível como subitamente alguma coisa nos impressiona. Não sei se o sentimento de alguém influencia o espaço que o rodeia, mas me peguei ouvindo ópera no apartamento no bloco em frente ao meu. Tem alguém ouvindo ópera!! E estou aqui repleta dos vários âmagos de Madredeus. E entupida de serenidade por ter proteção e por proteger – é muito bom saber que talvez tenhamos sido irmãs em outra vida. E por saber que hoje em dia tenho um anjo da guarda... e tudo conspira numa paz infinita. A ópera, as canções lusitanas, as quimeras. Até o ventinho que entrou pela janela veio úmido... só falta chover. Lembrei do rio de Parmênides, aquele que nunca permanece o mesmo. E lembrei dos lapsos de Heráclito, ou do que Freud dizia. Lembrei também da célebre frase de Bukowski, “vamos beber, porra!”, mas aí me veio a noção que preciso colar a capa do livro de John Lyons...

Existem as mulheres neuróticas, e existem as eróticas. Talvez existam as neuróticas e eróticas, acho que esse é o meu caso. Hoje cismei que passaria o pano na casa alucinadamente, e o farei. Basta Ícaro hibernar... e cismei de fazer sexo com massagem ao final do último pano de chão torcido. A piscina me fez bem.

Debaixo de planos rendados e de espartilhos a serem desenhados, vejo os tecidos a serem comprados e me encho de infinitude. Hoje o Camel está tão saboroso... me dei ao luxo de uma bela xícara de cappuccino, e dancei Hi-5 com o pequeno. Ele tem cheiro de chambinho... e morre de medo do urso que reza o Pai Nosso. Dorme e faz um barulhinho na chupeta, e se agarra ao travesseirinho, suspirando tão forte... eu sou uma sortuda.

Senti necessidade de mais uma vez usar o mel, o açúcar e o tomate. A leveza do rosto, embora superficial, faz bem. E ponto! Sejamos fúteis na medida do possível. Não dói.

Estou lendo "A Traição dos Intelectuais", de Julien Benda.
E como disse, ouvindo madredeus e a ópera da vizinha.
E tomando cappuccino...

E o diabo do picolé caseiro acabou de passar por aqui berrando. Ícaro acordou... lá vou eu.


Por sed non satiata * 9:49 PM

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[Quarta-feira, Outubro 22, 2008]


Um repolho picado n’uma panela grande com água e uma colher de sopa de sal. Deixe ferver. Quando estiver estupidamente cozido, escorra. Misture a cinco ovos cozidos e esmigalhados, seguidos de uma generosa pitada de sal. Acrescente umas 5 ou 6 colheres de maionese, se for da light ou aquela tal “Deleite”, melhor ainda. E essa foi a receita que, desde criança, me fez ser uma convicta “apaixonada por salada de repolho”. Ontem cozinhei na panela meu remorso de hoje: será que essa salada engorda muito? Burp, espero que não, burp, porque, burp... não paro de... burp... comer. Hic! Hic! Hic!

Apaixonada. Pelo seu barulhinho que faz ao chupar chupeta, quando está deitado com soninho. Pela mãozinha gorda no rosto, alisando o próprio narizinho. Pelo seu cheirinho de chambinho, e pelo dialeto bebezês que só eu decifro. Pelas pernocas gordinhas andando pela casa, fazendo a fraldinha ir para lá e para cá. Como é gostoso ser mãe! Derreto-me igual a picolé de limão na calçada. Ouvi um “rasg!” agora. Putz... lá se vai a capa do livro de John Lyons. ÍCARO!!!!!! – e ele olha pra mim com seus olhinhos redondos e derramando mel, feito aquele gato de botas do shrerekeerkjoprkp. Tem nada não. Para isso tem fita adesiva... (suspiro de mãe redentora.)


Por sed non satiata * 9:49 PM

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[Sexta-feira, Outubro 17, 2008]


a ressaca é tamanha que sei nem o que dizer... burp, ain, unnnnnn... minha cabeça! Meu estômago! Minhas perrrrrrrrrnas! E hoje é sexta ainda. E amanhã sábado. E agora? Cultivarei o lema bukowskiano ou durmirei MUITO? A proposta é boa: filmes bons, comidas sedutoras, travesseiros fofinhos, cama, edredom...

bem, a quem quero enganar?

é culpa desse maldito roquenrrou. mentira, é culpa das doses com muito gelo. ou seria culpa do gelo? vai ver é do copo... vidro, sabe como é. mentira, é culpa do OVNI que não veio. mas a culpa mesmo...

Urf. Não dá nem para parafrasear alguém de forma pedante, meu negócio mesmo é me encher de copo d’água e um Camel aqui e acolá, cuidar do gordinho e idolatrar o puto do escritor que me põe minhoquinhas subversivas na cabeça – o Bukowski.

Mas, como eu ia dizendo, vou beber hoje. A ressaca de amanhã que se vire sozinha. Já faço coisa demais durante o dia...


Por sed non satiata * 9:49 PM

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[Terça-feira, Outubro 14, 2008]


Não sei se foram os dias de muito vento, e ainda não entendi por que tem ventado tanto, mas estou repleta de ar dentro do peito. Respirando fundo, cheia de planos. Numa euforia ainda silenciosa, por medo dos deuses conspiradores. Não falo ainda dos meus bel-prazeres por puro medo de dar azar. Há sempre alguém nos jogando pragas anônimas, rogando cobiça e mau olhado, é foda. Tem esse protótipo de consternação, inveja e olho grande, por exemplo. Rezarei um “creio em Deus Pai” nas suas costas, o quanto antes. Menina, passe um pó na cara pelo amor de Deus! E você, tenha vergonha na cara e pare de usar fake. Você ainda acha que com fake consegue fuçar sem ser percebida? Quero distância! Por essas e outras ainda não disserto sobre minhas metas. Só digo que são tão próximas como a xícara de café, ali na mesa. É só dar uns passos e pegá-la, a priori. Mas estou ansiosa, irrequieta, empolgada. Animada, feliz... Deus me ajude, e me dê forças. Nunca quis tanto uma coisa, e nunca a vi tão concreta. É se olhar no espelho e dizer: ande com suas pernas, não dependa de ninguém. Não se renda a castração nenhuma, não se submeta a dogma algum. Dane-se quem impuser limites, deixe o egocentrismo no umbigo dos medíocres. Seja você.

Acho que tem alguém fumando um baseado no andar de baixo ou no de cima. O aroma está vindo todo para cá... ouço risadas, conversas efusivas, e ao colocar a cabeça para fora da janela, cheguei a ouvir até uma rodada de piadas. Acabei rindo por tabela...

Estou ouvindo Morcheeba – Otherwise.

Fiz uma lista de quase quarenta livros. Coitado do bolso. Tanta coisa que quero ler... e não acho a mínima graça em pegar livros na biblioteca. Gosto de rabiscar nos espaços em branco, entre uma página e outra; gosto de dobrar a pontinha da página que me interessa, e de reler na hora que quiser. Gosto de encher a estante com meu apreço, por mais que Ícaro bagunce diariamente.

Andei pensando nos tons de ruivo. E na pele sem protetor solar. Sabe aquela imagem enfadonha na foto? Andei pensando em cores. E em medidas menores. Andei guardando numa pasta meus desenhos a serem futuramente tatuados, e em outra os projetos a serem levados na costureira. Dei uma caminhada pelo shopping e achei as roupas tão sensabores... Acho que é por isso que o povo natalense se porta sempre de forma padrão. Os arquétipos do senso-comum, espalhados por bares, boates, ruas e esquinas. O tilintar das taças de cerveja no restaurante de comida japonesa. Não gosto do convencional, acho que um pouco de idiossincrasia não fará mal a nenhum cidadão que conviva comigo. Mas não pendurarei um abacaxi na orelha, nem se preocupem.


Anseio pela quinta, porque afinal nasci com uma alma bukowskiana. A putaria, a embriaguez e o cultivo da enfisema me atraem de uma forma soturnamente atraente. Tsc, tsc...

Apesar de estar longe de ser diagnosticada maluca, a melhor coisa que já fiz na vida foi pegar o telefone de um bom psicanalista. Por mais que pague para falar abobrinha, terei a faca e o queijo na mão para meu acervo de intelectualidade: se quero ser psicanalista, por que não adentrar o quanto antes na bolha maluca dos pensantes? Putz... saudades da Filosofia. Nunca mais eu tranco! Essa porra! Essa caralha! Por que tranquei ein? Eu troco sexo, chocolates, sono e comidas por 24h de faculdade. Fechado? Ggrrrrrrrr... anotei na agendinha – a faculdade, o curso de alemão, os 40 livros e... o resto não conto, pois como falei no inicio, ainda são planos silenciosos. Tche tche tche...


Por sed non satiata * 9:49 PM

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[Quarta-feira, Outubro 08, 2008]


Esta é uma música da qual gosto muito. Há quem ache brega, há quem a considere trilha de motel. É, quem sabe. Mas eu a considero extremamente (pausando cada sílaba entre os lábios) excitante. Não no sentido sexual, mas sim no que me corrói as entranhas. É tolice, aquilo que a música faz com a pessoa mesmo. Costumo ser um pouco maluca em meio à rotina, e por isso não se admirem. Provida apenas de calcinha e sutiã, após o ritual de banho, cremes, hidratação, tomate-no-rosto-mel-com-açúcar-para-esfoliar-e-pepino-nos-olhos, liguei o mp3 num volume muito, muito alto. Tranquei a porta, subi na cama e dancei. Sacudi o cabelo, fechei os olhos, e suspirei, muito. Em euforia, ainda que silenciosa. Exorcismo em plena terça.

*

[DOUBLE - Captain Of Her Heart]

It was way past midnight
And she still couldn't fall asleep.
This night the dream was leaving
She tried so hard to keep.

And with the new day's dawning
She felt it drift away.
Not only for a cruise
not only for a day

Too long ago, too long apart
She couldn't wait another day for
The captain of her heart.

As the day came up, she made a stop.
She stopped waiting another day for
The captain of her heart.

Too long ago, too long apart
She couldn't wait another day for
The captain of her heart.

*

Em plena segunda fui surpreendida por confissões espantosas. Voltando de sua tarde destinada a resolver os problemas do celular perdido, o recebo com as palavras: “caramba, shoo. Hoje me dei conta de que conhecer você foi a melhor coisa que já me aconteceu.” Ao perguntar a razão para ouvir isso, fui surpreendida por algo que achei uma mistura de tolice e romantismo. Mas foi mais tolice mesmo.

Movidos ainda pela euforia do recomeço, decidimos que ainda estávamos no direito de comemorações etílicas e eróticas, ainda que em plena terça. Não sei se a essa altura ainda tenho o direito de sentir vergonha ao falar sobre nossa intimidade, mas tomamos banho fazendo planos de como seria a noite, enquanto o gordinho havia sido deixado na casa da vovó. Vi-me na situação tola e ao mesmo tempo gostosa ao escolher qual cueca ele usaria, e vice versa. Quanto ao local, fomos mesmo ao peppers. As companhias não deixaram a desejar, ótimas como sempre. A banda era ótima. É, inclusive. E nos demos ao luxo de pedir ótimas rodadas de cerveja, bons petiscos e, para a alegria da enfisemática aqui, uma carteira de Camel, saborosa. Depois de longas horas de boemia e rock, de risadas efusivas, alegria pra não esconder a ninguém, voltamos para casa e... deixo para depois a descrição do fim de noite. Não tenho vocação para escrever contos eróticos, sabe como é. Fico sempre enfadonha na escrita. Mas enfim. Dá para adivinhar... né?


Ontem me dei conta que realmente há gente que não dá a mínima para o fato de que alguém tem aliança no dedo e um filho de 1 ano. E as pessoas que mais se infiltram no seu campo afetivo são aquelas que estão mais dispostas ao ato fura-olho / cata-piolho. Afinal, qual o mito que envolve a idéia de mulher casada? Por que uma mulher com vida conjugal ativa lhes parece tão interessante? Fiquei surpresa ontem. E, não me fazendo de sonsa, confesso sinceramente. Fiquei um pouco ofendida... Surpreendida por um bilhete com numero de telefone e nome, me deparei com um amigo entre aspas do meu marido. Comentei com ele (shoo) sobre o acontecido, ele me falou... “caramba, hoje em dia é cada um por si, ninguém respeita mais ninguém. Sempre tem uma vagabunda, sempre tem um cara de pau. E eles sempre se fazem de puros e santos.” Estou chocada.

Ai, que ressaca...! e que felicidade. Que ninguém a roube de mim. Apaixonada pelo cheirinho do meu filho, e pelo do marido. Amo minha rotina...até gosto um pouco da ressaca.


Por sed non satiata * 9:49 PM

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[Segunda-feira, Outubro 06, 2008]


"você pode não acreditar nisto
mas há as pessoas
que passam pela vida com
muito pouca
fricção de angústia.

eles se vestem bem, dormem bem.
eles estão contentes com
a família deles.
com a vida.

eles são imperturbáveis
e freqüentemente se sentem
muito bem.
e quando eles morrem
é uma morte fácil, normalmente durante o
sono.

você pode não acreditar nisto
mas tais pessoas existem.
mas eu não sou nenhum deles.

oh não, eu não sou nenhum deles,
eu não estou nem mesmo próximo
para ser um deles.

mas eles
estão lá ...

e eu estou aqui."


Bukowski

nhá! feliz!


Por sed non satiata * 9:49 PM

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Eu não acredito no inferno astral que dizem que precede o aniversário até o momento em que o mês de setembro chega. E não se trata de uma maré de azar ou acontecimentos ruins, mas o fato é que realmente as coisas se transformam. É o destino dando sua pincelada de amarelo numa tela taciturna. Chegarei ao dia 11 com uma boa pincelada de cores renovadas, mais amadurecimento, mais cumplicidade, mais caminhos por onde posso percorrer por conta própria. Quem quiser, pode me seguir. Reconheço que os planetas se alinham, a lua se posiciona, os signos e todo o misticismo da astrologia conspiram sim a favor das novas idades. Não encaro como um deja vu, mas por meus 22 anos – e logo 23 – experimentei reciclagens na minha vida justo nas vésperas do aniversário. Creio que inferno astral existe sim. E acabo por ficar fascinada com ele... veio em boa hora, hoje consigo sentir mais o sol esquentando o corpo, logo no de quem era tão apática e monocromática. Posso dizer que estou feliz, curtindo ego, alter ego, planos egocêntricos e ao mesmo tempo acompanhada dos meus meninões. Por falar neles, é hora da papinha, do banho que dá soninho no pequeno e do sexo vespertino, de quem permanecer acordado.

Por sed non satiata * 9:48 PM

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[Sábado, Outubro 04, 2008]


Foi uma noite regada a erotismo. Tudo o que dissemos teve uma conotação específica. Explicitamente, na frente de todos, dane-se quem tiver testemunhado. Era a nossa noite. A par dos acontecimentos, vocês (sem o plural, amiga) saberão o pretexto para tamanha euforia. É como se eu quisesse resumir em uma palavra, embora tenhamos gritado tantas e quantas (na volta para casa, calma!). Mas foi. Digo... foi: perfeito. A noite de um substantivo abstrato, ou não, alguma coisa que se resuma em, quem sabe, fênix. É, sabe-se lá como isso acontece. Mas quem opta por dividir sua vida com outra alma sabe. É questão de compartilhar âmago, lirismo, café e cigarros. Ou não cigarros. Ou muito café. Ou chá, vai...! Abdicações, compreensão, conselhos dos maduros, e acho que estou seguindo por um caminho que fará com que se percam. Mas, voltando..., e músicas, e lençol, e escova de dente, blá blá. A vida a dois é como a dor de quando batemos o cotovelo numa quina de porta. Há quem deixe que doa (eu não), mas é inesquecível. Acho que ando muito brega nas minhas metáforas... mas enfim. - E livros, embora que mal lidos, ou devorados... e lençóis (acho que já falei deles), puxados e repuxados à medida que sentimos frio, ainda que melados de coisas que a lavadeira ficaria curiosa em descobrir. Dessa vez não há dúvidas – acordamos a vizinhança - . Foi a recompensa da semana, foi a recompensa por ter nascido emocionalmente pela metade – nasci precisando do meu complemento. Encontrei. É...

A noite foi divertida. Principalmente porque casei com um sádico sarcástico (e pervertido hehe), quando se faz necessário. Não sou de zombar dos outros, mas ela faz por merecer... e ele é dos meus. Acho que casei com ele adivinhando isso. Ele sabe o que é divertimento às custas de quem é porco. Sabe, não se dá pérolas aos porcos... Também não sou de chamar alguém de vadia assim de graça, mas ela merece ser chamada assim. Fiz um pacto comigo mesma de jamais menosprezar alguém que não conheço, porque às vezes algo só existe por aparências, mas dela não teve jeito. Foi ele quem começou a malhar dela... Dele, sobre ela, ouvi “elogios” como: burra, inexperiente, mendiga, olho grande, invejosa, sanguessuga, vadia, gordinha, feia, antipática, pentelha, mala, fácil, isso e aquilo, exceto carne assada. Fiquei surpresa. Ri como um gordo que come um assado bem temperado e arrota bem alto. Eu gosto do sarcasmo. E gosto de vê-la fantasiar um estrelismo que não existe, uma sensualidade que só há na sua cabecinha de mulher coitada. Com seu cabelo sujo, sua pele ruim e mal cuidada, sua roupa de um tamanho menor (que tal um maior, fofinha?), de péssima escolha e estilinho caipira, sua gordurinha a mais, seu pseudo pieguismo e fanatismo, e suas pernas abertas a qualquer homem comprometido que lhe dê um cumprimento. É a mocinha que *aprecia* e mendiga o que não lhe pertence. Coitadinha. Rimos muito dela hoje. E que bom que ela procura o que não quer achar, né, querida? Gosta de migalhas? Psiu, que bom que você procura ler o que não quer. Seja sempre bem-vinda. Leia à vontade. Na próxima noite, finja mais uma vez que não leu isso. E arqueie suas sobrancelhas de palhaço psicopata com um arzinho sexy que você não tem. Use uma roupinha mais curta... se faça de especial, e continue a ser zombada sem saber. Conselho: encolha a barriga. Passe um pó sutil no rosto. Morra. Deixe que eu lhe dê mais um conselho: você tem sido piada na boca de muitos amigos. E consolo também...

No mais, o príncipe de fraldinha se curou. Tem criado neologismos, acho que puxou à mãe. Pensei em fazer um dicionário... bebezês. Com sua cura, relaxei. E fui à rua, bebi a tempestade, com gelo e limão. E ri, beijei, amei sobre os jornais, samba e amor até mais tarde... e sem eufemismos, metáforas, paráfrases, alusões, sinestesias e quaisquer figuras de linguagem – tive os 3 melhores orgasmos da minha vida.

Putz, dormir de conchinha sinceramente, realmente, exageradamente, é um puta dum troço muito gostoso. Mesmo que ele ronque no seu ouvido. Tsc tsc...

Lembrete: repeteco de sábado. Mas só depois da ressaca, do cinema, e do sushi. Recebi essa proposta irrecusável... anseio por sashimi, uramaki, hossomaki etc...aaaaaaai! e depois os drinks com saideira erótica. Sou explícita mesmo, ré!


Por sed non satiata * 9:48 PM

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[Quinta-feira, Outubro 02, 2008]


Ópio

"Urgência. A vida pede rapidez em acontecer. E eu, Inquieta, sentindo um fio de medo do mundo passivo, sem expressão, ou com excesso dela. De uma forma irresistível, assisto em cores, lances, em tempo real, de um caos completo. Com que neutralidade as pessoas só vivem, respiram, para logo morrerem?

“Que a vida seja algo pertubador”, disse um poeta em um paperback qualquer. E com que sapiência. Que a vida venha com a perturbação da ordem normal, do marasmo de idéias, da normalidade de anomalias. Cheia de dúvidas, de falhas, de incertezas, de vida mal-feita, mal-dita.

Para que seja possível e por maior interior necessidade, que façamos mil coisas ao mesmo tempo, esperando impacientemente que algum delas termine para que possamos dar o play, só pra ver tocar tudo de novo and again. Porque a vontade de fazer é estranha e causa ânsia, e a moleza entranhada na cara de tantos mil, é vômito.

Quase no fim, ouço alguém lá no fundo gritar “Pare o mundo, eu quero cair!”. E vem melosos uns acordes de um blues ecoando no bar escuro, de tantas faces perdidas. Surge uma cover de Amy Winehouse, com a decadência escorrendo no rosto de vinil. Nem mesmo o ópio faz sonhar o que está por vir."




-



Volver


Retorno com ares de quem nunca se foi
Não sei se para ficar ou para pairar
Mais leve, como tarde pós-chuva
Permanecerei breve
enquanto o dia durar

Serei vento
que esfacelando nuvens
transforma-as em pássaros longos
de asas indefinidas

Por um momento, serei somente
passeando entre árvores
que sombreiam restos de folhas

Ficarei sentada, esperando
as horas que passam por mim
apagando rabiscos e traços


Por sed non satiata * 9:48 PM

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[Quarta-feira, Outubro 01, 2008]


Acredito em anjos da guarda. E sei que eles estão por perto, sempre. Materializam-se em forma humana, quando preciso. Eles nascem de maneira convencional, encarnam suas almas em seres humanos para que possam acompanhar e nos guiar sempre de perto. E de certa forma são o que chamamos de “alma gêmea”...

Seja na forma de pai, seja na forma de filho, seja na forma de uma amiga. Eles sempre salvam e mudam a nossa vida para melhor... e eu acredito. Acredito que conheci meus anjos da guarda. Meu filho, meu marido, meu pai, minha amiga Cris. Têm feito uma mudança quase que celestial no meu coração, e nas minhas atitudes. Os amo como quem pinta de ternura uma tela em branco, como quem conta incansavelmente as estrelas do céu.

“A palavra "considerar" vem do latim ‘considerare’, e significa ‘estar com o céu’ "...

Considerem. Reconheçam seus anjos da guarda. São amigos? Família? Filhos? Todo mundo tem.


Por sed non satiata * 9:48 PM

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[Terça-feira, Setembro 30, 2008]


Hoje pela manhã decidi que escreveria alguma coisa, muito embora inspiração não houvesse, só cansaço. A última semana tem sido de completa vigília, de zelo, de dengo, cuidado, conforto e preocupações. Mas, como dizem, comecemos do começo.

Em plena quinta tivemos opções que talvez fossem mais convenientes ao fim de semana. Mas a “paixonite” falou mais alto. A principio decidimos “ficar com o boy”, trio-família posto na cama, assistindo ao incansável DCY Kids, ao DVD do cocoricó e ouvindo o inesgotável cd dos saltimbancos (fico na dúvida se esses CDs já vieram com furo no meio ou ficaram assim por serem repetidos 9482309480 vezes...). Mas então veio um estalo, acho que premonitório. Vamos sair hoje, shoona? Hãn? Ficou maluco? Hoje é quinta! Mas então foram mencionadas as opções e, convenhamos, que eu pague pelos pecados depois... mas sexo, paixão e volúpia não fazem mal aos jovens, fazem? E então o gordinho dispôs-se de mala e fraldas com destino ao quarto da avó-mãezona coruja , e partimos para a boemia. Que vergonha, ein? Muito bonito, vocês...! mas fizemos mesmo. Em plena quinta. Entre o bom clube do blues e um singelo barzinho com cerveja gelada e petiscos legais, optamos pelo segundo. Era mais interessante. Ouvi frases no ouvido como quem lambia uma colher de mel, sussuradas com esmero, com fervor, com amor, atéqueamortenossepare. E ouvi expressões que os incrédulos chamariam de efêmeras, mas o “para sempre” e “por toda a vida” me caem muito bem, confesso que sou uma mulherzinha derretida e piegas. Eu tenho um maridinho muito do babão, apesar de chato e vaidoso (ou, deixa o bichinho...). Eu padeço por muito pouco. Voltamos cedo para casa, e não queiram que eu entre em detalhes, aquela velha tautologia pornográfica... Só resumo dizendo que testamos uma nova marca de lubrificante, e que inaugurei meu piercing da língua (É, depois de 5 anos sem, furei de novo minha língua)... no dia seguinte, não havendo ressaca alguma, seguimos a rotina semanal. A louça a ser lavada, as fraldas a serem trocadas, o chão a ser limpo para o bebê engatinhar e andar. Ei... andar? Como? Como assim, andar? Pois é. Em exatas 18:05h, TV ligada num desenho rotineiro e a mamadeira entornada com uma gula animalesca, displicentemente testemunhei os primeiros passos do meu filho. Ai! Que desespero! Não havia mais ninguém em casa para quem eu pudesse contar, abraçar, gritar! Restou-me o pranto de emoção, um abraço forte naquelas gordurinhas e me fiz de platéia solitária, observando a expressão instigada do branquinho ao andar daqui pra lá. Tantas risadinhas marotas...! e gritinhos, e palminhas, dancinhas, “mamama, mama!”, como quem dissesse: ei, mãe! Olhe pra mim! Agora sou independente! Foi um choro tão renovador que me envolveu...!

Pois é, caros leitores. Parecia uma típica semana da família buscapé. Mas não...! não sei se algum vento estranho entrou pela janela de “revestrés” e atingiu a euforia do cavaleirinho andante, mas de súbito, de madrugada, uma febre, uma tosse, uma coriza e um choro manhoso vieram ao berço do pequeno. E aí começou a aflição, que tem durado até o dia de hoje... apesar da melhora, ainda que vista paulatinamente. O sábado foi em claro, mesmo no escuro da madrugada. Sequer 1 hora de sono tive. Mantive-me de pé, com palitos suspendendo os olhos sonolentos, para lá e para cá, ninando o choroso doente. E ele não queria dormir no berço. Não queria dormir na minha cama. Não queria dormir no carrinho. Não queria dormir na sala. Queria, com seus 11kg contra meus 52kg, dormir no meu colo. Se eu consumi calorias indesejadas durante toda minha vida, sábado foi o dia em que as queimei. Acho que até a gordura trans foi eliminada. E haja braço, haja perna, haja coluna... putz. Se era só assim que ele conseguia dormir, que fosse. A super mãe biônica entrou em ação. Não obstante, a pilha de lençóis vomitados e catarrentos implora por uma lavanderia... e o colchão, que me fez lembrar minha mãe, quando ao receber aquele vômito fedido pediu para que a “crendice que os mais velhos ensinam” fosse posta em prática. Embebido por álcool e flanela, esfregando e desinfetando, e lânguido no sol, assim minha mãe fazia e assim fiz, morrendo de sono e ao mesmo tempo sem sono algum, de tanto que a adrenalina da preocupação me dopou. Tolice, mas me trouxe um conforto maior ao lembrar do que minha mãe fazia – por mais que simplório seja – e me senti um pouco mais mãe ao repetir o ato. Senti-me crescendo nos passos de quem me ensinou. E então ganhei forças, perdi o sono, zelei, cuidei. Um bom banho em ambos – os melequentos vomitados -, uma boa mamadeira de leite, os remédios enfileirados na cabeceira, o termômetro, a pilha de fraldas de pano, o sono vigiado no meu travesseiro, e me pus alerta a qualquer distração que tivesse naquele momento, mesmo que fosse o ruído do sexo dos cachorros, no estacionamento. Sorte que ela veio. Não o sexo animal, mas o benefício da tecnologia dentro do quarto. Dispus-me de um prato com verduras e legumes (mais alguém aqui tem o estranho habito de comer isso na madrugada,, quando tem insônia?) – pepino, couve-flor, brócolis, ai, palmitos...!, couve, tomates, alface, azeitona... acompanhados por minha outra mania estranha, uma jarra de suco de laranja, sem açúcar. Cobri o frágil paciente, sentei-me reclinada nos travesseiros do maridão – este que se fez preocupado, dividido entre tocar na festa de uma amiga querida e ligar apreensivo o tempo todo, para saber noticias do enfermo -, liguei a TV divinamente provida de TV a cabo, e conectei o canal 65, meu preferido. Tive a sorte de ver não um, mas três bons filmes: “na cama”, “neblina e sombras” e “lua de fel”. Como não pude e nem consegui dormir depois disso, atrevi-me a reler de um só fôlego Um Copo de Cólera. E então o dia amanheceu, o doentinho acordou, a febre baixou, ensaiou novas passadas pela casa, e continuou a não conseguir dormir, a me assustar com a febre, e a querer colo, e os 11 contra os 52 de novo, mas infelizmente não havia a sorte dos bons filmes da noite anterior. O coitado do papai preocupado e compadecido, vendo meu estado de mocréia descabelada e dedicada, me surpreendeu com almoço e jantar especiais. Me veio com uma feijoada sublime ao meio dia, e com um banquete de sushi e sashimi à noite. Com direito a coca-cola estupidamente gelada e a uma carteira de Camel, meu preferido. E me fez massagens celessssstiais, e me tirou mais ainda a vontade de cochilar nas “brechas de minutos vagos”, dando-me o luxo de permanecer acordada em troca de bom sexo e de conchinha com cafuné. E nesse ritmo de remédios e consolo do marido, vieram o domingo, a segunda, a terça, a quarta... peraí, que dia é hoje? Nessa confusão acabei perdendo as noções primordiais. Hoje é terça-feira. Pronto. Hoje o andarilho de fraldas melhorou. Sem resquícios de febre, devidamente medicado, hidratado e alimentado, passamos um dia mais tranqüilo. Não precisei da salada maluca de madrugada, nem dos filmes legais. É, sou sonsa e fingi precisar do sexo e das guloseimas pedidas por telefone, e do dengo, e do colo... eu sou uma manhosa cara de pau mesmo. É culpa dele, que me mima. Mas enfim. Hoje, pela primeira vez desde a primeira febre, me atrevi a ter uma longa, gostosa ...– e única – hora de sono. Acho que babei no travesseiro inclusive, e acabei sendo zombada... mas eu estava longe de qualquer embaraço, diante daquele cansaço infinito. Me senti a tal: putz! Consegui dormir uma hora de sono sem parar! Agora são 23h, imaginei que escrevendo fosse ser interrompida pelo pouco sono do neném, mas alegremente anuncio que oba, ele dorme desde as 21h e pelo visto só acordará amanhã, às 8:30. É, se não for cedo demais, comemoro agora: a paz voltou a reinar no apartamento do trio branquelo.

Ops, ele acordou. É... deixa pra amanhã minha tão desejada noite de sono ininterrupto. Resta o sexo cara de pau.


Por sed non satiata * 9:48 PM

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[Terça-feira, Setembro 23, 2008]


Dia desses ouvi uma baboseira pseudo-filosófica (daquelas sem fundamentação teórica, apenas repetida cegamente, vinda de alguém tipicamente senso comum, aquela mesma que citou frases prontas de pseudo fanatismo, e que mais uma vez me contive para não rir da cara dela), do tipo que “o tempo passa ligeiro, não podemos controlar, e isso e aquilo, ah, porque o tempo é relativo”. Ora ora, mas que espertalhona, hãn? Palmas para a super cagona de banheiro de bar! Mas afinal, o que é o tempo? é aquilo que corre e nem percebemos, e só nos damos conta quando vemos nosso bebê já alcançando a mesinha que há poucos meses era alta o suficiente para ser impossível. E quando o cartão de amor recebido no primeiro mês de namoro é relido, provocando o riso no canto da boca, e quando as palavras ditas são recicladas e amadurecidas. E você percebe que o tempo é apenas um instante entre o antes e o daqui a pouco. E isso é muito bom, porque a sensação de ter perdido o trem passa a ser a mesma de poder pegar o próximo vôo para fazer desse lapso temporal uma viagem inesquecível. Se você insiste em pensar que a cronologia das horas lhe tirou o gosto da novidade, experimente reler suas mensagens de texto no celular. Sabe o que você vai descobrir? Que cativar é estar feliz desde as duas horas, quando se sabe que a pessoa a quem esperamos só chegará às quatro. A raposa tem razão: você deve ser responsável por aquilo que cativou, mas esqueça o tempo do relógio e viva o tempo do amor. Eu lhe asseguro que ele não tem limites. Tô chegando às quatro, tá? "Vou abrir a porta pra você entrar.".

Mas essa menina pseudo tudo me intriga. Ela é um poço de ignorância, mas ainda persiste em se afirmar perante todos. E vem sempre me encher o saco com suas ladainhas de sempre, com aquela boca de sapo e os olhos arregalados que me dão nojo, citando suas musiquinhas decoradas de Chico, em seu conhecimento raso, seus conceitos lidos em algum site e memorizado às pressas para ser repetido quando for preciso, no seu corpo redondo e na sua pele desfigurada do rosto. A coitada deveria se vestir melhor. Aquele casaquinho de vovó me rendeu boooas risadas, escondida no banheiro. Uma maquiagem cairia bem... mas voltando, ela é cansativa. E é vadia. É vadia, pois adora cutucar o que não é dela. Tem um interesse medíocre por homens que não lhe pertencem, e é aí que acho graça e me compadeço. Ela gosta de sobras. Será que ela lamenta isso? Lamenta o fato de ser um consolo? Eu lamento por ela. Porque eu sou generosa. No fim das contas, sinto remorso de pensar isso tudo dela. Ela é legalzinha. Mas só à primeira vista... é medíocre, é tola, é criança ainda. Mas eu juro. Se ela vier me encher o saco de novo com esse papinho de Chicomania eu surto e dou-lhe umas boas frases de bom nível filosófico, como por exemplo: “ah, vai se foder!” ou do tipo mais elegante, no estilo shakespeariano: “Vá foder consigo ou com alguém. De preferência com quem estiver solteiro, ok?”


Por sed non satiata * 9:47 PM

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Já era madrugada e o sono já não tinha tamanho; o corpo já estava adormecido, envolvido pelo edredom vinho e bege; as pálpebras não mais correspondiam ao que o cérebro coordenava; o corpo já estava lustroso pelos 100 cremes – o das mãos, o do rosto, o das pernas, o dos braços e cotovelos... - ; as pernas não conseguiam mais se mexer, a cabeça já afundara anatomicamente no travesseiro fofinho; a nenhuma roupa de costume já havia sido jogada no chão. Para quê dormir de roupa? E estava posta a cena clássica de todas as noites: hora de dormir... Foi quando, já nos braços de Orfeu, num sono profundo, numa respiração lenta, num embalo gostoso do vento da janela contra o lençol... Senti que o dormir em conchinha tornara-se rígido demais para quem estava relaxado. Percebi uma mão percorrer e deslizar pela minha virilha, e era uma mão que não era minha. Era grande demais para ser minha, apesar dos meus dedos longos. E essa mão, de súbito, conseguiu me acordar. E misteriosamente não apenas acordou, como também umedeceu. Não me movi, até porque ainda estava adormecida na minha posição habitual... Deitada de lado, por cima do ombro esquerdo. Mas ele não saiu dali, e continuou abraçando em conchinha, e continuou com a mão ali. E fez algo com maestria, como sempre faz, e que me faz ver estrelas. Bem ali, sem precisar mudar de posição, e fez, com seu dedo maior, penetrando, e gozei como quem mergulha numa piscina de água morna, num dia frio. Nessa hora imaginei que fôssemos voltar a dormir, mas fui pega no colo e levada ao outro lado da cama. Ajoelhado no chão, nem preciso continuar... E novamente me mudou de lugar. Fomos parar no chão... Embora eu ainda estivesse com o corpo frio de sono, o calor da volúpia era maior. Misteriosamente, tive disposição para movimentos uniformemente variados, até que senti uma câimbra, aquela de costume... Fomos direto para debaixo do chuveiro. A água incessantemente esfriando tudo o que estivesse quente, ou esquentando o que ainda poderia estar frio. Os corpos ensaboando um ao outro, e foi então que voltamos à cama, em conchinha, com o cabelo molhado e prevendo uma linda gripe no dia seguinte, que graças a Deus não veio.

Por sed non satiata * 9:47 PM

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[Terça-feira, Setembro 16, 2008]


Remete às aulas deliciosas de quando fiz Letras, na faculdade. Faz-me lembrar de uma das aulas mais contaminadas de sinestesias e metalinguagens. Sinto saudades, mas não me arrependo de ter migrado para a Filosofia. Apesar de saber que estaria me formando agora em Letras se não tivesse deixado o curso.... Mas eu sou maluca mesmo, e não posso fazer nada por isso. Voltando às aulas de literatura portuguesa, lembro-me até do perfume inebriante que a professora usava. Lembro-me que ela sempre ia dar aula elegantemente impecável, no seu salto alto e nos seus colares coloridos, mesmo que a aula fosse às 7 da madrugada. Essa professora era um luxo! Depois dela jamais hesitei em me arrumar um pouco mais...

Este poema foi apresentado por ela, com seu sotaque gracioso, e distribuído em papéis de xerox, mas ainda assim requintados. Isso aconteceu em 2004, mas jamais joguei fora o pedaço de poema. Guardo na minha carteira, entre cartões e moedas. Compartilho com vocês, especialmente a quem se identificar. Dedico à minha irmã, e a uma amiga que sempre desejo coisas boas. É cúmplice de aprendizados, êêê!

( Adiamento )

Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não...
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjetividade objetiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico...
Esta espécie de alma...
Só depois de amanhã...
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-rne para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...

Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã...
Quando era criança o circo de domingo divertia-rne toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância...
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital...
Mas por um edital de amanhã...
Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo...
Antes, não...
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei. Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã...
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só depois de amanhã...

O porvir...
Sim, o porvir...

( Álvaro de Campos)


Por sed non satiata * 9:47 PM

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Se quiserem, me chamem de chata, intolerante e pernóstica, ou quantos predicativos quiserem dar a esse meu sujeito simples. Mas hão de concordar que, em restaurante japonês, não se pode pedir para aumentar a temperatura ou desligar o condicionador de ar, devido ao frio que se faz, e à teperatura necessária ao peixe bla bla bla. Estamos em Natal, bem sei, e não somos acostumados a morarmos em iglus. Mas dizer que aquilo estava "frio" já é demais.

Meus caros, isso se deu. O grupo ao meu lado, mas nunca lado a lado, o qual educadamente cumprimentou-me, não apenas pediu para que a temperatura fosse acalorada, como também conversava em um decibel capaz de deixar DJs enciumados. Não obstante, cantavam músicas de forró eletrônico, tilitando nas taças de cerveja (com sushi?!!!). Sim. É o povo provinciano do qual sempre debocho.

Eis o clima ( o desejável para eles): calor, cerveja, forró, sashimi... Toca o fole, banzai! Arigató, Riquelme! Arre!!! Chupa que é de uva! Créééu velocidade 16! E a paz? Bom, ela fica para a próxima bomba lançada sobre Natalzaki ou Natalshima... E que não se reconstrua...porque esse povo natalense (me refiro à laia forro-axé-psico-cafuçu) deveria passar por um teste de bomba atômica e entrar em extinção. No máximo eu faria uso do meu espírito solidário e estamparia em uma camiseta: salvem os natalenses. Melhor não... gastar dinheiro com tolice?! Prefiro seguir no lema do "salvem as baleias". Pelo menos com essa campanha eu me identifico.

Eu até tento ser um tanto popularzinha e mente aberta, mas não mexam com meu gosto e nem me incomodem com lixos, por nada. pelo nada. O ser e o nada. Oh, Sartre!!! Valhei-me.


Por sed non satiata * 9:47 PM

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[Segunda-feira, Setembro 15, 2008]


PARTE I – a maluca que fala de si e nunca se cansa disso.

A cena clássica e previsível seria esta:



Mas não é. Porque não é cogente. Em que século estamos mesmo?

E inicio com imagens, desenhos e grafismos, para que a escrita seca e peremptória não pareça cotidiana, cansativa, enfadonha. Porque foi assim que acordei hoje: refletida nas vitrines, talvez aquelas que o Chico subitamente e surrealisticamente canta. Não as vitrines capitalistas, e sim as vitrines do meu ego, dos espelhos e caleidoscópios, do narcisismo. Mas depois falo das vitrines. Quero falar agora da gana de camaleoa, da iniciativa de recomeçar e dar retoques no colorido já gasto do dia-a-dia. E não me refiro a relacionamentos, vão muito bem obrigada, é algo que vem de dentro mesmo, uma coisa mais egocêntrica. Falo de mim. Nunca é fútil sentir necessidade de querer se cuidar. E também não falo de procedimentos estéticos caríssimos. Falo de pequenices mesmo. De respirar fundo, de um suco aqui, de menos macarronada ali. A técnica de usar tomate e pepino na pele é ao mesmo tempo gostosa e revigorante. E por aí vai...

Hoje acordei com as clássicas olheiras de sono pouco, e com os velhos blusões que gosto de usar. E com o cabelo despenteado, a unha por fazer, a casa desarrumada e a sutil lembrança: hoje é segunda, dia de arrumar a casa, dia de arrumar a bagunça do fim de semana. Mas logo me deparei com as maluquices que só eu tenho. “por que? Pra que? Por que assim? Não não!”. E sabe o que fiz? Resmunguei ao travesseiro: “quer saber? Vamos por partes.”. e pronto. Estava feita a rebelião. Prendi o cabelo depois de ter penteado, escovei os dentes, tomei um banho delicioso, pus o biquíni e decretei aos moradores do meu cafofo: vou à piscina. Quando voltar arrumarei a bagunça...

Como costumo ser bastante monocromática, do tipo que só usa preto porque dizem que emagrece e cores escuras porque gosto, quebrei o tédio do biquíni marrom com a canga em estampa egípcia. Tolice, mas a decisão foi que tudo satisfizesse a mim, mesmo nas pequenices. E no colorido da canga misturei o punhado de cacarecos. Meu mp3 com músicas excentricamente mescladas, meus óculos altamente fora de moda, mas que não troco por nenhum outro, uma super garrafinha (daquelas que se leva à academia, com água) com suco de laranja-com-mamão-e-beterraba, e umas chinelas velhas, e foi aí que lembrei que preciso comprar umas novas. E atravessei os blocos desbotados do meu prédio sem cor, em direção à piscina. Depois de um mergulho demorado, nadei. Não na intenção de queimar calorias. Nadei como quem paira no oceano, algo assim. Boiando, de barriga para cima, aquilo tudo. Fiz bolhinhas como criança, dei pernadas como criança, saí da piscina como uma ameba. E me deitei na cadeira reclinada. Lá fiquei. Lá ouvi as músicas que me fazem bem. Lá bebi meu suco gostoso. E por longas duas horas me reservei ao que poderia chamar de momento egoísta. Não fez mal a ninguém, também porque o bebê dormia e o papai mexia em suas coisas de trabalho no computador. Voltei ao apartamento para um longo banho, esfoliei o rosto com açúcar e mel de abelha, mesmo sem saber se isso faz mal ou bem à pele. Sei que a sensação é boa, pelo menos. Depois, parti um tomate ao meio e deslizei pelo rosto. Deixei lá o muco por 15 minutos. Aí lavei o rosto. E me deitei com rodelas de pepino, e creme pelo corpo. Não segui à risca nenhum padrão de embelezamento, apenas de relaxamento. Foi como um exorcismo mesmo. Feito o ritual autista, vesti meu blusão do Led que roubei do maridão e fui em direção aos detergentes, alvejantes, desinfetantes e vassouras. Cuidei da casa como quem dançava balé no gelo. Leve, limpa, refrescantemente renovada. Mas lembrei que ainda preciso – e muito – cortar o cabelo. E hidratar. Eu andava mesmo tão descuidada...

Dizem os astrólogos que no mês que antecede o aniversario a pessoa surta, dá um siricotico nas emoções. Claro que eles não usam esse linguajar, falam mais de planeta que pousa na lua e que trepa com os anéis de Saturno, algo assim, mas eu prefiro dizer que a pessoa surta mesmo. Talvez seja isso, por faltar menos de um mês pro meu aniversario acho que estou nessa “fase de transição”... ou então é coincidência, é coisa da minha cabeça. Mas eu não estou nem aí, porque o que me fizer bem será bem vindo. Mesmo que isso signifique rolar no chão envolvida em papel celofane, cantando “chupa que é de uva”, ou algo do tipo. Eu gosto das maluquices mesmo.

Foram as vitrines que me fizeram isso. Como falei, não aquelas de lojas e shoppings, mas talvez aquelas das paredes do meu quarto, ou do espelho do banheiro, ou quem sabe os reflexos dos talheres polidos. Alguma coisa foi responsável. Estou aproveitando...


putz, o blog endoidou, cadê as imagens? :(

*

PARTE II – a psicopata que gosta de análises complexas.
(já aviso que quem estiver com preguiça não continue a ler, porque falarei mais seriamente.)



E é sobre as vitrines que falo. É sobre elas. Chico musicou o que qualquer pessoa sente e não sabe explanar, as vitrines de dentro e de fora de cada ser humano. É tentar dar som e cor a um espelho distorcido. É um jogo surrealista. Mas então agora quero falar das vitrines do Chico. Sempre me perguntam porque é uma de minhas músicas prediletas... então que explique-se a dona da predileção. De que trata “as vitrines” de Chico, a propósito? E eu respondo: de uma voz contra a luz. A voz do sujeito lírico, que, em vão, soará em advertência a outra pessoa, tentando impedi-la de escapar de seu domínio. E talvez essa voz e essa “outra pessoa” sejam uma só: eu. Eu e minha mente. Mas, continuando..., ainda tentando impedi-la de escapar de seu domínio, a mulher (o Outro) se vai – atraída pela luminos(c)idade. A mulher, objeto incontrolável. Objeto perdido. O poeta, então, cuida de ganhar (ou de inventar) um outro objeto, para suprir o que escapou. A primeira estrofe da musica já prepara uma cena em que a mudança (senão a perda) se insinua:


“eu te vejo sair por aí / te avisei que a cidade era um vão / - dá tua mão / - olha pra mim / - não faz assim / - não vai lá não...”


O verbo inicial prepara o terreno de uma vigília, fundamentalmente escópica, que se fará acompanhar de um refluxo involuntário: o tempo todo, o poeta-guardião verá o que não quer ver, e dirá o que não será ouvido (voz contra luz). E o que ele de pronto vê é um afastamento com destino incerto (“por aí”). O risco (talvez maior para si, na medida em que não terá mais controle sobre os passos alheios) é imediatamente assinalado pelo verbo “avisar”. Adverte-se sobre algum perigo, e o perigo é assimilado não somente à palavra “cidade”, mas ao desdobramento de “cidade” no predicativo “vão”. Se entendermos “vão” como buraco/ausência, inferimos que, exatamente por isso, qualquer coisa pode preenchê-lo, reforçando-se a semântica da imprecisão inaugurada em “por aí”. O tempo todo o sujeito vai desejar o unívoco, o situado, ou, no limite, o estático e o aprisionado, enquanto o objeto de seu desejo será cada vez mais deslizante, fugidio, impreciso, múltiplo. Para cercear essa área de escape do outro, algumas estratégias são convocadas, desde a tentativa de retenção física (em “dá tua mão”) até a de direcionamento do olhar ( em “olha pra mim”), numa escala em que se patenteia um gradativo afastamento do objeto: ele deixa de estar ao alcance dos dedos para estar apenas ao alcance da vista, embora, num caso ou noutro, se mostre surdo aos apelos de permanência ou retorno. Na intenção de querer que a amada olhe para ele, o sujeito deseja, sobretudo, impedir que ela veja tudo mais “que não seja ele”. Já os versos 5 e 6 são praticamente sinônimos, na medida em que “não fazer assim” significa “não ir lá” – lá onde a luz e o desejo a convocam. O “não”, do lado de cá, é barreira (inócua) para o “sim” implicitamente proferido pela mulher – de tal modo que ela, na estrofe 2, circula nos vãos e desvãos da cidade:


“os letreiros a te colorir / embaraçam a minha visão / eu te vi suspirar de aflição / e sair da sessão, frouxa de rir...”


Adiante (estrofe 4), o sujeito se referirá ao espaço de uma galeria. Mas já nesta segunda estância surge um signo associado ao mesmo tempo à modernidade e ao consumo (o letreiro publicitário), e que, além disso, reforça o campo de extrema visibilidade em que a mulher vai circular, correlato e oposto à invisibilidade e à inaudibilidade (aos olhos e ouvidos dela) do elemento masculino. E, neste passo, se arma uma sutil triangulação: ele, do mesmo modo que intentava coibi-la de ver o outro/a luz/a cidade, tampouco se interessa em vê-los – deseja apenas a mulher; todavia, no ato de contemplá-la, acaba recebendo de tabela os efeitos ou reverberações da luz que, positivos quando incidem na mulher, se tornam negativos, num irônico ricocheteio, quando a ele se dirigem: “os letreiros a te colorir / embaraçam a minha visão”. É sugestivo que, no interior do cinema, o sujeito, em vez de assistir ao filme, o perceba “filtrado” apenas pelas oscilações (aflição/riso) da mulher. Pouco importa que ele se recuse a enxergar as manifestações da luz: ele irá obliquamente “sofrê-las” pela mediação refletora do corpo feminino. Na terceira estrofe, tal situação se acentua:


“já te vejo brincando, gostando de ser / tua sombra a se multiplicar / nos teus olhos também posso ver / as vitrines te vendo passar...”


A atmosfera lúdica e prazerosa que envolve a mulher deixa como resto, ao homem, uma sombra multiplicada. Em vertiginosos deslocamentos propiciados pelo desfile feminino, abolem-se fronteiras entre observadores e observada, entre sujeito que vê e objeto que é visto. Desejando-a unívoca, o homem se depara com o múltiplo (verso 2): disseminada em várias imagens, a qual delas se agarrar, ainda mais se, para ele, o que sobra é somente o escuro, ou, no máximo, um brilho de tabela? Vai-lhe cabendo apenas o contrapeso algo paródico da cintilação alheia. E, mais uma vez, ele, de esguelha, é defrontado com aquilo que tentou interditar, vendo as vitrines não por opção própria, mas através de um espelhamento propiciado pelo olhar feminino. A notar, ainda, o recorte sintático operado no verso 1, em que a ausência inicial de predicativo acaba conferindo um grau de plenitude ou satisfação existencial às situações vivenciadas pela mulher, na medida em que ela nos é apresentada como alguém “gostando de ser”. A miragem de uma luz contínua emana da última estrofe:


“na galeria / cada clarão / é como um dia depois de outro dia / abrindo um salão / passas em exposição / passas sem ver teu vigia / catando a poesia / que entornas no chão...”


Ao dia da mulher não se sucede a noite, mas outro dia, já que é ele, homem, um coletor de sombras. Perpétuo movimento feminino, assinalado pela reiteração do presente do indicativo e pelas ações ininterruptas do gerúndio. Em todo o texto, o sujeito dirigiu-se a um “tu” inexpugnavelmente vedado a seu contato, e do qual recolheu apenas restos incômodos: brilho ofuscante de letreiros, impalpáveis e múltiplas sombras. Também aqui se fala de um resto: “passas sem ver teu vigia / catando a poesia / que entornas no chão”. O transbordamento dessa mulher que “gostava de ser” permite a ele, mesmo de modo involuntário (pois ela passa sem ver o vigia), apossar-se de sobras ou cacos de poesia, como a metonímia possível do outro em definitivo perdido. O “resto”, aparentemente um consolo do todo que não se possui, aprofunda a consciência da perda, em vez de mitigá-la. Mas, quando tal resto é poesia, alguma vereda talvez se abra em meio ao sufoco...


Bem, é isso. Teve uma pitada generosa de Antonio Carlos Secchin.
e para quem quiser ir além, eis meu link mais do que favoritado há muito tempo. recomendo:

http://www.bdtd.ndc.uff.br/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=2291


Por sed non satiata * 9:47 PM

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[Sexta-feira, Setembro 12, 2008]


"Querida,

Hoje pintei minhas unhas de um vermelho mais intenso. Gabriela com Rebu. Porque estou grave, porque estou funda. Estou de cor vermelha quase vinho, não mais sangue derramado. Estanquei. Sinto um sossego de aceitação chegando na alma. E nós sabemos que o sossego que vem da aceitação perdura mais que o do entendimento. Nós temos ciclos de luas, águas e colheitas no ventre. Nós carregamos o mundo no ventre. Sentimos o peso de nossos homens, geramos os filhos dos nossos homens. Os homens serão sempre filhos. Não sabem a hora certa. Não têm a fenda aberta. Não deixam o mundo entrar: eles entram no mundo. Trabalham no tempo, sem tempo de parar e entender o tempo do tempo. Entendem do tempo e da vida o que se pode obter em menos tempo para mais vida. Prosseguem. Perpetuam-se. Os homens serão sempre pais. Dos seus incômodos, compadeço-me com todos. As coisas novas do mundo novo parecem tanto ou mais artificiais quanto superficiais. Relações fáceis, prazeres imediatos, máscaras baratas. Nega-se a isso ou a você mesma. É uma via de mão dupla, via de regra. Negando-se ao de fora, mergulha-se no infinito de dentro e vai-se mais e mais para o fundo até se afogar e perder contato. Quase ninguém terá tempo ou fôlego para as delicadezas ou podridões abissais que você encontrar. Por isso, é um encontro único e íntimo apenas.

Que fazer? Uma mulher sempre sabe. Porque quando já não há o que se fazer, uma mulher sempre sabe esperançar. Não os homens, eles sabem sobre gozar e nascer. Morrer, ninguém sabe.

Sem respostas, mas com carinho."



encontrei no google, e após ter lido me deu uma preguiça danada de escrever... dedico então o texto - cuja alcunha desconheço - às amigas, à amiga, querida e cúmplice de textos e Heinekens (putz, que sede!).

a quem tiver escrito o texto, procurei usar as aspas para que o furto nos pareça um quanto menos descarado, ok?

é isso.





Por sed non satiata * 9:43 PM

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[Quarta-feira, Setembro 10, 2008]


Delibo a loucura, sorvo a tempestade da rua, mastigo a impaciência, digiro a calma, e então bebo mais um gole de psicose. Porque sou alucinada, porque sou louca, porque me sinto jovem demais para rotineiras situações. Fecho os olhos e sinto penetrar o fluido da liberdade, do cansaço corriqueiro substituído pelo vigor da individualidade. Difícil de entender? De fora sim. Quem me ler não entenderá tanto quanto eu me entendo. Quiçá uma amiga querida e cúmplice me entenda. Mas aqui dentro bate frenético um órgão que jorra sangue renovado por todos os lados, e que entende mais do que ninguém o que tento expressar por meio de sujeitos e predicados. É respirar fundo e subir a escada, não tem segredo. É não esperar a aprovação de ninguém, nem de quem você espera que aprove. É dizer, gritar pela janela: sou assim e pronto! E ver quem lhe acompanha lhe aceitar assim (e que bom que aceitou...). E pentear o cabelo defronte o espelho, usar aquele batom vermelho e dizer: hoje beberei. Hoje dançarei. Hoje exorcizarei as chateações, cuspirei os tragos poluídos do ser-em-si, do ser-para-outro. Nada a ver com Sartre e seu existencialismo, tem a ver comigo mesmo, com o meu umbiguismo. Um querer que o mundo se dane, que as pessoas efusivas e pouco sinceras se estripem. Vejo o mundo dar voltas... não pela embriaguez, mas sim porque o destino tira e dá, e aos que nos fazem mal tira na exata hora certa: quando mais precisam. Vi quem me fez mal precisar de mim, e apesar de ter tido a oportunidade de me fazer escrota, me ofereci para ser cândida e generosa. É, amiga. Desmaie aí que eu te levo para casa. E foi assim o sábado...

Misturei dois assuntos num só, mas é assim que se expressa minha loucura. O mundo é dos loucos. Quem sobrevive é louco o suficiente por querer sobreviver a esse mundo perturbado. É se fazer um tanto psico-sadomasofrews, masoquista ou sei lá. Porque é difícil viver em sociedade, e por isso digo que só os loucos conseguem. Porque conseguem contornar as chatices, até mesmo os carros de som que passam de meia em meia hora aqui na frente do apartamento. Melô do político corrupto para cá e para lá. Paródias, batuques, funks e forrós. Se eu não fosse louca, não usaria o mp3 na hora correta. E foi no momento em que passou um carro de som irritantemente cafuçú que decidi apertar o play: escutei randomicamente Billy Idol. É por isso que estou assim agora: maluquinha. E acabei misturando mais um assunto, né?

Acordei de bom humor. Bom, muito bom, muito mais do que bom. O dormir de conchinha é mais relaxante que qualquer spa. Dormir cedo também. Ser acordada às 3 da manhã com alguma coisa dura ali por baixo da colcha, mais ainda... e voltar a dormir às 5h não é cansativo. Só um pouco de câimbra nas pernas... mas essa não entendi. Não estava nem de ressaca...!

Que saco, puxa, que saco. Mulher é bicho bobo. Reclama, mas nessas horas se derrete... Amiga, vamos beber. Brindemos ao homem que nos ama com fervor, e brindemos à nossa paciência por aturar as pentelhices. E brindemos ao bicho mais forte que existe no mundo: a mulher. Pois mulher é bicho forte. É bicho inteligente. E é bicho que é amado por homens. É bicho que tem um dia-a-dia ensurdecedor e, ainda sim, se faz divertido e bonito. É o bicho MULHER! Deixa as pentelhices e incompreensões para guardar numa caixa colorida, em meio a fotografias de infância. Brindemos ao sexo, ao gozo, ao dormir em conchinha, ao feijão com arroz e empadões de palmito, ao lavar louça e cuidar da casa, ao filho que foi gerado, e principalmente porque o filho nasceu perfeitamente lindo, a cara do pai e a cara da mãe. E é nessas horas que amo mais meu homem - quando o vejo transfigurado no rostinho do meu filho e digo: meu filho é lindo! Tem nossos trejeitos e é lindo! Bah, nasci pra amar mesmo. Mas ainda assim sou louca, tá? E ainda assim abusei do rock rotineiro dos fins de semana. Mas fazer o que? Existe vodka pra isso.

Lembrei-me da semana passada. Não que eu tenha TPM, mas tenho o que chamaria de mau humor. Mau humor por estar melecada, por estar inchada, por estar com cólica, com dor de cabeça e boca seca. E nesse contexto de péssimo humor decidi: quer saber? E fiz. Uma panela de pipoca, uma panela de brigadeiro. E sem querer (guloso tem faro apurado, ave Maria!) me vi deitada na cama rodeada por filho e marido. A típica cena de novela de Manoel Carlos: família unida, rindo e saboreando guloseimas. Faltou só a musiquinha de fundo a la Bossa Nova. Faltou também me chamar Helena. Hehe. É, Ícaro não ficou de fora... mas ele não teve dorzinha de barriga não. Ele é baganeiro, tem o gene do pai. E detonamos as calorias com goles de guaraná. Estávamos os três, refestelados e com panças cheias, de pernas pra cima e vendo Cocoricó. Comer comer comer comer comer é muito bom. Morri de rir com o arroto de Ícaro, quando terminou de tomar o guaraná. O coitado ficou sem entender o estrondo...


Por sed non satiata * 9:43 PM

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[Terça-feira, Setembro 02, 2008]


Sinto-me atordoada com as coisas pendentes, por fazer, procrastinadas... sinto um remorso por não estar me dedicando tanto ao que gosto. Por pouco não choro nas aulas de grego, pensando: poderia ter lido mais na noite anterior! Tenho subordinado um pouco as disciplinas filosóficas. A minha vontade é de atravessar madrugadas deitada por cima dos papiros, como fazia outrora, ou passar as tardes rodeada por xícaras de café, cigarros e livros rabiscados em grafite. Sinto saudades da minha tara por estudar. Mas a justificativa é mais do que plausível: as 24 horas do meu dia são de mãe e esposa. Apesar da renúncia, não há como negar que é compensadora. Ainda tenho tempo, dá para esperar. Daqui a uns anos meus meninos (o de fraldas e o de barba) crescerão, e voltarei a ter meu tempo de gozo filosófico. É uma certeza, tal como o especial de fim de ano do Roberto Carlos, ou como os políticos corruptos do país, ou como minha câimbra na perna ao trepar de ressaca, no dia seguinte da bebedeira. Enquanto isso sinto saudades, mas aquele sentimento – o primordial para ser mãe – chamado paciência prevalece. Enquanto isso, sacrifico algumas boas noites de sono entre dicionários e gramáticas de grego, entre livros sobre metafísica e entre extensas pilhas de livros sobre psicanálise. E olhe que só me matriculei em 3 disciplinas... sorte que o turno matutino é do maridão, então posso acordar mais tarde.

Prestei atenção nas coisas que me rodeiam. Elas estavam sempre ali, e eu nunca tinha parado para analisar. Pessoas efusivas e nem tão confiáveis assim; pessoas discretas e sutis, mas nem tão bobas como parecem. Pessoas que me rondam anonimamente, e que na primeira embriaguez se assumem. Uma amiga que no fundo faz o possível para que eu me sinta mal, e não porque fiz algo, mas sim porque não se sente bem consigo. Por outro lado, verdadeiras amizades têm crescido consideravelmente. Essa vida é mesmo cheia de mistérios, compensações e indigestões, não é mesmo? Já dizia minha irmã: é muito difícil viver em sociedade. E já dizia Saramago: "É bem certo que o difícil não é viver com as pessoas, o difícil é compreendê-las..." (Ensaio sobre a cegueira)...E eu concordo piamente. Se pudesse viveria enclausurada, não porque não gosto de pessoas, mas porque é difícil o convívio pleno. Tem sempre alguém que lhe decepciona, mas tudo bem, tem sempre uma amizade nova. Ah...Tem sempre uma pessoa com opinião contraria, tem sempre alguém fodendo sua confiança. Há aqueles que esperam sua queda, há aqueles que lhe ajudam, enfim... que filosofia de boteco essa, hã kika? Mas é isso mesmo. É difícil viver em sociedade. É um saco pegar o elevador e encontrar colegas de prédio lá dentro. E saber que a madame bem vestida dá palmada no menininho de 4 anos, e o marido dela briga com ela e chega tarde em casa. Já o vi ali na calçada se despedindo de uma amiga para quem dá carona todos os dias... se não fosse tão chato viver em sociedade, já teria contado à madame que dá palmada no filho. Mas eu nem sei o nome dela. Por falar em vizinhança chata, lembram da vizinha mocréia antipática? E do meu plano de jogar ovo podre lá...? descobri algo melhor. Numa de minhas rotineiras tragadas na janela, ouvi um burburinho: “porra, essa droga de cigarro de novo!” (olha aí a madame no seu linguajar finíssimo!) decidi que qualquer dia comprarei um maço daqueles cigarros bem fedorentos e acenderei um a um na janela, empilharei num copinho, quando o vento favorecer a direção da janela dela.


Por sed non satiata * 9:42 PM

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[Segunda-feira, Agosto 25, 2008]


Foi numa noite típica de sexta-feira, num contexto musical já rotineiro. O rock, a banda no palco, a bebida peculiar, os cigarros, o maridão empolgado, as boas companhias. Foi quando surgiu um protótipo de sei lá o quê, cuspindo desespero de pseudo-fanatismo. Lançava frases absortas do tipo “sou mais fã do que você, não há fã mais fã que eu.”. E foi aí que minha vontade contida de cair na risada começou. A primeira premissa para realmente ser sincera e simplória: não precisa se afirmar o tempo todo. Mas ela não se lembrou disso. E me perguntou: “qual a sua música predileta de Chico Buarque?” educadamente (pensando: quem é essa figura?) respondi: hum, talvez Caçada, ou Vitrines, bem... e fui interrompida por um tom infantil: rá! Ta vendo! Você não é fã coisa nenhuma. Fã de Chico Buarque não tem música predileta!!! (seguido de um arzinho pomposo). Confesso que nessa hora eu tentei muito, muito muito não rir. Me contive, me compadeci. Eu poderia ter mencionado essa frase entre aspas, porque é o maior clichê que um pseudo-fã pode cuspir da boca. “Ah, fã do Chico não tem música predileta.”; “hum, porque ‘Atrás da Porta’ e ‘Tatuagem’ são...”, “porque o ‘eu-lírico feminino’,” “ah porque Chico é recatado”, “Chico Buarque não canta bem, mas canta bem mesmo assim”... é o que se encaixa perfeitamente na expressão “lugar comum”. São as frases prontas que algum pseudo-intelectual inventou e o senso comum repete, na vã intenção de vangloriar uma admiração rasa e um conhecimento supérfluo. Sem falar que ao articular sobre a obra dele citam sempre Budapeste... Não que os fãs de Chico sejam obrigados a ir além disso tudo, mas é que eu percebo quando a coisa passa de sincera a arquetípica e clichê. Conheço muita gente que, ao invés de escrever na testa “sou inteligente, eu juro”, cita banalidades cafonas sobre Chico Buarque, Tom Jobim, Nietzsche etc., só para que o ar intelectual seja imposto à força. E tem gente que acredita... Mas foi assim que ganhei a noite. Diverti-me com “não existe música predileta”. Fiz um esforço muito grande para não rir da cara dela, mas não sou pernóstica a tal ponto. Imagine se isso fosse verdade, se o próprio Chico tivesse decretado que não pode ter predileção para ser fã de verdade. E quanto a BB King, Billy Idol, ou a Enigma, de quem também sou muito fã? Então quer dizer que também não posso ter alguma música predileta? Claro que sim. Por que só de Chico Buarque que não? Ele é algo diferente de compositor e escritor? Achei que ela poderia ter passado sem essa...E ela não é má pessoa. Apesar do senso comum, a intenção era boa. Mas de super-fã, está mais para fã clichê...

Por motivos que ainda não sei explicar, passei a madrugada de domingo para segunda em claro. Mais uma vez a insônia...! motivo suficiente para abrir meu livro de Bukowski e colocar o MP3 no ouvido. Falando nisso, já é rotineiro ao acordar ligar o player no aleatório. A expectativa de qual música ouvir primeiro é gostosa. Por coincidência, a música sorteada de hoje foi “Umas e Outras”, do Chico. Fazia tempo que não escutava ela. Comecei o dia bem.


Por sed non satiata * 9:42 PM

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[Quarta-feira, Agosto 20, 2008]


Depois de discorrer sobre o tempo, decidi procurar o analista mais próximo de casa: sentei no sofá, deitei no divã meu alter ego e pedi que proferisse tudo a mim, sem rodeios e prosopopéias. Ouvi cada ladainha...! burburinhos a respeito de abstrações, narcisismo de 1,60m e diagnostiquei: complexo de boneca. Faz parte dos meus defeitos (digo, dos defeitos do meu alter ego) querer sempre extrair a rotina, deixá-la para escanteio. Mas o que é a felicidade senão uma constante? Felicidade é rotina, é calmaria, é tudo bem. e bem que me queimei agora... cadê o cinzeiro? Sentada no sofá, prestei atenção em cada detalhe do alter ego, deitada. Os olhos rodeando o teto da sala, as mãos cruzadas na vã intenção de encaixar as idéias soltas, as pernas cruzadas e esticadas, balançando os dedos dos pés. É a típica cena de quem não tem nada a ser mudado e analisado, e por isso não cobrei a hora da consulta: vá pra casa, deixe o tempo para os velhos. Não vi defeito nenhum na sua vida. Você que é boba, espera o quê? A terceira guerra mundial? Tome, pegue o dinheiro e sua ficha de análise. Desculpe aí o desenho, foi o tédio ao lhe ouvir...
Ofereci-lhe um energético e um whisky, on the rocks. Tragamos alguns copos e cigarros, ouvimos boa música enquanto o músico saiu para ensaiar, e só paramos quando o bebê – dono do mundo – acordou. Aí então tomamos um café forte, mas não que tenha embriagado o trago, é só para dar disposição. Tá, admito. É que aprendi a usar a cafeteira que ganhei no casamento, e agora é meu novo brinquedo. ligamos a TV, assistimos a um filme infantil e então dormimos, eu, meu alter ego e o bebê, na cama.


Por sed non satiata * 9:42 PM

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É tipo assim. Tem a tela branca defronte à cadeira, e tem a cadeira, na qual estou posta de pernas cruzadas, e tem as pernas, mas delas eu não tenho nada pra falar não. É que mais uma vez a minha capacidade onírica deixou a desejar, e cá estou resmungando para a insônia, romanticamente. Não que eu tenha algo pra falar hoje, é tudo aquilo lá que já disse. To com uma puta d’uma falta de criatividade, tem tanto escritor bom no mundo que pelos meus cálculos eu estaria tipo em último, essa coisa toda que olimpíada dá, de querer colocar tudo em lista, primeiro, último, isso tudo. Aí a pessoa tem que ser primeiro lugar em tudo, e eu não tenho saco pra isso não. Por isso que penso que não dá para se desvencilhar do conformismo. Eu sou assim e pronto! Aquela atriz é mais bonita, paciência! Aquele escritor é mais reconhecido, tá bom então! Aquele cantor é mais bem favorecido naquela luz, e aquele nerd ali no banquinho sabe melhor a tabuada do que eu. então basta. Pelo menos eu ainda posso fazer alguma coisa, um ovo frito, sei lá. Ah, ando um pouco desnorteada. Existe algo mais grandioso que o tempo????? ciclicamente tudo volta aonde parou. O tempo aperfeiçoa o vinho, torna o whisky mais saboroso, deixa o ser humano mais sábio. e é sobre o tempo que pretendo escrever um ensaio, mas aí eu fico só na vontade e encerro o parágrafo.


Por sed non satiata * 9:42 PM

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[Sábado, Agosto 16, 2008]


É a droga da insônia que fode tudo na véspera. É a insônia suicida: eu sei que preciso dormir, mas não consigo. Suicida porque sei que amanhã o dia será prolixo, e que no final dele o pro deixará de ser e se tornará apenas lixo. Lixo ambulante, cansaço, coluna estilhaçada, sorrisos, fotos, lancheiras. É aí que entra a insônia. Lembro o tempo todo de verificar se as lancheiras estão em ordem, ordenadamente preenchidas com as balinhas e brinquedinhos. É que eu também me lembrei de checar a roupinha do aniversariante, se os botões estão no lugar, se a costura ficou bem feita. E deixei em ordem - já separados - meus acessórios: a roupa, o calçado, as frescurinhas. É aí que vem de novo a ânsia de checar mais uma vez as lancheiras, de ver se as pipocas estão em ordem, de revisar toda a lista de convidados e...lembrar que esqueci (hã?) de convidar algumas pessoas. E logo as mais óbvias! Tipo o vizinho de infância, e por aí vai. E então ando mais uma vez em direção à caixa onde estão as lancheiras. Será que coloquei bagana suficiente? Melhor fumar um cigarro na janela. Acendo rapidamente um carlton, e me deparo com a janela aberta do vizinho da frente: ugh, ele está sentado no sofá, só de cueca! Melhor apagar esse cigarro e checar as lancheiras. Será que coloquei pirulito? Preciso dormir, preciso dormir. Mas os balões reluzem na minha cabeça. Os brigadeiros e beijinhos salpicam na minha memória degustativa (existe essa?). as lancheiras... putz! As lancheiras! Será que estão esquentando os chocolates? Tem esses arranjos de mesa também. Ai! Para quê fui me lembrar... os arranjos! Que fiasco! A mulher que os fez só podia ser míope. O resultado final ficou pior do que cagar nas calças. Mal pintado. Mal feito. Só de pensar que eles estão sendo pintados (re-pintados) pela minha sogra... ah, minha sogra é um anjo. Sabe aquele clichê, fulano é minha fortaleza? Ela é a fortaleza da véspera. Ela é uma mãezona. E deve estar como eu, com a ansiedade da véspera e a falta de um dormir que é mais do que necessário, mas não estamos fazendo. Resta a prolixidade associada com o divertimento. Estamos a mil, pensando na primeira festa do bebê de asas. Dizem que o tema circo no primeiro ano dá sorte. Vai ficar bonitinho. Reacendi o cigarro e fui para a janela que dá para o outro lado da rua. Lá não tem nenhum vizinho de cueca, pelo menos. E esqueci-me de fazer a porra da lista para deixar com a recepcionista, e esqueci de gravar a droga do cd para tocar na festa. Os palavrões vieram sem querer, acho que é o sono chegando. Me enganei, to com mais insônia do que nunca! Acho que vou arejar as lancheiras. Enquanto estou aqui esquematizando o abstrato, escuto o barulho de 4 pneus freando bruscamente. Queria entender por que os carros teimam em bater justamente na frente do meu apartamento! Rotina: cafuçus rodeando os acidentados, samu chegando, fragmentos de vidro no chão, amanhã de manhã.

Já sei: banho quente, o cd de bob dylan, uma taça de vinho e algum filme repetido - sem legenda mesmo. eu meio que entendo bem sem legenda. eu me viro sem legenda. tá, eu já me formei no curso de inglês, tá? eu me exibo às vezes. -, meias coloridas, pijama do marido, cabelo úmido, creme no rosto: combinação supimpa.


Por sed non satiata * 9:42 PM

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[Segunda-feira, Agosto 11, 2008]


Foi no dia 11 de agosto de 2007. Foi quando ainda não estava previsto, tal como tudo o que tenho e vivi de mais extraordinário. Veio assim, de forma imprevisível, e foi por isso que beirou o incrível. Sem planejar. Sem prever, sem esperar. Numa manhã rotineira, senti as contrações. Poucas semanas antes do que eu imaginava. E foi assim, no dia 11 de agosto, na véspera do dia dos pais, há um ano, que um mundo nasceu. O mundo realmente nasceu. Foi às 18:05. Foi como a aurora. Foi como o começo do ar, do chão, do céu, de tudo em volta. Foi como se não houvesse nada que antecedesse esse dia.

Foi quando te olhei pela primeira vez e não acreditei. Foi quando eu só sentia, mas não te ouvia. E ali, quando acordada vi você saindo pouco a pouco de mim, não pude me conter. Eu finalmente conheci a sua voz!, e finalmente reconhecia seus traços, as linhas e formas do seu corpinho vermelho. Foi quando o segurei pela primeira vez, usando a roupinha que por longos meses dobrei e redobrei, esperando sua chegada. Fechei os olhos e me concentrei apenas em sentir o cheiro da sua pele, do seu hálito, do seu pouco cabelo. Toquei e beijei cada dedinho, e a ponta do seu nariz, tão igual ao meu. Nenhuma outra boca tocaria meu seio com tamanha magnitude. Foi quando você acordou, e abriu o olho pela primeira vez. Quis penetrar seu olharzinho como quem quisesse de uma só vez despejar uma eternidade de amor. E eu chorei. Chorei, chorei por longos dias. Não consegui acreditar no que via, tão real e tão inacreditável. Foi quando te coloquei pra dormir pela primeira vez. Foi quando sarei tuas cólicas, quando troquei suas fraldas, quando dei o primeiro banho, já no primeiro dia em casa. Foi quando me senti nervosa ao cortar suas unhas tão pequenininhas, pela primeira vez. Foi quando reconheci sua respiração, como se a ouvisse desde sempre. Foi quando vi seu primeiro riso, sem motivo, e brinquei, dizendo que ria para o anjinho da guarda. Foi quando passei a ter olheiras e a acordar cedo, para cuidar de você. Foi quando me vi já mais velha e vendo você me apresentar suas namoradas. Foi quando olhei pro teu pai e te vi também cheio de barba e tatuagens. Foi quando já não mais fazia limpeza de pele, spinning ou algo fútil, só para que tivesse tempo para meu filho. Foi quando chorei emocionada só por reconhecer nele os meus traços, meu nariz, meus trejeitos, a mesma posição ao dormir ou ao sentar. Foi quando me identifiquei com amigas que também são mães, e hoje em dia são minha inspiração, fruto de aprendizado. Foi quando me esqueci de pentear os cabelos, ou quando me preocupei com a temperatura do ambiente, foi quando me importei com o barulho em volta – e que antes eu não ouvia -, foi quando me importei com “mau olhado”. Foi quando me preocupei em passar pano no chão da casa todos os dias. Foi quando senti seu cheirinho de bebê em qualquer lugar que eu fosse. Foi quando passei a levar comigo, na bolsa, uma meia sua, com seu perfume. Foi quando senti saudades de você, quando fiquei longe por míseros 5 minutos.

Foi quando você aprendeu a sentar, e quando fez careta ao provar a primeira sopinha. Quando falou “mamãe”, bem antes de aprender a falar qualquer outra coisa. Foi quando você aprendeu a bater palminha, e a engatinhar pelo chão da casa. Foi quando você aprendeu a querer, e a dizer “nã” quando não queria alguma coisa. Foi quando inseri na lista de compras papinha, leite ninho, frutas e pomadas. Foi quando aprendi canções de ninar que minha mãe e minha avó cantavam e eu nem me lembrava. Foi quando me preocupei com a violência no mundo, e quando chorei com as noticias ruins do jornal. Foi quando não vivi mais a vida inconseqüentemente, e desejei morrer bem velhinha, só para não perder nada do crescimento do meu filho. Foi quando por inúmeras vezes queimei o almoço no fogo ao me esquecer do mundo, só para te olhar no berço. Foi quando perdi e ganhei quilos, ao ocupar meu tempo todinho com você. Foi quando me esqueci de almoçar ou jantar, só para te amamentar. Foi quando você passou de banguelinha a dentucinho, e quando aprendeu a morder meus dedos, que hoje estão sempre vermelhinhos... foi quando me curei de cansaço só com sua risada. Foi quando vi meu corpo mudar depois da amamentação e do barrigão e ter certeza que faria tudo de novo, por mais que algo caísse. E foi quando me senti confortada ao ouvir do meu marido: “ta beeem melhor assim!”. Foi quando passei a amar mais meu marido, ao vê-lo se dedicar tanto ao filho, antes de qualquer coisa. Foi quando descobri que meu filho tem cócegas nos mesmos lugares que eu tenho. Foi quando te fiz cócegas, só para quebrar o silêncio da casa. E por tantas vezes você, inocente e sem entender, deslizou suas mãozinhas no meu rosto cheio de lagrimas, quando por muitas vezes precisei chorar e só você sabia me consolar, olhando e rindo para mim. Você as enxugava sem saber, e passava a mãozinha na roupa, fazendo careta. Foi quando você me fez companhia enquanto o papai saía para trabalhar. Foi quando você despertou tanto brilho nos olhos do pai, e o fez virar criança de novo. Foi quando você o fez falar com voz de criança e eu me surpreendi com esse lado coruja dele. Foi quando você aprendeu a dormir do meu lado, na cama, assistindo TV. Foi quando teu pai ensinou que chocolate é muito bom, mas não pode não, viu?

Foi quando arrumei a bagunça da casa revirada, diariamente, só para que você pudesse bagunçar de novo, ao engatinhar e descobrir tudo. Foi quando meus livros já não ficavam mais organizados na estante, separados por autor, cor, tamanho. Alguns já não têm mais capa. Foi quando comecei a ter opinião sobre marcas de fralda e lenços umedecidos. Foi quando chorei na sua primeira vacina, com pena da dor. Foi quando me preocupei em tirar objetos perigosos da sala e tapar as tomadas da casa. Foi quando isolei os produtos de limpeza. Foi quando você aprendeu que celular é bom demais, e que tá na hora de ligar pra vovó vera. E foi quando aprendeu a desligar, bem na hora que eu estava conversando com ela. Foi quando você aprendeu a imitar os bichos, a torcer pelo time do pai, a fazer as coreografias, a bater o pezinho quando ouvia rock. Não fiquei um dia sequer sem me deleitar com uma risada gostosa, ao me divertir com suas estripulias inusitadas. Eu não consigo mais esconder meu brilho no olhar.

Há um ano nasceu um filho, nasceu meu filho. Há um ano nasceu. Há um ano, nasceu também uma mãe. Nasceu um pai, nasceram avós, nasceram tias, nasceram sonhos e planos. Nasceram as fraldas empilhadas na cômoda. Nasceu a experiência de amamentar, de dar banho, de dormir pouco e zelar muito. Tudo assim, recém-nascido, com aura de alvorecer. Nesse dia, nasceu a lágrima de emoção. Nasceu o pranto de prazer, tão contraditório e tão sublime.

Todas as sensações anteriores foram nefastas diante do que aconteceu. Diante do nascimento, não percebem que amores, paixões, luxúria e embriaguez são futilidades? Que o simulacro em volta (e que parecia o centro de tudo) é praticamente nada? Vocês realmente dão importância a isso tudo? Amizades, inimizades, dinheiro, status, “baladas”, festas, namoradinhos, ex-namoradinhos, cabelo penteado e roupa nova?

É difícil acreditar que algo tão utopicamente perfeito acontece, não apenas nos contos de fadas. Faz 1 ano que nasceu meu mundo... Quão perfeito ele é. Ah... O mundo...! Aquilo que gira em torno do Sol não é o mundo. Aquilo é um espaço vazio onde tudo é depositado. O mundo verdadeiro acabara de nascer... e hoje completa 1 ano. Antes disso tudo era nada, eu era nada. Hoje, sou tudo. Tenho tudo. E sou sincera na minha convicção: tenho TUDO sim. Sinto aquilo de mais sublime que ninguém mais – só quem é mãe - sente. Jamais me arrependerei do que vivi.

Hoje, trago comigo lembranças e aprendizado de um ano, e medalhas de honra que levarei comigo para toda a vida: minhas estrias e a cicatriz da cesárea. Levarei junto um amor inefável e inesgotável.

E pronuncio duas palavras como sendo o resumo da minha existência: meu filho.


Por sed non satiata * 9:42 PM

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[Sexta-feira, Agosto 08, 2008]


O dia amanhece em tons pardos e grisalhos, e a única vontade é a de não sair debaixo da colcha vinho e branca. O cabelo, ainda no rosto, esboça o formato do sopor ainda em acúmulo, o sono ainda é perturbador... sono de quem saiu na quinta à noite, após a aula de grego, com a desculpa de distribuir uma parte dos convites – e voltou para casa bêbada. Tem sempre uma cerveja gelada no meio de todo caminho. E sempre uma ressaca que entorpece o sono pela manhã do dia seguinte...

Escuto os lampejos de ostracismo mental e esboço uma expressão de desprazer. É notória minha falta de inspiração, é uma paisagem em letargia de filme italiano. É uma grama verde, onde não se vê nada em volta, só a grama plana e extensa. No fundo, uma árvore solitária, quiçá de muitos anos, mas sem frutos, só muitas e muitas folhas. No meio da imensidão verde há uma cadeira de balanço, de cor branca. Nela não há ninguém... E justamente esse ninguém representa minha inspiração. A cadeira balança sozinha, embalada pelo vento forte. Dá para ouvir a zuada do vento. Dá para ver umas folhas soltas voando na direção que o vento as leva. É a típica cena de inércia, de liberdade muito embora aprisionada. Não há a menina sentada fazendo seu tricô de costume. Não há um cachorro correndo atrás de uma bola, nem uma criança correndo com ele. Há a letargia, sinapse de silêncio e tédio verborrágico. Apesar de ter tanto amor para narrar, existe o medo da tautologia piegas. Acho que o tricô a ser tricotado (putz) sentiu medo do lugar-comum, e então já não há dedos corajosos o suficiente para dedilhá-los. A coragem ficou toda na vontade... Vocês enjoariam se eu mais uma vez falasse do amor e do dormir em conchinha?

Embaralho meus dedos enquanto dedilho o teclado e ao mesmo tempo seguro o cigarro, corro o risco de deixar cair cinzas na mesa... Pior que deixei o cinzeiro na sala. Os dedos e o cigarro se confundem, será o vicio da nicotina ou o vicio de escrever? Olho pela janela e vejo a frigidez do cotidiano. Concreto por todos os lados, apartamentos desbotados com nomes em inglês, do tipo Sun garden beach flower sunset apartments. Carros apressados correm para lá e para cá, pedestres frenéticos fitando o chão de asfalto, nenhum “bom dia” ou “como vai”. As cores das roupas se confundem com o cinza da cidade grande, e o porteiro já trabalha no estilo dos operários daquele filme, tempos modernos.. grande Chaplin. Abre e fecha o portão do condomínio com sua camisa azul de porteiro, com a sua calça preta de porteiro, com o seu tédio estampado de porteiro. Limita-se a observar quem entra e sai, vê mais os carros do que quem está dentro deles. O barulho do trânsito agora é quebrado por mais um carro de som, daqueles irritantes de época de eleição. Corre o risco de acordar o bebê dormindo ali no berço... por falar nesses carros, tenho passado mal ao ouvir as paródias estapafúrdias que os candidatos têm criado para a campanha. Daqui a pouco recriam chupa que é de uva. Seria como a paródia? Vota que é de bosta? Escolha que é de rolha?

Estou no meio da tarde e antecipo os goles do vinho peba que beberia à noite, ouvindo rock do marido. Não, não sou alcoólatra, não bebo na intenção de embriaguez. Não sou, infelizmente, um daqueles escritores velhos e bêbados, no estilo bukowskiano. Só estou com sede. E é só uma taça. Acho que cai bem com o gosto do cigarro.

A forma como ele mordeu minha orelha, noite passada, enquanto gozava... Lembrei-me disso quando agora percebi que só estou com o brinco esquerdo. Será que ele engoliu o direito? Era meu brinco predileto, putz...

É nessas horas de dormir em conchinha e de ronco no ouvido que começo a lembrar do protótipo de mulher de músico. O homem em cima do palco terá sempre um sex appeal, um quê de mistério e sensualidade que faz muita mulher boba fantasiar. Eu acho graça, porque aquilo lá em cima cantando é um mero personagem. É como um, sei lá, Elvis Presley de cera, num museu de cera. É só um personagem... o homem verdadeiro mora comigo. Trepa comigo. Morde minha orelha enquanto goza, engole o meu brinco predileto, bate no meu quadril enquanto geme. Aquele lá, o de cera, me deixa envaidecida, pois presto atenção nos olhos brilhando das mulheres vulgares que o assistem. É um pouco fantasioso. A propósito, respeito a fantasia das outras. Vivo isso na pele, mas a coitada da mulher tem lá seus 40 anos, então só faço achar graça das fantasias dela. Enquanto ela suspira ao vê-lo cantar, estamos eu e ele na cama, sem roupa, dormindo um soninho gostoso. E o mais irônico é que ele – e não eu, que ironia – está justamente fazendo piada sobre ela, falando sobre suas rugas e sobre a meia de puta que ela usou naquela noite, na intenção démodé de conquista. Enquanto alguém lhe paga uma bebida anonimamente, ele solta um beijinho pra mim. Enquanto elas rebolam à sua volta, ele está aqui, trocando fraldas do nosso filho, fazendo meu café da manhã, arrumando a barba diante do espelho, fazendo massagem nas minhas costas, contando segredos seus. É assim a rotina. E a fantasia das “fãs” é efêmera. Caramba, será que ele engoliu o brinco mesmo? É melhor procurar debaixo da cama.


Por sed non satiata * 9:41 PM

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[Segunda-feira, Agosto 04, 2008]


Arroz integral, couve, couve-flor, pepino, alface, aipo, alcaparras, alcachofras, cebolinha, aspargos, palmito, cogumelo, azeitona, brócolis, abobrinha, vagem, tomate, pimentão, repolho, cebola, batata, chuchu, beterraba, laranja, mamão, lentilha, Kani kama, bife de fígado, óleo de canola, pão integral... e assim consagro a insônia do último dia de férias: escrevendo a lista de compras. Salivando... por que nasci amando comida “ruim”?

Mudando de assunto, para ver se a salivação não acarreta em fome na madrugada.

Vou negar que sou uma contradição? Indo mais além, em primeira pessoa do plural: que somos (todos nós, seres bípedes). E acho que isso é inerente... Não exatamente acho, creio que vai além da certeza. Qual ser humano evita de ser paradoxalmente contraditoriamente dicotômico? Rendo-me aos costumes fúteis da internet, como muitos, deixo pistas de onde piso ou mijo. Depois, ainda com ares de injustiçada, reclamo da falta de privacidade, da curiosidade alheia, da fofoca, do hábito diário – muito embora não anônimo – de pessoas que religiosamente acessam abstrações afim de a curiosidade estúpida ser nutrida: realmente importa saber se eu arrumei a cama ao acordar ou beijei na boca do meu marido? É estapafúrdio, patético, burlesco, cômico, faceto, tudo isso e muito mais, para não dizer que tento banalizar a curiosidade. Pessoas que numa inocência retardada (e cega) criam fakes no Orkut, e sonham que ninguém jamais descobrirá. E nessa invisibilidade cara de pau saem por aí, recolhendo o que possa nutrir suas cabeças de vento e cocô. Não obstante, arranjam meios de descobrir sites pessoais, como este aqui. E ficam a par da rotina de quem não lhe deu as boas vindas. E fazem de conta que não o fazem. E quando nos vê em público, faz a cara provinciana que só o natalense sabe fazer, aquela “fazendo a egípcia” e fingindo que é superior: vira a cara e faz de conta que nem o nome dos outros sabe. É a porcaria dessa província, com pessoas abutrianas, primatas, ignorantes, de cultura rasa e inferior. Não me refiro a gosto musical exatamente, pois dou o crédito de forró e samba serem culturalmente sons brasileiros. Refiro-me ao que fede mais que esgoto aberto: o cocô que foi implantado no lugar onde deveria existir um cérebro. Voltando ao assunto dos abutres curiosos, fingem todo um glamour, mas são lagartas. Nos “points” da modinha, equilibram-se em saltos e estampas padronizadas, em músculos sem neurônios, em escovinhas e tonalidades da estação. São todos inesgotavelmente iguais. São patéticos, mas eles se veneram. É assim que o ridículo se faz. Enquanto isso, fingem que não, mas cutucam quem nem conhecem, e essa raiva eu tenho mesmo sabendo que de certa forma mereci: quem procura acha... e se eu fiz, mais cedo ou mais tarde alguém vai encontrar.

Então, pessoas mediocremente curiosas: podem ficar por aqui, mas não percam de vista a fiúza de que eu SEI quem lê isso aqui, um por um. Deixo até a oportunidade de brincar de anonimato, embora saiba e confesse que mesmo assim eu ainda saberei.

Este desabafinho de gay pseudo-famoso afetado não se refere às meninas das quais adoro a visita. Pelo amor de Deus! Finjam que nem leram isso aqui!


Por sed non satiata * 9:41 PM

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[Sexta-feira, Julho 25, 2008]


Se houvesse a necessidade de listar palavras desconexas, austeras, soltas e atrozes sobre o que chamo de sentir, listaria – não em ordem alfabética – um bocado. Remorso, culpa, incompreensão, e um bando de etecéteras. Foi quando pensei no clichê “poderia ser pior” (o marido da vizinha é gay enrrustido, a madame do 401 é corna, o porteiro do prédio tem 2 esposas...), desconfiei de estar reclamando de barriga cheia. Hoje eu entendo a frase célebre que diz “o problema não é você, meu bem, sou eu.” E fui eu, só eu. O problema foi comigo. Foi muito conveniente listar defeitos n’outrem, assim justificando minhas sensações. É mais fácil assumir a culpa: fui uma ruminada (ante) mimada. Acostumei-me com o conto de fadas, e logo então me senti completa. E logo então me vi no direito de reclamar. Como diz aquela música “te perdôo por fazeres mil perguntas (...)...”, eu o perdôo por tê-lo feito de segundo plano, o perdôo por ter sentido ciúmes de mim, de coisas que não fiz... na verdade não o perdôo. Eu que peço perdão. Por pouco arrumei as malas, blusas em rolinho, calças estiradas para não fazer volume, pasta de dente, óculos, livros no canto da bolsa, carteira de identidade sem fazer alarde. Não é possível. Não é possível que eu tenha deixado de amar. Sinto culpa, sinto remorso, você não fez por onde merecer, mas não pude evitar. Por pouco me coloquei na prateleira de usados com etiqueta à venda, e isso porque fui extremista. Holofotes da vida conjugal, quem é essa mulher que sem pretextos deixa de amar, deixa de gostar? Confesso que estou arrependida. É difícil, sabe... menina, como você foi capaz desse desapego, no dormir em conchinha? Ele é tão fiel e zeloso! Como pôde pensar em fugir, bem na hora do gozo? O que te fizeram, por que pensa assim? Não, eu não sei responder. Só aconteceu...! de repente, sem porquê, enjoei. Enjoou? Enjoei, foi o que disse... peguei abusinho. Abusinho? Mas ele é tão perfeito! Aham. Como assim? É, abusinho, quando você come tanto um doce que fica farta... e precisa fazer dieta, sabe? Está louca? Dieta? É, dieta, contenção de calorias... E amor tem calorias? Não, mas tem calor, não serve? Acho que não... Bom, se não serve, então... então... então... Então nada, menina. Não existe isso. Se fosse outro homem, mas ele? Existe sim! Não, não existe. Você não pode simplesmente enjoar de amar. Mas eu enjoei! Não há como, menina! Mas foi...

Deveria ser o contrário: marido trai, marido se apaixona por outra, marido deixa casa, mulher, filhos. Não eu. E por que isso aconteceu comigo? Eu sou uma bandida! Prendam-me! Por que eu pensei em atuar assim? Estou louca?

Aproveito que ele foi ali na esquina para comprar cigarros e fecho as malas, apressada. Penteio os cabelos, ensaio uma expressão de candice e escovo os dentes. Quando ele volta, me surpreendo: arrancou uma flor da casa vizinha e me deu, com olhos apaixonados. “para minha sempre pequenininha...te amo” Nessa hora senti um estalo (“puf! Eu também te amo sim! Eu sempre te amei! Eu amo sim!”), me desmanchei, me esvaí em arrepios de contrição. Meu bem vem cá. Tasco-lhe um beijo ofegante, abraço, repuxo sua roupa, abaixo suas calças, jogo-lhe na cama. Amor, o que houve com você, calma, hehe, foi só uma flor... E eu respondo: nada não, benzinho... é que por pouco não daria tempo de ganhar essa florzinha.


Foi o orgasmo mais memorável da era. Mesmo sem ele saber o motivo.


Ah, se ele soubesse... sorte que não percebeu a mala no chão, tive tempo de desfazê-la e colocá-la de volta no armário, antes que ele soubesse o que senti.

Um dia lhe contarei sobre meu surto afetivo, e espero sinceramente que ele não me interne.
Eu merecia um marido perverso, infiel, sem amor e sem romantismo. Não mereço o homem que tenho. Eu não mereço a perfeição. Fui capaz de quase jogar tudo pro alto, acho que peguei abuso de rock. Eu não mereço o marido lindo que tenho...

Plá!!

Plá!

Plá!

Plá!!


(ajoelhada, dando chicotadas nas costas)

Escrevo nos classificados: “procuro marido infiel e canalha, troco por um semi-novo em ótimas condições. Não sei fazer uso dele. Ass: um arquétipo feminino dos livros de Eça.”

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Ah, agora quem quiser pode "escrivinhar": coloquei a opção p/ comentários, logo abaixo de cada post.

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"Fiz de mim o que não soube, e o que podia fazer de mim não o fiz. 0 dominó que vesti era errado. Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me. Quando quis tirar a máscara, estava pegada à cara. Quando a tirei e me vi ao espelho, Já tinha envelhecido. Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado. Deitei fora a máscara e dormi no vestiário como um cão tolerado pela gerência Por ser inofensivo e vou escrever esta história para provar que sou sublime." (trecho de tabacaria - fernando pessoa)


Por sed non satiata * 9:41 PM

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[Quarta-feira, Julho 16, 2008]


Poesia em pó (“Viestes do pó e ao pó retornarás...”), cálices de alguma bebida prosaica, dois quartetos, dois tercetos, uma escansão, o soneto tentando esquecer, para sempre lembrar... São só pedaços de papel, com letras de fonte padrão, tamanho padrão. Algumas capas desconexas, alguns títulos marotos e arquetípicos. É a típica madrugada de férias. Trocando a noite pelo dia, insônia na madrugada e leituras aleatórias.

Falta-me inspiração... Acho que um coração ferido (bem no estilo gato de rua) teria mais laboriosidade verborrágica do que o meu, impoluto, bem cuidado, siamês, de banho tomado, perfumado e acariciado – por que não dizer mimado?. Invejo os poetas que compõem romances e melodias em torno do amar – e do não amar. Eu não sei falar de amor, só sei viver dele. Então, humilde e profana, escondo a calcinha tirada às pressas debaixo do travesseiro, e a dobro com carinho, como um poema escrito num papel de seda, por alguém que tenha tal habilidade. Minha escrita não flui em rimas. Despejo poesia e sentimentalismo em calcinhas no varal, sutiãs jogados no chão, gemidos, o dormir em conchinha, o beijo desentupidor de 24 minutos e 15 segundos. Perguntaram-me certa vez por que não escrevo poemas sobre ser mãe, sobre meu filho etc. respondi: não sei escrever... e não sei mesmo. Prosa qualquer um faz. A menina do diário faz. A dona de casa no bilhete da geladeira faz. A propaganda de supermercado faz. Poesia? Sentimentalismo? Vísceras? Quem dera eu... Não é por falta de amor, de inspiração, de inovação, de felicidade. Acho que seria até banal tentar escrever sobre tudo isso, e escrever mal...

Prefiro o sussurro.
O abraço quente ao dormir.
O almoço surpresa enquanto tomo banho,
O intruso surpresa enquanto tomo banho,
O gozo surpresa enquanto tomo ban.......

Prefiro as risadas,
O olhar eternizado na quina da porta,
A louça suja compartilhada,
A cueca sem querer rasgada com os dentes,
O abraço infinito,
A saudade imediata,
A nossa rotina,
Nosso dia-a-dia,
Nossa vida...

...Que mesmo que eu tentasse, não conseguiria a-u-t-o-b-i-o-grafar ou sei lá...

Não sou Pessoa, Neruda, Shakespeare. Não me cobrem belas palavras de amor. Não quero correr o risco de me rotular Paulo Coelho-ana, aquela bosta literária... enfim.
O que eu estava falando mesmo?

Ah, sim. Sobre aquele cálice de uma bebida profana. Profana? Mundana... não, ops, eu quis dizer vulgar. Arcaica...quê? Não, nem lembro mais como adjetivei... ih, cadê o cálice? Esqueci no chão da sala...


Por sed non satiata * 9:41 PM

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[Quarta-feira, Julho 09, 2008]


Sorvendo em goles do café cremoso minha licença poética,
um bocado esquizofrênica... mas quem não é?
Somos todos doentes desse bem-ou-mal alter ego ístico,
somos todos esquematicamente
esquizofrenicamente
paranormal (mente) esquizofrênicos.
Todos nós pincelamos no ar (como autistas) uma paisagem bucólica,
rococó psico realista,
expressionista
surrealisticamente
barroca,
quiçá de um tom fúcsia-amarelado-anil,
aquele do dadaísmo, aquele do abstrato,
cubisticamente pairando em oxigênio
sugado e tragado
em nuvens que não existem...
pré ou pós modernismo?
Vanguardista que não é... ou não era.
Pincelamos no ar nossa esquizofrenia
quando a tinta que sobrou da tela branca (nossa vida real)
ainda não foi suficiente para o nirvana psicótico.
Escapamos da loucura da verossimilhança
com a fantasiosa idéia de que nós vivemos como queremos,
de que somos roteiristas do nosso longa metragem,
idealizando amizades e relacionamentos,
assim pensando que são como não são.
Usamos todos nós óculos de embriaguez,
e acredito que se o tirássemos
veríamos realmente quem são os humanos que chamamos de amigos,
ou o clichê Sistema,
ou nosso próprio umbigo...
...ou o mundo inteiro.
Nossa esquizofrenia nos faz criar uma idéia pessoal
- e particular -
de quem cada um em volta é, e por aí vai...

Abro e folheio uma velha revista,
uma daquelas BRAVO!’s de outrora.
Encontro uma antiga fotografia minha...
me pareceu mais uma estranha, uma outra pessoa que não eu,
e então a analisei de fora.
Em segunda pessoa do singular.

achei-te nua numa foto,
Olhei teu corpo,
teus seios,
teu ventre,
teu despudor,
Olhei-te com a paixão da lembrança,
- mas sem saudades -
ainda acesa,
Ali deitada,
posta à mesa,
sem esconderijos
E eu nesse frio esquizofrênico,
de membros rijos (não o pênis que não tenho, mas sim os dedos frenéticos no computador...)
Olhando-te,
Celibatária tu eras.

Celibatário não o corpo, o gozo, o sexo.
Celibatária de amor.
De amar.
De sentir.
De ser amada.
De me apaixonar...
Por isso que me pareceu uma estranha ao olhar para mim no pretérito.
Sou uma estranha.
Fui uma estranha.
Acho que se eu passasse por mim no meio da rua
...não me reconheceria...
Tampouco sentiria interesse em fazer amizade.

Diria: quem é aquela estúpida?
Tola,
Boba,
Fútil
Vulgar
Puta
Puta fome de sentidos...
Puta fome de maturidade...
Puta fome de empirismo
Pura
Pura infantilidade, acreditando em tudo e todos
Pura efemeridade, querendo viver tudo em nada de tempo
Pura insanidade, machucando-me em sexo sujo, com vendas nos olhos e no juízo
Pura necessidade de passar por muita coisa pra ser como sou hoje.

Pelo menos, acho que meu pretérito seria capaz de ser poeta melhor do que eu...
Não sei fazer poemas.
Nem poesia.
Nem versos.
Prefiro a prosa,
Posta
Prosa
Aquela com frases na mesma linha
Separadas
Por
Vírgulas,
Vírgulas,
Algumas vezes com ponto final...
Ponto final.

.


Por sed non satiata * 9:40 PM

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[Domingo, Julho 06, 2008]


A ressaca moral do fds – parte I (espero que não tenha continuação...nem indicação ao Oscar.)
Sabe aquela ressaca moral: putz, nunca mais eu bebo...? a minha é outra: putz, nunca mais eu como! Saldo desse fim de semana típico de férias: escondidinho de camarão na sexta, no jantar; sanduba caprichado na volta para casa; almoço de pedreiro; 2L de coca-cola; macarronada da kika; outro almoço de pedreiro, mais 2L de coca-cola; divisão de uma caixa de bombons vendo filme na cama com a autarquia (do grego autarchía) das baganas: shooshoo. Que ressaca...

Status: reorganizando a geladeira. Na prateleira principal, legumes, verduras, peixinhos, frescurinhas de dieta. Nas outras prateleiras menos visíveis, coca-cola e as baganas que nunca mais eu tirarei de lá...

(pausa para um gole de coca-cola)

...o que eu estava falando mesmo?


Por sed non satiata * 9:40 PM

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[Sábado, Julho 05, 2008]


O melhor de tudo não foi a noite gostosa, a música boa, as companhias agradabilíssimas, a embriaguez sutil, a minha mancada que acarretou em uma crise grotesca de ciúme dele, a “sessão kama sutra para acordar os vizinhos” ao chegar em casa, o sexo ao acordar, a ressaca e o remédio para ela (coca com cigarrinho), o almoço gostoso, os carinhos. O melhor de tudo é hoje ter jogo e o maridão ir assisti-lo: uma tarde de descanso, o apartamento todinho só para mim, o céu grisalho, aquele frio discreto, um roupão branquinho e felpudo, cabelos molhados, músicas amenas, meu filhinho engatinhando e cantarolando seu dadaísmo, um chazinho de hortelã com camomila, duas colheres de açúcar e uma de mel (o suficiente para esfoliar o rosto)... putz, caiu cinza no roupão.

Lembro de quando estava grávida e usei esse roupão. Bate até os pés, manga longa... usei depois de sair do banho, e ao me ver shoo caiu no riso: minha ursinha polar!!! Só voltei a usar hoje, sozinha em casa. Trauma? Hehe.


Por sed non satiata * 9:40 PM

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[Quinta-feira, Julho 03, 2008]


Na embriaguez dos goles e desfalecendo em volúpias arrebatadoras desvencilhei-me dos pudores nefastos. E olha que hoje cismei de não dar a mínima para as vírgulas em seus locais adequados...! “é uma mesmice!” – grito da janela. As cores são as mesmas, o cheiro do vento, as vozes, os contextos. “danem-se!” que bom que, diferente de mim, todos estão dormindo... são 3 da manhã, caramba. Quero marginalizar minha crosta de boneca fajuta. Ou seria boneca inflável? Putz, quando foi que me tornei tão pseudo-menininha, que não percebi? Escuto nine inch nails. O cd já estava empoeirado... dancinhas marotas com Sneaker Pimps, não dou a mínima para o cabelo-descabelado (você só olha e ri... deve pensar: eu casei com uma maluca). E o que faço com o hedonismo? Que tal uma hermenêutica sacana? Hãn? Do que raios ela tá falando...? É tudo brincadeirinha... né? Não? ops...

Planos maquiavélicos começam a ser traçados a partir da quinta, normalmente. A semana rotineira é sempre gostosa, mas os músculos não agüentam se a rotina perdurar muito...tampouco as rugas. Para isso, há a cerveja, o rock, os tragos precursores de uma enfisema –daqui a umas décadas – e os bares. Mas isso só à noite. Ainda é cedo, estou na semana-rotineira-mamãe-esposa... padecer no paraíso? É EXATAMENTE isso! Acaso, tempo, destino, Super-Chefão: por favor não me tirem essa felicidade... essa plenitude, essa vida perfeita. Tenho amor demais em mim para ter que me esvair em melancolias.

Ouvindo Sneaker Pimps - Six Underground


Por sed non satiata * 9:40 PM

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[Domingo, Junho 29, 2008]


Os super saudáveis que me desculpem, mas acordar com uma ressaca monstruosa e fumar um cigarro com um copo de Coca gelada é sublime... um sexo à la pornozão de madrugada, plantando bananeira então... acho que acordei algum vizinho, na hora nem percebi. Só sei que hoje ao entrar no elevador a vizinha olhou para mim e depois fitou o chão, introspectiva. Tudo bem, a mocréia nunca me dá bom dia mesmo! Dondoca desbocada, nariz empinado, megera... sempre vira a cara para os vizinhos do prédio. Quem pensa que é? A primeira dama? Rum...

Do outro lado da rua vejo uma mesinha posta na garagem do outro condomínio. Eita! Churrasco dominical... pensei: lá vem música fecal por aí! Pagodes, forrós, axés, cocôs. Que nada! Estão bebendo pitu ao som de Tim Maia!!! Minha vizinhança é legal. Não fosse pela vizinha cara de furico...

A bandinha “the cash” (sei lá como se escreve, deduzi pela sonoridade da pronúncia que me deram ontem) é muito lixo. Toca muito ruim... só os diferentõezinhos mesmo para gostarem daquilo. Bandinha xulé, cansou muuuuuuuuuita gente ontem naquele recinto, à espera da Desventura. Putz! No fim das contas, voltamos cedo e deu no que deu, plantei bananeira e acordei a vizinhança. Do que eu estava falando mesmo? Ah, the cash, Clash, quexe, cat, sei lá porra! A pobre da gurizinha miava, banda desencontrada, fazia barulho e tocava as musiquinhas indie emo psico tolinhas de hoje em dia. Daquelas bandas que os fãnzinhos usam jeans coladinho tênis adidas, cabelinho repicado e óculos da vovó. Outra coisa que percebi ontem...: Hoje em dia toda banda quer tocar Amy WineHouse (minha musa gostosinha da voz linda), eu ri taaaaanto quando ela (a gurizinha que miava) quis começar uma das músicas dela e parou na segunda frase, porque não conseguiu o tom, ou esqueceu a letra, ou o quê. Cantaram Strokes sem microfone, creio eu, porque se ouvia tudo, menos a voz da galada. Sou boazinha, e não cética: o baterista era muito bonzinho, confesso. Sorte que não paguei para entrar na festa, senão cobraria a grana a eles.

É isso aí, domingo gostoso de ressaca, coca com cigarro no café da manhã, planos de jogar um ovo podre no apartamento da vizinha, um blusão enorme do meu Shooshoo (pronuncia-se “xuxu”, shooninho “xuninho”, e por aí vai) e um short de pijama. Acho que esse contador do meu blog está errado, de um dia para o outro 100 visitas a mais? Impossível! Deus me livre, inclusive. É hora de mudar de endereço, então...
Ícaro engatinhando aqui do lado, o paizão babando com seus olhinhos brilhando e no meu colo alguns livros para as férias. Nem tantos, acho que já li todos. Quem sabe um passeio pela livraria, mais tarde, ein?


Por sed non satiata * 9:40 PM

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[Sexta-feira, Junho 27, 2008]


Cansada das pessoas. Farta dos sorrisos amarelos, exausta das falsas amizades, das conveniências, da simpatia de plástico, do estrume que nutre as conversas de boteco. Enfastiada, por nada me satisfazer nas pessoas, nunca. Enfadada pela pouca cultura deles, do descaso, da ânsia de verem o outro desabar. Por sorte, não é necessário dizer: cansada de amar. Isso, ainda bem, continua tão gostoso... O que me tira do sério é o que nos rodeia. Pessoas medíocres, acostumadas no-de-sempre, acomodadas na música ruim, na moda clichê, na laia do senso comum. É hora de fugir enquanto dá tempo...

Ótima oportunidade para a fuga: Vinho, amigos reunidos, CDs legais, filosofia, brigadeiro, pipoca, quitutes gostosos e apimentados, boa conversa. Eis que chegam as férias.


Por sed non satiata * 9:39 PM

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[Quarta-feira, Junho 25, 2008]


Faz uma semana. No sono gostoso de conchinha, me detenho ao ritmo da sua respiração. Como é quentinho seu corpo, como é tranqüilo seu alento, como é apertado seu abraço me cobrindo, como é gostoso sentir seu corpo inerte, sonolento, sem nossas roupas, todos os dias. Lá fora, um silêncio incomum, de madrugada atípica (chuvosa e fria). O quarto escuro, lençóis com cheiro de jasmim, travesseiros gordos e copos com água. Livros jogados às pressas no chão. Sono gostoso...De súbito, você dá um pulo. Não há como não acordar também... assustado, você me olha. Ai amor, tive um sonho ruim. Me abraça...Então, lhe aperto bem mais forte, me encaixo mais uma vez na conchinha do seu corpo tatuado e sussurro: passou... Você responde no meu ouvido: não quero te perder nunca. E faz bico. E murmura. Viro. Beijo. Beijo durante uma eternidade. Sinto o rígido efeito disso, e então me arrepio... Subo. umedeço. mexo...mexo. mexo. Mexemos. Muito. Longos minutos, longos sussurros. Madrugada adentro acordados, distraindo o sonho ruim. Respiramos forte. Deitamos um ao lado do outro. Conchinha, agora lambuzada. Ouço novamente no meu ouvido: não quero te perder nunca, não me deixe nunca, não me esqueça, me ame, fique comigo, prometa, me abraça, tá frio, prometa... juro, se eu pudesse naquele momento te fartar de beijos, o faria. Beijei seu rosto, pedaço a pedaço, suas mãos, seus olhos, sua boca, suas costas, sua barriga, sua barba. Deitei por cima do seu corpo manhoso, mesmo sem saber o que havia no seu sonho. Jamais pude imaginar um amor tão grande, jamais pensei me surpreender dessa maneira, quando achava que já conhecia seu sentimento. No dia seguinte, um curioso surto de ciúmes. Antes eu soubesse o que você sonhou noite passada...! Mas você preferiu não contar. Doeria muito, disse a mim. E por toda a semana, grudou-me na sua pele, cingiu-me, rodeou-me. Como se eu fosse cair da gaiola, como se eu fosse escapar por um buraco, como se eu quisesse ir embora. Mas como? Aqui eu tenho a vida mais perfeita do mundo... às vezes chego a me irritar com a calmaria dos dias. Invento de brigar por um travesseiro, só para ver como seria se discutíssemos. Mas você não se lembrou disso, e continuou com o bico, o não me deixe nunca, o abraço forte. Insisti em querer saber que sonho maldito foi esse, mas não tive resposta. Num simples minuto onírico, a barba, as tatuagens, a carcaça de homem durão e roqueiro se diluiu em receios, pudores, medos. Vem aqui, amor. Tira essa bermuda e dorme mais uma vez comigo, me deixa distrair seu sonho, me dá aquela risada de quando falo minhas besteirinhas...mas ó, é proibido sonhar, tá?


Por sed non satiata * 9:39 PM

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[Quarta-feira, Junho 11, 2008]


a saga da sibu

Primeiro dia, 03 de Junho. Hesitei um pouco, lembrando das experiências anteriores. Não sei, se eu desse ouvido sempre ao meu ceticismo, talvez não teria tentado novamente agora. Confesso que sou tão cética...! sempre ouvi falar sobre a tal da segunda chance, e por causa dela resolvi arriscar mais uma vez. Para o primeiro dia, comparado ao de outrora, até que foi tranqüilo. Nada de emoções fortes, irritabilidade ou vontade de explodir o mundo. Confesso que senti um pouco de taquicardia, mas só o suficiente para me sentir um pouco com aquela sensação de ansiedade. Estou um pouco hiperativa, não consigo ficar quieta, talvez eu só esteja tranqüila por já saber o efeito e assim conseguir manter o controle. Acho que se não fosse por isso, estaria surtando. Estranho, mas estou meio que subindo pelas paredes... uma vontade insana de rasgar a roupa e fazer aquilo que nem preciso dizer. Será efeito colateral? Hehe. A única coisa ruim é que na semana passada esqueci-me de tomar o anticoncepcional injetável (coincidiu com minha semana de febre e gripe, aí acabei me esquecendo), ou seja... estou taradíssima, e correndo riscos. Bem. Tento não pensar nisso tudo, acho que isso tem ajudado a manter a calma. Acredito que o efeito drástico seja só psicológico, em grande parte. Imagino: estou calma, nada de ruim está acontecendo, e por aí vai. Com isso, sigo o primeiro dia bem, acho que a vontade de ver o resultado está sendo maior do que as circunstâncias. No mais, tudo em volta está tranqüilo, uma vida feliz... aquele mesmo dormir em conchinha, aquela mesma rotina divertida de filho, marido, livros. São 16:23, vale salientar. Receio que terei insônia, pelo menos da vez passada tive, e muita. E foi isso que corroborou (creio eu) para o mau humor fodido. Separei uns livros monótonos para ler mais tarde, acho que isso me ajudará a me distrair e pegar no sono mais facilmente.

*

Segundo dia – 04 de junho. Sabendo da dificuldade que eu teria pra dormir ontem à noite, preferi agir como se nada de diferente estivesse acontecendo. Assim, quando Glay já havia dormido, decidi me distrair assistindo a uns DVDs. Acredito que tenha dado certo, esperei o sono chegar ocupando a cabeça com personagens interessantes. À 1 e meia da manhã, já estava dormindo. Ainda tardiamente, teria dormido perfeitamente bem, não fosse pelo costume de Ícaro de ainda acordar algumas vezes de madrugada. Sorte que esse “acordar” significa apenas “uén”, para colocar a chupeta na sua boca e voltar a dormir. Apesar dessa facilidade, é muito ruim acordar, levantar, deitar e tentar voltar a dormir do jeito gostoso de antes de despertar. Assim, acordei e dormi algumas vezes, o que me fez acordar hoje de manhã um pouco cansada. Por sorte, pude administrar o sono e logo estava disposta para o longo e rotineiro dia: mamadeiras, brinquedos, fraldas, risadas, sexo, dengos e beijos. A recomendação do médico foi que eu tomasse a “coisa” todos os dias às 10 da manhã. Assim o fiz novamente, hoje. Tenho estado tranqüila durante a manhã, o ponto crítico tem sido a partir do meio dia. Acho que é quando “ a coisa” começa a fazer efeito... não tenho tido problemas com a fome, apesar de gulosa e gostar muito do paladar das coisas, tenho mantido o controle e feito meu papel direitinho, nada de extravagante, uma boa dieta. Bom, vendo por esse lado, “a coisa” está sendo bem empregada. Não obstante, a única coisa que tem me incomodado é a taquicardia. Não chego a passar mal, ficar tonta e aquilo tudo, mas tenho aquela sensação de ansiedade, o coração acelera um pouquinho, me dá a impressão de estar ansiosa para algo acontecer, sabe? Como se eu estivesse esperando uma grande notícia, ou a nota de uma prova, ou saber o sexo de um filho... o que estou tentando explicar é que esse aceleramento do coração me deixa impaciente, acho que dá pra entender o que estou falando. Fico como se estivesse preocupada, ansiosa, esperando algo ou alguém. O resultado disso é que me dá uma impaciência tamanha, e só consigo controlá-la por saber que é efeito do remédio e que tudo em volta está muito bem. Se fosse em outra época, quando eu ainda desconhecia o remédio e seus efeitos, eu estaria em sérios problemas, acarretaria em alguma discussão com alguém, por exemplo. Daria murros no controle remoto, por suas pilhas terem acabado. Graças a Deus estou conseguindo me controlar, para não explodir. É só seu coração mais acelerado, calma, Mônica... e assim sigo no segundo dia. Sei que a qualquer momento posso interromper a meta, mas quando penso que quis tanto ver os resultados, recupero as forças para tentar pelo menos mais uma semana. Acho que seria um alivio parar de tomar a “coisa”, não teria mais a sensação de ansiedade (coração aceleradinho), em compensação outra sensação ruim tomaria lugar da de agora: incômodo. Qualquer mulher me entenderia, caramba. Qual mulher, por menos vaidosa que seja, não se sente um pouco – ou muito – incomodada com uns quilos a mais, ou com um pneu, ou quando vê uma foto sua e diz “nossa, que rosto redondo, que braços roliços”...? é uma futilidade, a priori, mas capaz de ser totalmente e facilmente compreendida, a posteriori. Entre a sensação de nervosismo e ansiedade e a insatisfação ao não poder usar determinada roupa ou “sair mal” na foto, prefiro a primeira. Prefiro a satisfação vã e passageira em olhar uma foto bem tirada, prefiro a improfícua felicidade de usar um número a menos, de me sentir mais atraente, de receber elogios. São 15:35h. Mentalizo: meu coração está assim, mas nada está acontecendo fora do normal. É puro efeito colateral... Acho que se não fosse por Ícaro e Glay me divertindo o dia todo, eu estaria surtando. Quando estão dormindo ou trabalhando (ic e Glay nessa ordem), agarro-me aos livros (Baudelaire, Bukowski, Kant, Afonso Romano), a litros de água, xícaras intermináveis de chás, cigarros, teclas do computador. A propósito, é hora de um cafezinho e cigarrinho na janela... (...) eu e Glay fomos convidados para uma sessão de fotos, para a campanha de São João do Cidade Jardim. Nem preciso dizer que me achei redondinha nas fotos...! e foi isso, exatamente isso – e só – que me deu estímulo para continuar amanhã. Engraçado, é só um comprimido, né? É só e somente só uma ansiedade, e fico a ponto de desistir... se eu conseguir pensar no resultado, unicamente nele, talvez eu consiga tomar os 30 comprimidos. 1 longo mês. Pergunta para a humanidade: existe alguma recompensa sem sacrifícios? Pois é, isso é fato. Se eu quiser me sentir inteligentinha, só estudando. A plenitude de ser mãe só veio após 9 longos meses. O prazer de ver o sorriso e a saúde do filho veio por meio de renúncias, tempo e dedicação. Ver o marido saboreando um almoço gostoso e dizendo “humm” só é possível (se não quiser comprar, hehe) com dedicação na cozinha. Aquele objeto caro só pude comprar juntando o dinheiro que poderia ter sido gasto em outras coisas imediatas. Meu cabelo cresceu e sobreviveu às tesouras porque desembaracei muito nó depois do banho... Recompensas só depois dos sacrifícios. É assim, fazer o quê? (...) Sabe, não sinto vergonha por falar de quilinhos a mais, dietas ou vaidade. Toda mulher, sem exceção, faz isso tudo. A diferença é que eu resolvi falar sobre o assunto, enquanto outras se calam...



*


com net d novo. diário sibuzistico resumido em dois dias, nos demais nada de diferente!


Por sed non satiata * 9:39 PM

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[Quinta-feira, Maio 08, 2008]


Diluo no meu chá de hortelã quimeras e deslumbramentos. Faço de minha verve um simulacro, rotulo com os dizeres: remédio para qualquer melancolia...

Procuro na internet alguma receita de Yakisoba. Desejo repentino, compartilhado com outro guloso. Vamos às compras, molho shoyu, brócolis, isso, aquilo. Na cozinha, nos divertimos na tentativa dúbia de fazermos uma receita. O resultado foi um prato gostoso, quentinho, bem sucedido. A sobremesa? Bem...

Afogo-me n’uma pilha de livros sem lirismo, só filosofia. Razão, pensamento, teorias, empirismo, epistemologias. Para balancear a surra de racionalismo frio, Os Maias. Meu sonho utópico vai além da paz mundial, da extinção da fome ou sei lá qual prosopopéia. Sonho em um dia nossa geração dialogar como os personagens elegantes d’Os Maias, uma dialética digna de gozos, autores na ponta da língua, ao invés de créu-créu-créu, psy-psyco-trance e novelinhas senso comum. Invejo os personagens de Eça.


Por sed non satiata * 9:39 PM

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ut melius, quicquid erit, pati... Sapias, vina liques, et spatio brevi spem longam reseces... dum loquimur, fugerit invida aetas.

Teu ciúme me sufoca, mas me provoca o gozo mais pleno do mundo. Mas me sufoca. E eu gozo. Mas sufocada. É como se eu estivesse tirando um cochilo na cama (na nossa cama), e tu viesses com um saco cheio de ar, e o estourasses no meu ouvido. Assim, de repente, do nada, um susto, um choque, e bum, teu ciúme. Às vezes sem razão aparente, às vezes com uma ponta de justificativa, mas meu bem, justificativa conjugada no passado.. Não tenhas ciúmes do passado. Eu não tenho do teu... Na verdade, sou tão indiferente ao teu que talvez nem cosquinha na barriga eu sinta.

Mas como eu dissera, teu ciúme me sufoca. Me prende. Me solta. Me provoca gozo, e choro, e tristeza. Teu ciúme não morre, mas me mata, e me atiça. Quod me nutrit me destruit, me arranha, teu ciúme vive, cada dia mais, e cada dia mais parecido com um saco de ar explodindo no meu ouvido. Onomatopéias, e bata a porta da cozinha mais uma vez, saia andando sem rumo no apartamento, que eu te puxo pela camisa, e te busco, te beijo de um jeito quente, pondo a mão dentro da sua roupa, e te amo no tapete da sala.


Por sed non satiata * 9:39 PM

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[Sábado, Maio 03, 2008]


Chego aos meus 22 anos – completados em 11 de outubro – com a gritante conclusão de que não há mais ninguém que me conheça por completo, além de você. À frente da minha mãe, do meu pai, que apesar de me amarem muito conhecem minha vida como uma nebulosa paisagem; minhas irmãs, que mesmo sabendo que me conhecem ao terem ciência de que sou o oposto delas, não sabem nada da minha essência – e do meu caráter e nobreza. Amizades chegam perto, afinal há coisas que converso mais abertamente com amigos do que com família... Mas só quem divide comigo o travesseiro mais fofinho da cama – apesar de nela haverem 4 ou 5 mais novinhos – sabe quando tenho pesadelos, só pelo ritmo da minha respiração; sabe quando estou aborrecida, só pela quantidade de sal que pus na comida; sabe quando estou excitada, só por passar de relance no corredor; sabe quando estou com sono, mesmo fingindo empolgação ao ver futebol consigo; sabe quando estou preocupada com um trabalho inacabado ou uma aula intrigante, reconhece meu perfume quando ainda nem entrei no prédio, percebe minha insônia quando não estou na cama às 23h, conhece meus autores favoritos, adivinha nomes de musicas que adoro, conhece o local exato do meu corpo que quer ser tocado, em determinado momento. Posso enumerar diversas provas de cumplicidade, mas lamento e emudeço ao pensar que jamais meus pais saberão quem realmente sou, jamais me conhecerão como eu gostaria... já minhas irmãs, talvez. Mas ainda não espero muita coisa. Sei que esse conhecimento limitado não é por falta de amor, quiçá por falta de interesse... não posso julgar. O que sei é que já não estou disposta a pagar o pato pelos julgamentos de valor (errôneos) de quem não me decifra, mas que tentam fazê-lo só por terem trocado-me fraldas e brincado de boneca comigo. Minha redoma hoje em dia me salva desse pretérito imperfeito de adolescente peixe fora d’água. Estou no melhor lugar do mundo. Hoje, tenho quem me decifra, garrido e viril. E tenho o fruto disso, com a perfeição dos deuses, chupando chupeta no berço.


Por sed non satiata * 9:39 PM

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[Quarta-feira, Abril 30, 2008]


Quando tudo parecia estar perfeito, há sempre uma força contrária empurrando tudo para baixo. É a maldita lei da ação e reação, que um malcriado um dia teorizou. Vejo que não é suficiente minha felicidade, minha redoma, tem sempre algo em oposição à plenitude, para esmigalhar meu trevinho de quatro folhas. Essa força eu resumiria em desprezo de uma irmã...

Olho-me no espelho – a Esfinge: ora egípcia, ora grega, nem sei quando são seus dias de bondade ou rispidez... – e questiono, como a madrasta má da Branca de Neve: espelho, espelho meu... o que se passa? E então vem a resposta: se pensava que eu ia deixar barato, só porque é feliz no seu casamento e com seu filho, dou-lhe uma punhalada. Deverá ter crises narcisistas, e não suficiente, ainda lhe darei uma pitada de desprezo de alguém do teu sangue.

Lagrimas incontidas ao pensar que aquela que brincou de boneca comigo e dormiu comigo por 20 anos no mesmo quarto hoje está impregnada pela redoma de mimos e princesismo. Seu desprezo é porco, seu nariz empinado é doentio, e me faz sentir tão lixo quanto aquele que está na cozinha – cheio de restos de comida. Faz-me sentir que meu mundinho de conto de fada não é suficiente para ser alguma coisa, não importa se tenho dinheiro ou não, amor ou não. De quem é a culpa? Por que te mimaram assim? Oi, você. És a caçula, que obteve regalias maiores que eu e a outra irmã. Hoje se tornou um monstro, capaz de humilhar e fazer pouco do rico amor que tenho vivido, da riqueza de ser mãe e dos sacrifícios. Pobre coitada, não tem cultura e experiência de vida, sua virgindade foi perdida por um bastardo e hoje amargura a efemeridade de convívios fúteis com dinheiro e festinhas senso comum (e acha isso o máximo...). E eu? De que adianta saber e ler tanta coisa, ter um casamento perfeito e um filho lindo, livros empilhados, gozos, rotina? O que sou para ela?

Sinto-me em um naufrágio. Por sorte, meu bote salva-vidas amarelo está sempre disponível. Nele, encontro dois remos – marido e filho - , para me direcionarem a um caminho mais doce. Dentro do bote, alimento suficiente para chegar a tempo a alguma ilha.. – amigos -.

Tudo isso só corroborou para piorar minha crise estética, agora enfatizada por olhares de desprezo e palavras ríspidas, de uma menininha que ainda vive no berço de quatro rodas – e direção e ar... - que ela não comprou, mas que jura que é dela...


Não sou gatinha (ui), mas juro que tenho sete vidas, já passei por tanta coisa e estou aqui...
Um consolo prático na véspera de feriado: sexo. Ícaro vai dormir na casa da vovó... comprei cigarros gostosos, L.A. cereja e Diarium Black, gostinho de canela. Para acompanhar, o bom e velho capuccino que pffff, tem gente que nem dá importância...


Por sed non satiata * 9:38 PM

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Talvez o reflexo que vejo no espelho não seja tão amedrontador assim. Controversa, sou tão pequena e muda, mas com a cabecinha tão atormentada por mil vozes, que isso não pareça piegas. Meus pudores e anseios vão além da janela do meu apartamento, e como qualquer mulherzinha, procrastino: amanhã eu começo, amanhã eu começo... e mais uma vez o espelho se torna amedrontador. E os meus olhos, lupas. Tudo faço transbordar, quando na verdade não há nem liquido dentro do recipiente... talvez haja, mas o que para o espartilho é só um pneuzinho excedente, para mim transforma-se em quilos de feijão com arroz que não cansei de comer. Gulosa de paladar, visão, olfato, tudo. Não me controlo, e sinto vontade de agarrar todas as comidas gostosas do mundo, todos os livros, todos os cheiros. Paladar, visão, olfato. Amarrem-me n’uma camisa de força, vou me enclausurar.

Por sed non satiata * 9:38 PM

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[Segunda-feira, Abril 28, 2008]


um de meus poemas fa-vo-ri-tos. na verdade, foi o primeiro que aprendi a recitar de cor, lá pelos meus 10 anos...por acaso o encontrei, ainda com letra de criança, dentro de um livro velho. ai, que saudade...!

*

A VALSA
Casimiro de Abreu



Tu, ontem,
Na dança
Que cansa,
Voavas
Co'as faces
Em rosas
Formosas
De vivo,
Lascivo
Carmim;

Na valsa
Tão falsa,
Corrias,
Fugias,
Ardente,
Contente,
Tranqüila,
Serena,
Sem pena
De mim!


Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
— Não negues,
Não mintas...
— Eu vi!...


Meu Deus!
Eras bela
Donzela,
Valsando,
Sorrindo,
Fugindo,
Qual silfo
Risonho
Que em sonho
Nos vem!
Mas esse
Sorriso
Tão liso
Que tinhas
Nos lábios
De rosa,
Formosa,
Tu davas,
Mandavas
A quem ?!


Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
— Não negues,
Não mintas,..
— Eu vi!...
Calado,
Sozinho


Mesquinho,
Em zelos
Ardendo,
Eu vi-te
Correndo
Tão falsa
Na valsa
Veloz!
Eu triste
Vi tudo!


Mas mudo
Não tive
Nas galas
Das salas,
Nem falas,
Nem cantos,
Nem prantos,
Nem voz!


Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
— Não negues
Não mintas...
— Eu vi!


Na valsa
Cansaste;
Ficaste
Prostrada,
Turbada!
Pensavas,
Cismavas,
E estavas
Tão pálida
Então;
Qual pálida
Rosa
Mimosa
No vale
Do vento
Cruento
Batida,
Caída
Sem vida.
No chão!


Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
— Não negues,
Não mintas...
Eu vi!


Por sed non satiata * 9:38 PM

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[Sábado, Abril 26, 2008]


Ater-me ao vermelho do esmalte, ao vermelho das paixões; resgatar meu egocentrismo, fazê-lo andar de mãos dadas com o altruísmo (não há para quê me desvencilhar dele, afinal); soltar os cabelos na ventania; beijar as páginas de um livro velho com um batom vermelho; escrever de trás pra frente; levantar a âncora do meu barquinho, fantasiado de navio pomposo; preencher lacunas dos meus autores; passar de apreciadora a criadora; subir um degrau na transformação; começar de dentro para fora; gritar aos sete mares socorro, liberdade, amor e desejo; olhar no sentido contrário da maré; fazer surgir o advento de uma metamorfose, como a passagem da larva devoradora à borboleta polinizante; encher-me de cores; deixar de ser extensão do Outro para ser algo sartreano, ser-Para-si; deglutir a arte antropofagicamente; tragar toda a essência abandonada; impregnar-me de egoísmo, poluir-me de alter egos; ampliar meu campo de visão, de modo que produza alterações e modificações valorativas no âmago bla bla bla; definitivamente, como Nelson Rodrigues, me recusar a reduzir o ser humano à melancolia do cachorro atropelado; que pulhas seríamos se morrêssemos com a morte...!; me atrever a usar a vulgaridade; prostituir a inocência; abandonar a redoma de menina; não à castração, não ao aparente externo, não ao não, ao depois, ao amanhã. Agora, já, hoje, vamos...!; rasgar com fúria minha mortalha, minhas roupas, meu lacre, meu rótulo, minha embalagem; me deixa gritar, me deixa gritar, me deixa gritar! Dane-se o café, o chá, o vinho: quero álcool puro, quero a embriaguez das sensações, dos líquidos, mucos, cigarros e livros, quero mais, um tanto muito mais!; languidez e travesseiros, deixo o desespero para momentos oníricos. Acordada, piso firme os ladrilhos brancos do meu apartamento, urro como um felino faminto, como um espartano alucinado por lutar. Ó acaso! Soberano deste mundo do pensamento, deixa-me viver e permanecer tranqüila alguns anos ainda, porque eu amo a minha obra como a mãe ama o seu filho... bem no estilo Shopenhauer.


Por sed non satiata * 9:38 PM

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[Segunda-feira, Abril 14, 2008]


Ignoro o despertador e desperto com uma sutil baba no travesseiro (O dia anterior fora cansativo para nós três. Viagem, praias, drinks, bolero de Ravel, conhecer outra parte da família nova...com isso, o bebê sentiu mais cansaço, acordou mais tarde.). Amanheço com uma mão que não é minha, envolvendo meu corpo, procurando sinuosidade. O que provem disso não preciso relatar, pura tautologia – e tato-logia He He -...

Goles de um chá não sei para quê, mas que me fez um bem danado... lembrar que hoje é segunda, dia de uma papiragem incansável (nem tanto assim) e de toda uma rotina domestical. Louça, almoço, roupa, livro, aula, café, fraldas, hoje é dia de ir ao cartório. Lista de compras, um pouco de filme debaixo dos lençóis e claro, o sexinho bem no aumentativo, mas cuidado para não acordar quem está dormindo...

Para não rodear a mesa e falar sempre das mesmas paixões, darei um tempinho nessa verborragia de pára-choque. Daqui a pouco volto, lá pelo meio de maio. Meio maio, meiomaio meio desmaio.


Por sed non satiata * 9:37 PM

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As linhas polissêmicas do meu caderno desnorteiam todo o meu senso de tempo e espaço. Sou só eu no mundo, neste momento. Absorvo o café em goles e gozo, meu paladar também tem grandes orgasmos. Aquele suéter cinza e envelhecido veste bem meu corpo exausto, de aulas, livros e papiros sem fim. Cabelo molhado, envolto e enrolado por uma caneta bic; a cara limpa, os seios livres - detesto sutiã em casa. O mesmo acontece com a calcinha. Um short justo ajuda - Sinto o cheiro de limpeza no corpo, unhas sem o vermelho habitual, pés descalços, cigarro entre os dedos e teclas frenéticas, é assim que teço as palavras.

Por sed non satiata * 9:37 PM

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[Quinta-feira, Abril 10, 2008]


Algo para ninguém entender

Dualismos embaraçavam minha filosofia, minha particularidade. Hoje, degusto o monismo do fenômeno (não aquele sartreano), apesar das minhas dicotomias à la Heráclito. Esse dualismo de outrora, que costumava opor o interior ao exterior, hoje dá lugar a um degrau único, diria até a uma escada crescente. Não há mais um exterior do existente, hoje me situo em uma redoma de perfeição - não a minha, mas do contexto -, a pele superficial do Ser-em-si que dissimulava-se ao olhar a natureza dos objetos vagos veste agora um casaco branco, um sobretudo homogêneo. A realidade secreta da coisa hoje não é mais efêmera. Não há um reverso secreto [ou há?]. “a aparência remete à série total das aparências e não uma realidade oculta que drenasse para si todo o ser do existente”, diria Sartre. Este mesmo Ser era outrora emprestado às sensações nefastas, consistia em uma falsa aparência, e a maior dificuldade que eu podia encontrar era a de manter suficiente coesão e existência naquilo que eu buscava. Uns, outros, uma, e não achava. Faltava VOCÊ.

A minha revelação-revelada dos existentes corrobora para uma nova consciência, esta de mãe, esposa, como poderia imaginar que um dia eu saberia fazer um simplório estrogonofe?

Meu Ser estava em toda parte e em parte alguma, hoje estou aqui. Minha esfinge, minha redoma. Concluo: a consciência sempre pode ultrapassar o existente; o existente é sempre algo além, nunca permanece em inércia. Não vê aquela árvore que um dia foi semente?

Minha característica primordial é transcender.


Por sed non satiata * 9:37 PM

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[Sábado, Dezembro 27, 2008]


[Quarta-feira, Abril 09, 2008]


Despertou-me do meu sonho dogmático, aventuras oníricas, empíricas, braços de um Orfeu de penumbra e fumaça de automóveis. Fez-me prestar a atenção na subliminaridade, tangível esboço de um alter ego, enxerguei o altruísmo de sua redoma, delatei-me em versos de rock e blues, fez valer a pena virar e vestir meu jeans ao avesso, cobrindo meus retalhos de adolescente em euforia. Como eu poderia pensar que daria à luz empadões e pingüins na geladeira, lista de compras, desinfetantes e lustra-móveis? Morar com um estranho e passar a vê-lo como a pessoa que mais me conhece nesse mundo de chips e flores de plástico; sentir seu hálito, delicioso hálito matinal, receber diariamente, mesmo depois de 1 ano, café, almoço e jantar na cama...! Faz parte do meu senso não comum ainda olhar com olhos de magnitude toda a rotina repleta de novidades, o bilhete grudado no espelho do banheiro, na mesa do computador, dentro do meu livro, quando surpresa abro na hora da aula. Narcisos e rosas vermelhas me fazem sentir euforia na frente do espelho, narcísica. Nunca hei de esvair em pétalas.

Por M * 3:31 PM


Por sed non satiata * 2:01 AM

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[Quinta-feira, Abril 03, 2008]


Assaz idiossincrática, eminentemente fugaz. Posso articular em 300 páginas ou até em 40 livros quem sou, como sou e tudo mais. Posso falar dos meus lapsos constantes de misantropia, da minha mania de pré-conceituar tudo e todos, aquele cabelo senso comum ou aquele pensamento padrão. Posso desenvolver ensaios ou paragrafozinhos (palavrinha inventada-ou-não para enfatizar minha tara por neologismos) em torno do que gosto de ouvir ou ler, aqueles célebres autores que guardo na minha estante, ou até os pensamentos eróticos que insisto em dissolver nas teclas do meu computador. Posso confessar que todos os dias às 17h bebo um cappuccino cremoso e quentinho, na janela da sala, ouvindo Kings of Convenience, tragando um Camel e olhando carros desinteressantes passarem. Posso disfarçar, mas vez ou outra falo até a cor da minha meia. Qualquer um pode falar de si, mesmo que com dificuldade. Tá, vai! A menina lê os poemas de Parmênides e cisma de escrever filosofia de boteco em torno do ser e não ser um tanto hamletiano. O que quero dizer é que qualquer um vai curvar as sobrancelhas para divagar em torno do que é, chega a ser banal essa coisa de Ser (claro que não!). e... bom, falemos desse dia chuvoso. Você sabe “tocar” a chuva, sabe apontar por onde vão os pingos que caem do céu. Você sabe apontar a não-chuva? Olha aquela mesa ali. Facinho apontar para ela...! agora, aponte para a não-mesa. Sabe apontar o Nada? Sabe, sabe, sabe? Sartre?

É culpa daquele antro de psicopatia filosófica.


Por M * 1:58 PM


Por sed non satiata * 2:01 AM

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[Quarta-feira, Abril 02, 2008]


E então vieram as águas de março, fechando o verão, o senão, o verá então. Embora cansativo falar sempre de amor e alegria, gosto de uma certa tautologia – suave...! Janelas fechadas para a chuva não entrar, olho do terceiro andar o chão de paralelereticências, é tudo tão mórbido que mais parece um pedaço de São Paulo. Céu grisalho, acinzentado, emudecido, e uma satisfação tamanha ao me dar conta que outono e inverno são minhas estações prediletas. É o estar debaixo do lençol, é o moletom durante a aula, é o filho agarrado aos meus punhos, curtindo o frio (natalense insiste em dizer que esse clima é frio...). Daqui consigo ver o quarto da frente, ele dorme em cantigas de ninar, chupeta azul na boca e uma serenidade que chego a invejar, quando sinto sono. Daqui também vejo o outro quarto, nele dorme lânguido um alguém tão fabulosamente encantador que começo a sentir ódio por ter vivido tantos anos sem conhecê-lo. Meus 1,60m se encaixam, cada dia mais sincronizadamente, em suas curvas, no dormir em conchinha, no abraço em ver filmes. Você me mostrou que tudo tem uma perspectiva diferente. Daqui a 20 dias faremos 1 ano de casados, mas já temos 1 ano e meio de (tecla caps lock) PAIXÃOÃOÃO. Olho para trás: você me deu a maior felicidade do mundo.



Por M * 4:32 PM


Por sed non satiata * 2:01 AM

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[Domingo, Fevereiro 24, 2008]


23 de fevereiro de 2008.

Vivo acordada como se dormisse, pois, na vigília como no sono, tudo deixo escapar.
O caminho – para cima e para baixo – é um e o mesmo.
As coisas mais essenciais são aquelas subliminares...

...se a realidade que a percepção mostra se acha em constante mudança – como a metáfora de Heráclito, não se pode entrar duas vezes no mesmo rio -, não será possível conhecê-la, porque qualquer definição reterá dela um aspecto meramente passageiro...
Somos dois rios, mas não mais os mesmos. A cada dia, mudamos, estamos aqui e ao mesmo tempo correndo, uma inércia em constante mutação. Nossas águas já correram pro oceano, no sentido menos piegas que isso possa parecer, mas novos fluxos vieram para substituir os anteriores. Como uma Torre de Babel, nossos diálogos entram n’uma sintonia distinta, nossos destinos se cruzam no fim das paralelas, lá no infinito. É preciso compreender isso, para haver em seguida a compreensão do outro. Construí um barco, uma canoa, um bote, um navio. Sigo em rios paralelos, no meu e no seu, agora sabendo que eles não precisam mais ser um só, pois de qualquer forma eles se encontram no final, no fim da noite ou de uma tarde gostosa. Descobri que estou no lugar mais seguro do mundo, nossas águas me levaram ao destino certo, não mais aquele de outrora, quando estava no casulo familiar. Hoje, você me deu todas as vertentes para ser alguém melhor, e paradoxalmente foi necessário descobrir que nossas diferenças precisam ser compreendidas. Enfatizo, sou um rio de águas diferentes, em constante percurso. Você também. Você, Nilo; eu, Letes*. A maior verdade – esta eu sei – é que nos amamos, dois rios, não vivemos sendo “um só”.

Como Narciso, vi-me no reflexo dos seus olhos, vi nossas diferenças e percebi que elas sempre se chocarão, assim como elas terão uma contradição com qualquer outro ser humano. Se todos os casais se rendessem às dicotomias, não haveria casamentos. O problema, então, não são nossas características (diferenças). O problema é estarmos dispostos a aceitá-las, esse é o segredo dos relacionamentos longos. Sua cueca no chão, minha toalha na cama, meu cd de MPB e seu ensaio de rock. Sua cerveja e minha vodka, seus olhos azuis e os meus, castanhos. Percebi que somos necessariamente diferentes, isso é magnífico (não pensem que isso é um problema). Quer uma prova de que essas diferenças são nefastas (que podem ser aceitas por nós ou por qualquer um)? Apesar de rios distintos, de percursos praticamente opostos, nos encontramos no final das paralelas, atrás do arco-iris, (além de morarmos nele...). Chegamos ao mesmo destino: temos algo em comum, um filho.

Esse é o mistério de tudo, é a infinita compreensão de estar com você, e subliminarmente entender que fomos feitos para um mesmo propósito: Ícaro quer voar.

* o Letes é um dos cinco rios do Inferno, cujas águas dão aos mortos que dela bebem o esquecimento da vida terrena. (no caso, meu entorpecimento, meu esquecimento de tudo ao meu redor...)

...já percebeu que mil borboletas amarelas voam por aí?


Por M * 3:44 PM


Por sed non satiata * 2:00 AM

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13 de fevereiro de 2008.

hac-tenus, nocti-vagus, fidentia.

Corroborando com a ausência de meios comunicativos, sinto-me mais confortável perante as teclas negras que concretizam meus pensamentos. Longe das futilidades cibernéticas – irresistíveis e necessárias -, peguei-me voltando a estudar latim, a degustar uma tese de doutorado a respeito de casos filosóficos, a bebericar um bom vinho imaginário. Não tão imaginário assim é o habito estúpido de fumar um cigarro nos momentos de gozo estético. Gosto disso, do gosto e do gozo que a tragada me dá (tenho um bocado de ignorância e hipocrisia – depois de ter condenado tanto minha mãe fumante -, assumo).

Saudades. Finalmente enfim (finalmente enfim?), as aulas, a filosofia, a linguagem, o convívio com os sábios colegas famintos de filosofar, e até mesmo a simbiose, a transformação de sedentária para intelectualóide. Já tava na hora. Estava com medo de me tornar senso comum, mais do que sou... de usar roupinhas que todo mundo usa (aquelas com estampinhas psicodélicas, modinha de novela), de assistir ao big boster, tatuar clichêmente e sensocomumente (protesto direto a uma amiga) “carpe diem” no meu corpo, pensando erroneamente e ridiculamente que significa “aproveite o dia”, como aquela propaganda de perfume dizia...(pobres ignorantes...!), ou ate mesmo ir a uma festinha rave, achando a coisa mais maravilhosa do mundo (e queimando meu cérebro), só porque ta na moda. Talvez eu compre um vestidinho com a estampa “nananam Senhor do Bonfim”, sem nem saber o que significa. Quer saber? Um brinde à idiossincrasia (claro que um trocadilho cretino mencionaria idioticrasia...).

Faço uma lista de compras, depois de lavar a louça mutante (quando penso que terminou, encontro uma colherinha ou um copo, simplório e sínico, no canto da pia). Arroz, feijão, farinha láctea, fraldas, coca-cola...(...). olho para o relógio na parede, procurando minha noção perdida, noção perdida de tempo. São duas horas da tarde. Puxa, se não me engano vi a mesma hora, hoje quando acordei...! E então acrescento à lista de compras: pilhas para o relógio. Mas, pensando bem, não é tão mau assim o tempo não passar. É assim que me sinto, em inércia...! inércia de amor, paralisada em cima da cama, desnuda, lânguida e umedecida de gozo. Não inércia relacionada à falta, e sim inércia relacionada ao “mundo lá fora”. Lá foda. Ops, eu quis dizer fora...

Tudo fora do apartamento, se quisesse, poderia parar. Aqui dentro o movimento uniformemente acelerado prevalece, detesto quando escrevo maliciosamente...

Perante o egocentrismo, tudo é tão maior...! Narcisismo bobo que quase mata, deu lugar a uma esfinge límpida ou sei lá o quê para falar dela, mas uma esfinge que se possível colocaria em caixa alta, ESFINGE, para descrever quão impetuosa e necessária foi ela. Emudeço.
Quando penso que não, o amor triplica. Quando penso que não, você me surpreende.

É incrível, é como perguntar a uma criança, durante uma brincadeira: cadê a bolinha? Achooooouuu... e assim eu fiz, aquela mesma pergunta que todos os enamorados fazem, cadê? E com um sorriso tolo, pueril, respondi segundos depois: achei. Recordes de beijos, abraços, cumplicidade, afagos no cabelo, sexo, e crises de ciúmes que se eu tentasse antigamente, jamais provocaria. Acho que criei um monstro depois daquela noite tavernosa...

Falando nessas coisas de amor, não sei por que senti um orgulho de ter um dentinho a mais que alguém (simulacro que necessita de plástica capilar)...
He he.






Por M * 3:44 PM


Por sed non satiata * 2:00 AM

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[Domingo, Fevereiro 17, 2008]


A sua ação diante da diversidade de exigências do cotidiano se expressa em uma conduta marcada por falta de otimismo e orientada pela baixa disposição em aceitar as mudanças que se processam no dia a dia. O lado positivo dos fatos e situações não é notado pela sua percepção.

Concentra-se excessivamente nos problemas apresentados pela vida, demonstrando uma expressão afetiva caracterizada pela manutenção das situações ao seu redor. Você tende a voltar-se ao passado, com uma percepção que pode ser marcada pelo pessimismo, e assim demonstra estar sempre esperando que algo de errado possa acontecer e pensa que provavelmente as coisas poderão ser piores que estão. Preocupações e decepções podem ter muita importância com extrema facilidade.

Pode colocar pouco empenho a modificar as atuais atitudes frente à sua vida. Reage às situações acomodando-se às circunstâncias apresentadas pelos demais de forma passiva, com dificuldade de abandonar a persistência no erro e a falta de iniciativa, investindo desta forma pouca energia para obter os resultados que deseja.

Tende a colocar muito pouco empenho em dirigir e modificar as coisas ao seu redor na sua vida. Você reage frente às situações acomodando-se às circunstâncias criadas pelos outros, parece condescendente, defendendo a manutenção das circunstâncias e dos eventos.

Você é motivado para satisfazer suas preferências e necessidades, sem deixar de lado os seus interesses, assim como preocupar-se com o bem estar das demais pessoas.

Motiva-se para satisfazer suas preferências e necessidades considerando a sua relação e o bem estar dos outros. Consegue, equilibradamente, manter sua atenção e ações, de forma a evitar prejuízos de interesses quando tem que considerar uma decisão em relação às necessidades do grupo.

Recorre aos demais na procura de estimulação e alento de suas ações. As pessoas como os amigos e colegas são uma fonte de idéias, de inspiração e energia, na compreensão do mundo, ao mesmo tempo em que mantém condições de voltar-se a si mesmo, com equilíbrio, como referencia de suas atitudes.

É uma pessoa que prefere utilizar seus próprios pensamentos e sentimentos como recursos e como principal fonte de inspiração e estimulação. Experimenta uma grande serenidade e comodidade em manter-se distante de fontes externas de estimulação, sendo propenso a seguir seus próprios impulsos.

Trata-se de alguém cuja busca pelo conhecimento das coisas ao seu redor parte do simbólico e do desconhecido em comparação aos eventos concretos e observáveis. Têm interesse pelas experiências mais subjetivas e misteriosas como fontes especulativas do conhecimento.

Você tem uma preferência pela forma simbólica de orientação e entendimento das situações do meio, em detrimento as circunstancia concretas e objetivas. Não relaciona o intangível, porém, desfruta por preferência das experiências enigmáticas, misteriosas e das fontes mais especulativas de conhecimento.

O direcionamento e a busca de entendimentos das situações a sua volta é caracterizada pela possibilidade de conjugar e associar os aspectos observáveis e simbólicos, sem que esta manifestação tenha uma predominância específica ou perda da reflexão enquanto característica básica.

Forma seus julgamentos, tomando em consideração suas próprias reações afetivas frente às circunstâncias, avaliando subjetivamente as conseqüências que teriam seus atos aos demais e guiando-se por seus valores e metas pessoais.

A organização e o planejamento são características pouco expressivas enquanto aspectos de seu estilo de vida. Embora haja necessidade, devido às questões do cotidiano, em ater-se cuidadosamente a percepção dos detalhes em suas atividades, estes não se encontram manifestados com ênfase.

É uma pessoa criativa que com confiança nas suas idéias tende a aceitar e assumir os riscos de sua originalidade. Pronta a modificar e reordenar qualquer coisa com que se depare, não se conforma com rotina e o previsível, transformando o que lhe é apresentado em uma novidade.

Você tende ao retraimento social, fazendo poucas colaborações significativas, sendo limitada a suas poucas competências sociais na área da comunicatividade.

Você sabe discernir entre o momento mais adequado de expor uma idéia e o momento de retrair-se, o que demonstra razoáveis habilidades de comunicação. Sua postura de observação é capaz de delimitar que tipo de comportamento deve ter.

Trata-se de uma pessoa com timidez e nervosismos em situações sociais, onde se percebe como deslocada. Deseja com freqüência, ser uma pessoa que agrade e seja aceita, porém teme que os outros a rechacem. É sensível e emotiva, com reações baseadas na desconfiança, solitária e propensa a se isolar.

Como você sabe separar e equilibrar adequadamente seus momentos de insegurança e segurança, tende a gerenciar bem os momentos de excesso de confiança ou dúvida.

É uma pessoa com capacidade de atuar de modo independente e não conformista com regras ou convenções sociais. Em geral se recusa a submeter-se e acatar normas tradicionais, manifestando audácia, que pode ser tomada como imprudência.

A preocupação por uma impressão positiva frente aos demais não e uma característica marcante e expressiva em suas ações para o grupo social. Trata-se de uma pessoa cujo interesse em marcar uma boa impressão junto às demais, encontra-se em um segundo plano.

Revela-se como uma pessoa passiva socialmente. Você é tem a característica de se condenar antes mesmo de realizar qualquer esforço. Esta postura limita suas atitudes e reduz sua auto estima.

Você é uma pessoa que sente a necessidade de controle até nas menores situações, mostrando-se uma pessoa obstinada e ambiciosa.

Trata-se de uma pessoa com atitudes caracterizadas pela passividade e agressividade, sendo menos humorada, e em geral se sente insatisfeita nos contatos interpessoais. Seu estado de ânimo e sua conduta são variáveis, às vezes sociável e amistosa com os demais. Pode, em outras ocasiões, se mostrar irritável, hostil, e expressando a crença de que é incompreendida e pouco estimada.

Apesar de algumas vezes ocultar seus desejos e vontades, dispende tempo apreciando a possibilidade de se esforçar para colocar em prática o que pensa.




fica a dica: http://www.planetapsi.com/

Por M * 6:31 PM


Por sed non satiata * 1:59 AM

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[Terça-feira, Janeiro 08, 2008]


Quero bater o pé, cruzar os braços, fazer bico, morder os lábios, semicerrar os olhos, suspirar, ofegante. Quero fazer tudo isso, enquanto acendo um cigarro e olho pela janela do prédio. Vejo mil janelas abertas, à minha frente, e é como uma crônica cotidiana, de algum Fernando Sabino ou Paulo Medíocre Coelho. Quiçá Jabor-pedante. Mas não interessa exatamente quem, interessa o cenário. Quero poder gritar, queimar sutiãs, fazer passeata na rua, o que for, quero contar a todos como a vida é, quero abolir essa maquiagem ‘mascarante’, essa idéia de união perfeitoloide, esse protótipo de casal perfeito ao meu redor. Não há. Não existem contos de fadas, sinto muito, cinderela, branca de neve, sininho. Existem estórias que inspiram, mas “a vida como ela é” vai alem do real. Quero, mas não posso: quero dizer a todos que aquele homem ali fecha os olhos enquanto trepa, pensando em uma loira languida, por cima dele. Enquanto isso, sua mulher fecha seus olhos, imaginando um sexo selvagem, que é pra ver se seu tesão vem, e assim, goza. Quero poder dizer que por muitas vezes ele desejou outra pessoa, e ela outros. Quero que essa vontade ultrapassada de criar um Romance seja sabotada, há é muito Realismo nesse dia-a-dia. Pelas paredes, por detrás das janelas e portas, em cima das camas, no chuveiro, no transito. Quero Eça de Queiroz, quero as esposas escrotas e os papeis invertidos, mas não quero isso exatamente verossimilhante, e sim nos boatos, nas fofocas de outrem. Às minhas amigas, quero o melhor de tudo.

Se eu pudesse, escreveria absurdos, para extravasar um ego que não tenho audácia suficiente para mostrar. E se eu fosse uma escrota? E se eu traísse? E se eu dissesse: amor, to indo comprar as coisas pro almoço de amanha, e saísse com um morenao, forte, viril? É o oposto do que sou, confesso. Confesso metade constrangida, metade orgulhosa. Aliviada, digo: que bom que tenho o meu juízo certo, ele não merece uma historia à La Eça. Enquanto eu me oriento, observo – na mão, um copo com gelo, vodca, um tanto de limão só para dar paladar. Na outra, um cigarro – por detrás das janelas. A mulher que apanha, o homem que trai, a filha que fuma maconha no quarto, o filho que se masturba no banheiro. Caralho, pra pronunciar caralho é o maior sacrifício do mundo pra mim, quanto mais o resto: e pensar que minha vida é tão mansa e gostosa...!

Eu não acredito em contos de fadas, mas acredito que tenho o suficiente. Amor, amor, amor. Conseqüentemente, o resto.


Por M * 1:07 AM


Por sed non satiata * 1:59 AM

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[Domingo, Dezembro 30, 2007]


Acordei embalada pela minha própria tosse, por uma dor no corpo que mais parece um “descarrego”, talvez tudo de pesado do ano esteja saindo da minha alma, por meio de secreções nasais e dores musculares. Foi um ano bom, como já disse anteriormente. Mas queria fazer aqui agora um palavriado de despedida, não porque partirei ou porque deixarei pra trás alguma coisa – talvez essa seja a dica para 2008... -, mas porque do dia 5 em diante ficarei sem net, ow peninha. Sentirei falta das conversas, da procura por sites inteligentinhos ou por blogs literários. Queria agora ter a maior inspiração do mundo, pra fechar com chave de ouro o ano verborrágico, mas só o que consigo agora é suspirar fundo, chorar um cadinho, agradecer aos deuses mil e aos humanos de boas intenções que me acompanharam mês a mês. Amizades novas, Silvia, Iris, Drica, NCris, Larissa. Amizades velhas, Caio, Renata, Clara, e não citarei todas, se me esqueci de alguém não foi por descaso, como disse to doentinha...

Obrigada às esponjas de lavar louça, aos detergentes, vassouras, desinfetantes. Obrigada a cada dia de faxina a dois, aos dias divertidos em que não fizemos nada, apenas usamos a cama como desculpa para a preguiça. Obrigada aos almoços, ao aprendizado na cozinha, às calcinhas e cuecas para lavar, aos sabonetes que caíram no chão. Obrigada ao meu roupão, aos lençóis, ao gel lubrificante, aos lenços umedecidos e fraldas. Obrigada ao perfuminho de bebê, obrigada ao perfuminho de homem. Obrigada, porteiro, por interfonar sempre quase de madrugada, por engano, para me acordar quando estava cansada... obrigada, paciência, pela experiência jamais tida de estar com alguém que necessita da noite para ser feliz e tirar dinheiro, obrigada de novo, paciência, você foi a base de tudo, para que ciúme e insegurança não me consumissem. Obrigada ao não-ciume, acho que me comportei bem com as groupies, tive confiança e segurança suficientes. Obrigada aos litros e litros de azeite, de leite, deleite. Aos litros de gozo. Obrigada a quem me desejou mal, é comum falarem que isso fortalece mais ainda e pior é que fez exatamente isso. Obrigada à inveja, que só fez rodear meu ciclo de experiências e não conseguiu penetrar. Obrigada às nefastas, por causa delas descobri meu lado veneno, e pude me divertir de monte a cada tirada de onda, em segredo com alguma amiga. Obrigada a essas novas e velhas amigas, vocês foram essenciais em cada dia meu de grávida e mãe. Obrigada aos nossos pais, meus e de glay, por tuuuuuuuudo, com mil “u’s”, por tudo o que fizeram, é difícil começar uma família do zero, de repente, e vocês fizeram com que isso fosse natural, mágico, fácil. Confiaram em nos.

Se em algum momento houve a pergunta “cadê o amor?”, foi bom, pois é sinal de que ainda queremos procurar por ele. É sinal de que somos humanas e não personagens de um conto de fadas. Sempre haverá um casal que se ama mais, ou que é mais feliz. Sempre haverá aquele conhecido que trai a namorada ou a esposa, haverá sempre aquela mulher ciumenta. Aprendamos com todos eles, vale à pena. Somos felizes, temos maridos “na nossa medida”, como chave e fechadura... mas não podemos esquecer que (DEUS ME LIVRE) pode ser que chegue a nossa vez, ou não, mas devemos sempre lembrar que tudo o que vivemos é aprendizado, experiência, conhecimento. Talvez daqui a 1 ano, ou amanha, ele tenha outra e eu me magoe. Talvez seja o contrario, eu me apaixone e o engane. Não quero isso, mas destino não se muda. Pra mim o destino é HOJE, hoje está tudo perfeito, e quando eu acordar amanha, direi também: hoje está perfeito. E por aí vai...

To ansiosa para que venha o novo ano. Por ver meu filho crescer mais, por ver meu casamento crescer mais. Por ver minha volta às aula, oba, por ver amizades crescendo, e se alguém não percebeu ainda, a minha palavra de 2007/2008 é: CRESCIMENTO.

Bom ano para vocês, feliz janeiro, feliz fevereiro, reticências, feliz dezembro. Foi tudo muito bom, será melhor ainda! Beiiiiijos.




Por M * 1:17 PM


Por sed non satiata * 1:59 AM

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[Sexta-feira, Dezembro 28, 2007]


Ponho um band-aid no tempo, e já se vão 22 anos. Odeio o momento “passa um filme pela minha cabeça”, mas quando penso em tempo, penso em “vivido”. Coloco um spray entorpecente e por cima o esparadrapo de marca famosa, quiçá com algum desenho de bicho da Disney...eu gosto do Mickey, me lembra meu lado capitalista.

Recapitulando, retrospectivando - nunca perdendo a mania de neologizar, por mais metalingüística que seja essa palavra... - , eis aqui uma espécie de parodia ou imitação daquela musiquinha do titãs, epitáfio. Devia ter...

...Ou não...

Dizem em latim: dum loquimur, fugerit invida aetas... De inveja o tempo voa enquanto nós falamos (enquanto vivemos, o tempo, invejoso, corre depressa). E ainda digo mais: quando demonstramos e explicitamos a alegria, o tempo invejoso a tira de nós. Falo ou não falo, então?

Pior é que falo.. sou astuciosa, atrevida, desafio o desdém e a sorte, sempre fui assim.
Encho o peito e digo: tive o ano mais feliz da minha vida – até agora. Virá 2008, quando verei, por exemplo, meu filho falar a primeira palavra, aprenderá a engatinhar, ou a bater palminhas... aprenderá a falar, e cada momento desse fará 2008 ser o ano mais feliz da minha vida, e por isso que digo “até agora”. 2007 me deu a faceta de uma mulher, sem sonhos de “um dia finalmente serei”. Aquela sensação que eu tinha de “algum dia” finalmente chegou, e já sou esposa, já moro longe dos meus pais, já preciso fazer minha própria comida, já durmo na mesma cama com uma pessoa que não conhecia há 1 ano e meio e já vi minha barriga esticar e diminuir, vi uma pessoa pelo ultra-som e achei incrível amá-la sem nem ainda ver seu rosto. Senti dor de parto, usei aliança na mão esquerda – uso, né -, minha mãe me liga todo dia pra perguntar como estou, e isso é tão estranho, pois era a primeira pessoa que eu via quando acordava e antes de dormir...!, tenho guardados na gaveta cartões “parabéns pelo casamento”, e ainda alguns presentes empilhados, do grande dia. Lavo cuecas, troco fraldas, me preocupo se a janela está muito aberta ou se está muito quente o quarto. Há 1 ano e meio, isso tudo vinha da casa da vizinha, ou ouvia em alguma novela, ou em alguma roda de amigas mais velhas. Mas não acontecia comigo. Eu acordava todos os dias depois das dez, sentava na frente do computador, acendia um cigarro e dava um gole no capuccino, espumoso. Rotineiramente, abria algum trabalho da faculdade, inacabado, pensava no que fazer no fim de semana, em quando pedir ao papai, cuidava da minha mãe – que já não enxerga muito bem – e sonhava em me apaixonar DE VERDADE algum dia, quem sabe nesse fim de semana que vem... hum, acho que vou pro Budda. Tinha tudo na mão, era apenas uma jovem estudante, a filha do meio, ainda amadurecendo.

Foi o ano mais exótico (no sentido de variedade de experiências) da minha vida...! fiquei cara a cara com o instinto materno, com o “amor de graça”. Conheci realmente a sensação de chorar de FELICIDADE, e não de tristeza - como muitas vezes chorei, sou humana... -, quase surto quando a obstetra passou por mim com meu filho pendurado entre suas mãos, todo vermelhinho. Posso dizer que houve uma revolução na minha vidinha sexual, dormir e acordar com o homem que amo, sem censuras, é fora de qualquer descrição..., conheci amizades que vão além de uma fútil mesa de bar ou do ato de dividir uma lata de vodca, conheci e admiro amigas que demonstraram as mesmas experiências que tive, e não foi preciso ficarmos bêbadas para reconhecer: gosto muito delas, e acho que também sou merecedora de afeto...

Acho que agora fiquei uns 5 minutos com os dedos parados, parei de teclar... Se aqui desse para visualizar o tempo real da minha escrita, quem estiver lendo isto aqui agora passaria 5 minutos vegetando. Foi o tempo que usei para pensar, para me questionar: a quem eu agradeço, depois dessa reminiscência? Me irrito, porque sou frouxa e já estou chorando, mas aprendi que é de plenitude, alegria extravasada. Alguém me dirá: agradeça a Deus, e eu respondo: pela milionésima vez agradecerei... Mas, a quem mais? Acho que sei como responder, mas continuo frouxa e continuo chorando... Engraçado, depois dessas ultimas reticências, passei mais uns 5 a 10 minutos abestalhada, olhando para o monitor, sem saber o que dizer, sem acreditar no que vivi. Sabe aquela sensação estúpida de “poxa, eu mereço tudo isso?”? É surreal, mesmo que essa palavra não seja a mais adequada para a minha sensação no momento. Agora eu to atarefada, entre enxugar lagrimas e dedilhar o teclado. Meu olho esta embaçado, encharcado. Sei que devo agradecer a Deus, afinal sou mais uma no mundo que tem uma pitada de religião, de “amar o desconhecido sem questionar e tal”, e acredito mesmo...; sei que devo agradecer à minha família e à do meu marido, não sei nem dizer tudo o que fizeram por nós. Devo agradecer ao meu marido (e que estranho ainda é dizer “marido”), e ao meu filho, por ter me escolhido pra nascer e ser educado... era um anjinho (olha, eu acredito nisso, ta?)....

Melhor mudar de assunto, seria patético glay acordar agora com o barulho do meu soluço, “ai meu deus essa lesa ta chorando com o que olhando pro PC?” hehe.

Já faz um ano e alguns meses. Dia após dia, e a cada minuto vai ficando mais “passado”...

Na tentativa de copiar (não sei por que), tentou ser “blasé” (e não passa de uma palavra-da-moda, que eu sequer absorvi). (Quem diria, li isso por acaso...! se eu procurasse, não teria encontrado tão rapido) E tentou amaldiçoar, e fugir, ou seila, cada um dizia uma coisa diferente. Só sei do básico: Fim de relacionamento sempre consome. Confesso que me esforcei, mas não consegui, até hoje, sentir ciúmes. Na altivez loira que ficou para trás, procurei ao menos uma pitada de ciúme, mas não consegui. Não sei se isso é ruim. O “convencional” seria o presente sentir ciúme do passado, mas não consegui, nem fantasiando. Vendo positivamente, pelo menos economizei sentimentos, acabei não desejando nada de mal, e não sentindo nenhuma angustia. Mas também, pudera...! ouvi escárnios por todos os lados. Isso já foi tão suficiente que fiquei desorientada... ciúme que é bom, nada! “melhor é deixar pra lá...”. sinto até um orgulhinho: e não é que simpatizei com quem nem conheço? Um viva pra mim, não tenho ciúme, e até que respeito! (isso é o mínimo que eu posso fazer para merecer a pessoa que casou comigo e que diz que me ama, talvez o contrario não coubesse na minha vida)

Pausa pra um copinho de água... ih amanha é dia de varrer essa cozinha.

Ganhei de Natal, entre muitos presentinhos, um calendário, com nossa foto. Fingi que era desse ano, e marquei de vermelho os dias em que fui feliz com você, e de branco os dias em que fui muito feliz. Pronto, agora tenho uma toalha para piquenique...

Lapsos de pieguismo, surtos psicóticos, um pouco de psicodelia enquanto durmo. Talvez seja o seu ronco me embreagando...

Narcisicamente bagunço as gavetas do guarda-roupa, encho um cálice de licor, acendo um cigarro e ligo a TV. Desligo, e ponho um cd... tiro, e prefiro ouvir o barulho irritante que vem da rua de asfalto; por que a parada de ônibus tem que ser bem na frente do meu apartamento? Por que os carros sempre quase-batem aqui em frente, riscando o asfalto “riiiiiiiiiinccchhhhhhhhhh”?? acho que se eu pensasse em algo mais ameno, o licor ficaria mais saboroso e o cigarro mais aconchegante. Hum... Faltam 4 dias para o novo ano... (é, ficaram realmente mais saboroso e aconchegante, respectivamente.).

Papai do céu, minha saúde... (disso eu não falo, sou do tipo que odeia ir a medico e odeia dar o braço a torcer)

Ta, eu falo. Ta doendo... amanha vou no medico, mas so depois de passar na livraria e de por pela terceira vez meu piercing. E mais tarde vou sair pra beber, ninguém é de ferro. Deu pra perceber que nesse aspecto continuo criança e imatura? To nem aí, se eu tiver que ficar de cama, internada, tomando antibiótico ou seila, que seja depois das festas de fim de ano. Quiça em fevereiro...

Bom é quando faz mal, já diria o senso comum inconseqüente.

Volto já, deu vontade de fumar.


Por M * 12:29 AM


Por sed non satiata * 1:55 AM

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[Terça-feira, Dezembro 11, 2007]


Vários assuntos discretamente nímios, e uma verborragia talvez corrompida por neologismos. Para inicio de conversa, um link, singelo. http://colunas.g1.com.br/maquinadeescrever


Um espartilho, fio dental, meias pretas, renda... cinta-liga. O arteiro já foi dormir, restam os adultos. Que tal um filme sugestivo? Deita aqui, deixa eu te falar uma coisa... não consigo desabotoar o meu roupão. Depois desse pretexto, você descobre minhas segundas intenções, em cor preta. Louco, não disfarça o efeito instantâneo por ter visto o que não deveria (deveria sim), vejo nitidamente seu estado. Por um momento fico surpresa – esperava uma reação não tão explosiva -, fui literalmente invadida... Quão gostoso o instintivo, quão delicioso o impulsivo! O animalesco, o-com-sede-e-fome-em-abundancia...

Trocamos o DVD, o que tínhamos que fazer fizemos, o coitado do filme ficou em segundo plano – duvido muito que tenha sido visto por nós naquele “furdunço” todo.

Cheirinhos na minha nuca, ou o que nós-daqui chamamos de “fungados”. Mordidinhas, beijinhos, ai amor foi tão gostoso... faz de novo, faz amanha? Que linda...
Algum comentário cotidiano, aperto o play e um filminho italiano distrai nossos corpos - com uma pujante umidade de volúpia -, cansados do movimento uniformemente acelerado-tarado de minutos atrás.

Vejo ao meu redor pessoas silentes de sentimento. Me pego distraída, dançando, enquanto meu shooshoo canta. Percebo tantos vultos conhecidos, e tanto silencio de lisura. Não vejo amigos, não vejo boas intenções.

Em casa, no meu ninho, vejo um amor tão infinito quanto o tão clichê e conhecido “espaço”. Maior do que constelações, e aquilo tudo que dizem para mensurar sentimentos, vejam só, coisas tão abstratas(!). olho meu neném por horas, não minto, por horas...!, e atônita não sei o que lhe dizer, por tanto amar, por tanto achar – como toda mãe – o meu filho aquele neném mais lindo do mundo, capa de revista, bebe propaganda e tudo mais. Agora eu sei o que o poder de mãe é, o que o sentimento materno pode. Olho seus olhos – e você retribui, atido – e não sei o que falar, se puxo algum assunto sobre bichinhos, sobre alguma musiquinha pueril, ou se, abobalhada, repito “lindo lindo lindo lindo lindo lindo lindo de mamãe...”. no fim das contas, é o que faço. E você dá a risada mais gostosa do mundo...! tento fazer um poema, uma frase sequer, em tom de musica, mas não consigo. Fico com a prosa, que é solta, que é mais acessível a sentimentos instantâneos. Não tenho o dom lírico e poético dos célebres escritores, fico com pensamentos e sentimentos que só uma mãe é capaz de ter. me acho a pessoa mais importante do mundo quando lhe dou o leite, ou quando lhe dou banho. Acho a coisa mais sensacional do mundo a capacidade de colocar um neném para dormir, quatro meses e você já sente um aconchego ao pegar no sono em meus braços, me acho e me acho! Acho mesmo.. vejo seus olhos fechando, segundo a segundo, e sinto como se eu conseguisse fazer qualquer mágica que me pedirem, só por ser capaz de fazer alguém relaxar e dormir, ou rir e ficar hílare...

Não sei se é o momento – mudando de assunto -, mas estou apaixonada. Não tinha a intenção, ora, sou uma senhora casada, depois de 21 anos de oliveira de Medeiros, recebi o Dantas, mas o que posso fazer? É como aquela historia do primo Basílio, ou seila o que. Me apaixonei perdidamente (expressão clichê de novela mexicana), enlouquecidamente, enfurecidamente. Vi você imóvel, em silencio, não pude evitar... não resisti à sua barba, ao seu olho puxado, ao seu sorriso pueril. Meu peito queimou, o coração palpitou, todo aquele pieguismo mesmo. E cá estou, 8 meses de casamento, 1 ano e 3 meses de namoro... comprometida, e apaixonada. E agora? O que fazer quando me apaixono pela bilhonesima vez pela pessoa que ronca ao meu lado?? Apaixonei-me pelo meu marido, de novo... e respiro fundo, ao dizer: é gostoso demais.

Esbarramos-nos na cozinha, fazemos gracinha com o frango que estou cortando, enquanto você lava a louça. Falo algum trocadilho otário sobre os nomes dos legumes que tempero, e você comenta algo sobre o fim de semana. Provoco seu jeitinho dono-de-casa, tão bonitinho lavando a louça...! e você com a mão respinga água com detergente em mim. Quase uma cena de alguma novela-felizinha-fantasiosazinha de Manoel Carlos... mas só quem passa por isso sabe como é gostoso, em meio à usualidade que tanta gente teme. Fujam da rotina, ela faz qualquer criança sentir-se velha. Cotidiano amedronta. Mesmo que seja manjada, conte aquela piada, nem que seja para ouvir: “dãããããã”...!. mesmo que seja vulgar, use uma lingerie tarosa. Mesmo que seja programa ameno, vá ao cinema, ou a um museu, a um parquinho, a uma sorveteria – e lambuze o nariz dele...com uma demonstração de traquinagem, mordendo a língua no canto da boca – ou a qualquer lugar de namoradinhos. Todas as noites, reclame que o sutiã aperta, e durma sem ele. Aproveite a deixa e tire todo o resto da roupa, tudo aperta... durma em conchinha, faça caretas, cante bem descompassada, para chamar a atenção... oras, ou você não sabe que tudo diverte? Diga que esta com preguiça de tomar banho, e peça que ele te ensaboe. Tire sarro do ronco dele, e finja que esta dormindo, roncando também. Enquanto ele canta, em algum bar, em algum palco, faço caretas ao passo que danço. Danço como criança, danço como stripper. Tudo ao mesmo tempo. Só para que você possa rir e pensar “caraco, ela é tão crica...mas eu amo!”

E por aí vai.. não acaba nunca a vontade de estar junto de quem amo.


Por M * 10:48 PM


Por sed non satiata * 1:54 AM

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O mundo é colorido, e mesmo assim algumas pessoas vivem em preto e branco, cultivando mediocridade. Pessoas de inteligência rasa se gabam por viverem no senso comum. Há 17 anos os mesmos “melôs” da tartaruga, do chiclete, do bicho, do coco, do peixinho (...) são entoados, por pessoas que sequer conhecem Chico Buarque ou Noel Rosa, que jamais leram Bukowski ou, sendo menos exigente, Machado de Assis (pensando bem, tem os livros do vestibular, né...), ou até mesmo um livro de boas crônicas. São leitores da revista VEJA, da revista CAPRICHO, CONTIGO!, CARAS. São ouvintes das rádios 96, 98, 99, 100. Gastam uma nota comprando DVDs de Calypso, e reclamam que livro hoje em dia é caro. Gastam 600 reais (isso paga o aluguel do meu apartamento, ô dinheiro suado) em retalhos coloridos (com mau gosto), geralmente recortados para, pasmem, ao invés de vestirem, o corpo todo ser exposto. Músculos à mostra, para chamar a atenção das fêmeas. Danças do acasalamento, umbiguinhos de fora, cabelinhos escovados. Só resta escrever na testa: sou primata, dã, não tenho cérebro...

Entorpecidos com cervejinhas e vodkinhas, os primatas percorrem uma rua coitada da cidade, achando o maximo por terem pago 600 reais para fazerem isso, numa aglomeração de robozinhos padronizados, cantarolando “é o bicho é o bicho txa txa txa alalaô lerêlerê”, e muitas outras onomatopéias marotas que os nobres compositores intelectuais fazem, ganhando uma nota (enquanto aquele merda que fez 3 cursos na faculdade, com mestrado, doutorado, pós e o escambal, ganha só seu dinheirinho suado dando aulas e nem isso...) no ramo do axé. Engraçado, me lembrei do desodorante axe, acho que tem a ver com mundiça, suvaqueira... axé... ops.

E lá vão os pobres coitados, que não têm dinheiro para pagar um curso ou a prestação do cartão de credito, mas para o nobre carnatal, têm. Lá vão eles, atrás de um caminhão que, poxa, na BR 101 passam tantos todo dia...! o cantor lá em cima cantarola – sem melodia – as onomatopéias que os bichinhos do reino animal fazem, e lá vão os humanos primatas repetirem...

O melhor ainda não falei. Poxa, tantas baladinhas acumuladas e paquerinhas frustradas durante o ano, NE? “Nada não, sei que no carnatal eu fico com ele, aposto”... e toda aquela vaidade ao dizer: beesha, fiquei com 40, He He He... ai meu Deus, nos outros meses do ano essas pessoas insistem em se passar por dignos, respeitosos, inteligentes e chiques!

Que vergonha, ai, que vergonha! Bom, agora deixa eu terminar de blogar, vou tomar meu banho, vestir meu abada e “sair na avenida”, hoje quero “pegar geral”... não vejo a hora de ouvir “minha musica”: “vou te devorar, crocodilo eu soooooooooooooooou”


(é, vocês são BEM crocodilinhos mesmo.)


Por M * 7:22 PM


Por sed non satiata * 1:53 AM

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[Terça-feira, Novembro 20, 2007]


Daqui escuto sua respiração, seu cheiro preenche o quarto todo. Enquanto você dorme, morro de saudades. Tem o cheiro dos anjos, tenho certeza...! sua voz entra por meus ouvidos como o barulho do vento: único. Sua mão, quando toca meu rosto, à procura de memorizar todos os traços, é veludo...

Te olho por horas, dá vontade de chorar. Em silencio, ficamos o tempo que quisermos só assim, um olhando nos olhos do outro, sem piscar. Você dá um suspiro, um sorriso, e permanece ali, a me fitar. Falo qualquer palavra e você me sorri de novo...

Estou aqui, contando as horas para que acorde.
É um amor terreno, celeste, quase intergaláctico (!)
É um prazer incomparável, só de olhar teus olhos ora azuis, ora cor de cinza...



E canto, embalo, nino. Meu filho, é para sempre... amor que dura e não acaba.

meu, meu filho, filho...


Por M * 12:38 AM


Por sed non satiata * 1:53 AM

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[Terça-feira, Novembro 13, 2007]


amor à primeira vista

apaixonei-me pelo dia de hoje. céu grisalho, nublado, chuva fria, pessoas andam lentamente na rua e há um silêncio lúbrico...

Por M * 2:10 PM


Por sed non satiata * 1:53 AM

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[Segunda-feira, Novembro 12, 2007]


costume noturno


Acendo um cigarro pensando no cotidiano, pensando em tudo o que fiz durante o dia. Acendo um cigarro-escape, para reflexão...

Esquento água para um chá, hortelã com camomila, 3 gotas de adoçante, por favor. Esquento um chá-escape, para relaxar...

apago a luz. nem é noite de lua...

Sento no sofá mais próximo da janela, pernas para cima, cinzeiro no chão. Sinto o cinto apertar, desabotôo-o. Sento mais na horizontal, quase deitada. Deito, e por fim cochilo, com o cigarro entre os dedos, o chá quase no fim e uma leveza na consciência: o dia foi bom... um dia-escape.


Por M * 9:01 PM


Por sed non satiata * 1:52 AM

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[Sábado, Outubro 20, 2007]


"[...]

o que nos faz diabólicas
ísis, helenas, electras, medusas, medéias?
inocentada pela delicadeza uma fina chuva cai.
enumero coisas perdidas:
serpentinas, ciladas, armadilhas.
e a lágrima primeira.
quase esquecida."


Marize Castro




felizzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz

Por M * 11:44 PM


Por sed non satiata * 1:52 AM

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"Uma profunda impaciência com o texto alheio. Salvo raras exceções - e elas sabem bem quem são -, os escritos de terceiros provocam asco, vergonha e imensa irritação neste que vos endereça estas mal-ajambradas palavrotas. Sejam os hiperbolismos do Jabor, os lirismos duvidosos do Marcelo Coelho, os tecnicismos do Magnoli ou o sentimentalismo criminoso do Janine Ribeiro, poucos escapam da minha inevitável cólera. Claro que piores ainda são os textos de blogs, orkuts e e-mails. Por favor, sejam benevolentes comigo e parem de me mandar suas bobagens. Eu não me interesso. Assim como vocês não se interessam pelas minhas. Parem de ler essa joça e peguem a nova edição do Proust, seus imprestáveis."

Rodrigo Simonsen

Por M * 1:28 AM


Por sed non satiata * 1:52 AM

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O trema agoniza. Estes simpáticos pontinhos, que acompanharam alguns de nossos us prediletos, estão com data certa para a condenação sumária. No final do ano, serão suprimidos de vez da norma-padrão da língua portuguesa. Não parece haver réquiem. Poucos se importam. Mas, eu, conservador da 'inculta e bela', sou incapaz de deixar de notar que a eliminação completa do trema soa sintomática perante um movimento de vulgarização muito maior. Não que o idioma deva permanecer imóvel, estático, enrijecido. Longe disso. O que me salta aos olhos é a progressiva simplificação da linguagem erudita, reflexo de toda uma decadência cultural. Quando os Racionais MC’s viram referência aos senadores, sabe-se que as coisas não vão bem. Volto ao tema em breve. Enquanto isso, solitário, lamento o falecimento do sinalzinho ortográfico. R.I.P.

entre aspas, texto de Rodrigo Simonsen

Por M * 1:26 AM


Por sed non satiata * 1:51 AM

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[Quarta-feira, Outubro 10, 2007]


- o fantasma da véspera -


Amanha completo 22.



...e inevitavelmente um filme passa pela minha cabeça, reminiscências, experiências, lições, situações embaraçosas. Os momentos bons e as horas más que a memória côa, os dias grisalhos ou de sol, e por aí vai. Sei lá, nem sei se côa tem acento.


Ah, vai... sendo clichê ou piegas lembrar disso tudo, mesmo assim acontece. Quando caí no parquinho do colégio e arranquei uma lasca de joelho no cimento, quando ganhei a boneca que tanto queria no dia das crianças, quando meu pai me deu meu primeiro livro no natal de 90. Quando começou minha “cobrofobia” (pânico doentio por cobra), quando menstruei, quando dei meu primeiro beijo, quando comecei a brincar de boneca escondida para minhas amigas moderninhas não descobrirem, quando larguei a chupeta, quando fiquei pela primeira vez em recuperação, quando passei no meu primeiro vestibular, no segundo, no terceiro. Quando escrevi meu primeiro pseudo-livro, quando compreendi os dilemas dos adultos, quando reli meus diários de infância, quando minha mãe descobriu e leu meu diário de adolescente, e se assustou com a curiosidade aguçada de uma virgem...


Quando fui tia aos 5 anos, quando me apaixonei pela primeira vez, quando corria com o sansão atrás dos coleguinhas da minha irmã mais nova, no colégio, quando coloquei um piercing no umbigo, aos 16 anos, achando o máximo por ter feito sem precisar de burocracia de responsáveis e tudo mais, quando coloquei um piercing na língua, aos 19, e adorava a sensação de morder a bolinha, mas detestava beijar. Quando conheci o sofrimento, quando conheci a recompensa por isso. Quando aprendi tanta coisa, quando entendi que pessoas dividem-se nas que prestam e nas que não prestam. Quando entendi que sou muito mais coisa quando me sustento em pé sozinha, sem me esconder atrás de amizades. Quando entendi que tenho uma queda pela melancolia, quando me declarei apaixonada pela solidão, e descobri que Monica em grego é “pessoa sozinha”. Quando reconheci que nunca senti falta de companhia, mas ao mesmo tempo sempre quis alguém por perto. Quando confessei que sempre fui bibliofila, e sempre tive ciúme dos meus livros. Quando fiz minha primeira depilação, quando pintei meu cabelo pela primeira vez, quando comprei minha primeira calça justa e levei bronca da minha mãe, quando insisti e finalmente ganhei meu primeiro sutiã, depois de passar alguma vergonha, estando crescida e sendo vista como criança em casa. Quando tive a primeira cárie, quando ouvi a primeira musica de Chico Buarque, quando passei a escrever e ao mesmo tempo chorar a cada palavra (como agora...), quando sentia muita dor ao ver minha mãe fumar, embora hoje a fumante seja eu, quando me enchia os olhos de lagrimas ver meu pai tocar violão e cantar sempre as mesmas musicas lindas, quando acabei algum namoro, quando escrevia cartas de amor, quando entendi que a genética não alisa e sou chorona tal como minhas tias, quando tive uma desilusão amorosa e só assim pude conhecer quem amo, quando fui ao show de Chico Buarque e chorei como um bebê sendo parido, quando fiz minha primeira comunhão, quando me confessei pela primeira vez com o padre e escondi um monte de peraltice, quando sentia preguiça de arrumar minha cama, quando comprei minhas tintas óleo, telas e pinceis, quando enchi a casa de quadros sem sentido, quando quis tocar piano, quando gostei de doce de goiaba, inusitadamente. Quando me apaixonei pela pessoa certa, quando nunca fui de falar palavrão, quando briguei com minhas irmãs, quando conheci uma amiga especial, quando me assumi antipática disfarçada de tímida, quando fumei um cigarro e em seguida vomitei, e quando descobri que isso era bem mais sério do que eu pensava: quando descobri que estava grávida, quando vi um sorriso no pai dessa criança, quando descobri que Papai Noel é balela, quando vi planos sendo construídos, quando saímos para comprar os moveis do nosso apartamento, quando aprendi a andar de bicicleta, quando escolhi meu vestido de noiva, quando fiquei chateada por não ter copos de leite na decoração do casamento, quando me emocionei ao entrar na igreja, quando senti as dores do parto, quando entrei com meu pai no dia do casamento, quando pus a aliança no dedo, quando ouvi o choro do filho que tive na barriga, quando troquei fraldas, dei de mamar, quando vi meu filho chorar ao tomar injeção e... puta merda, já vêm 22 e meu marido ta dormindo ali na cama, meu filho dorme ali no berço, tenho um cabelo branco e já penso em cremes e produtos para a casa... parabéns pra mim.


Por M * 8:29 AM


Por sed non satiata * 1:51 AM

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[Quinta-feira, Outubro 04, 2007]


ao fundo, Lightnin' Hopkins - Morning Blues. Cd bom demaisssssssssssss...

"amor, veste aquela camisolinha que gosto, chego mais cedo hoje... põe duas taças na mesa, o vinho, escolha uns cds, deite no sofá que estou chegando."

e me ajoelho, teatralmente, com uma caveirinha na mão, quase. bem no estilo ser-ou-não-ser, shakespeareana e odiando minha colega Sibu Tramina da Silva.

ser ou não ser, quero dizer... paro ou não paro, ah, esquece.

Por M * 11:09 PM


Por sed non satiata * 1:51 AM

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quando eu era pequena, chorava escondida, quando ouvia essa musiquinha. sei lá o motivo, acho que pela historinha triste...
hoje, é a musiquinha que canto pro meu principezinho dormir.

http://youtube.com/watch?v=C65_Cf2BOPk


Xuxa - A Bonequinha

Eu tenho uma bonequinha assim
Ela veio de Paris pra mim
Ela tem um lindo chapéu
E também um amor de véu
Eu ponho ela em pé não cai
Ela diz mamãe papai (mamãe, papai)
Mas um dia sem razão
Escorregou e caiu no chão
Quebrou o rostinho dela
E também o dedinho do pé
Eu levei ela no doutor
Que sabia curar sem dor
A bonequinha chorou, chorou
E eu também chorei, chorei
Só depois que ela sarou
Eu brinquei, brinquei, brinquei...


Por M * 2:06 PM


Por sed non satiata * 1:51 AM

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[Quarta-feira, Outubro 03, 2007]


De: Mônica Medeiros (ou Kika Medeiros)
Para: Kika Medeiros (ou Mônica Medeiros)

Escrito em 31 de maio de 2007, adaptação de outrem, por quem tenho uma enorme admiração :)



Hoje, tento te decifrar. Ponho-te um pseudônimo: Kika. Uma cor, não sei. Talvez todas, um arco-íris. Talvez saiba pouco sobre ti, afinal te conheço há apenas 21 anos... No mais, sei que costumas procrastinar mais do que o permitido, mas sempre com doçura (ou um tanto de cara de pau, fantasiada de bom humor). Tens um lado dionisíaco acentuado, mas também lapsos de niilismo com pitadas de Apolo. Costumas chorar sem motivo, de acordo com a Lua (suponho!). Tua alma dança quando lês poesia. Na verdade, dança de acordo com tua bibliofilia: sempre foste uma apaixonada por livros. És extremamente incompreendida e incompreensível: dicotômica, sempre. Tens algumas paixões, personificadas em grandes homens e mulheres da cultura desse mundo (impossível mencionar todos): Sentes-te protegida pelos conselhos do Alberto Caeiro, tens uma paixão fulminante, insana e sensual por Álvaro de Campos, sentes-te encantada pelo requinte de Ricardo Reis, mas amas mesmo a simplicidade da prosa complexa do Bernardo Soares, com seus desassossegos. Ama a arte sedutora, feminina, nua de Modigliani, seu pintor favorito. Não correrei o risco de mencionar Chico Buarque: além do teu amor conjugal, do teu amor materno, eis o amor infinito do homem que te deu leitura, música, poesia e vísceras. Tens uma certa inclinação para a beleza da tristeza (não por ser triste, mas sim pelo oposto: de tão feliz, admiras aquilo que te é distante.). Tens uma lista enorme de pessoas que disseram que nunca iriam te abandonar e até que te amavam mais do que a suas próprias mães (coitadas...!!!), e inúmeras as pessoas te juraram admiração e fidelidade - mas elas acabaram agindo como o Pluto, seguindo a borboleta e tropeçaram em cima de ti. Não exiges a perfeição das pessoas, como alguns podem pensar, mas sim, o mínimo de coerência com o que afirmam tão demasiadamente terem. Tens cócegas e afagos no teu espírito quando ouve Kings of Convenience, e o som do piano para ti é quase um orgasmo. Colecionas os papéis de balas, bilhetinhos e até flores que já estão secas que elas - pessoas antigas ou novas - te deram. Costumas morder os lábios, é verdade. Andas de um jeito sereno, falas transando com as palavras. Tens a pronúncia do "r" intervocálico bem peculiar. Teu sorvete preferido é de menta com chocolate e café - duas bolas, por favor. Estudaste por 3 anos em Letras; amas a Literatura e como tal não admites que alguém não goste desta disciplina, porque não é uma "disciplina" e sim um portal para novas lentes do mundo. Achas a Língua Portuguesa, o Latim, o Espanhol e o Grego as maravilhas orgásticas do ser humano, verborragicamente falando. Finalmente assumiste que nascera para a Filosofia: bem-vinda. Ah, és brava, mas raramente. És em grande parte - e isso torna-se teu grande defeito, fragiliza-te - sensível, doce, fraterna e receptiva. Levas algum tempo para enxergar maldade n'outros. Como boa libriana, és inconstante, confusa, filósofa de bar e de cama...Falando em cama, és quente. Apaixona-te intensamente, e sempre suga o máximo de amor, para tua felicidade. És bagunceira, divertida, tímida. Ah, o mais divertido: és preguiçosa...

Tenho que admitir. És egocêntrica. Escreves, escreves e tens sempre a sensação de que não falaste nada de ti. Apesar disso, sei que refletes sobre isso - tu te observas e te recrias diariamente. Apesar de egocêntrica, estás sempre diminuta para satisfazer as pessoas de quem gostas. Pensas sempre em todos, antes de ti. Faz de tudo para que estejam todos confortáveis, e só depois prestas atenção no teu umbigo. És uma figura!
Não sabes disfarçar: tens dificuldades de se despedir. Se tal descrição fosse em primeira pessoa, tu certamente dirias, por fim, de partida: *Vocês já leram Kafka??*

...e assim dobrarias a esquina, e partirias.

Por M * 4:36 PM


Por sed non satiata * 1:50 AM

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[Terça-feira, Outubro 02, 2007]


O Êxtase [ John Donne (1572 –1631) ]



Onde, qual almofada sobre o leito,

A areia grávida inchou para apoiar

A inclinada cabeça da violeta,

Nós nos sentamos, olhar contra olhar.



Nossas mãos duramente cimentadas

No firme bálsamo que delas vem,

Nossas vistas trançadas e tecendo

Os olhos em um duplo filamento;



Enxertar mão em mão é até agora

Nossa única forma de atadura

E modelar nos olhos as figuras

A nossa única propagação.



Como entre dois exércitos iguais,

Na incerteza, o Acaso se suspende,

Nossas almas (dos corpos apartadas

Por antecipação) entre ambos pendem.



E enquanto alma com alma negocia,

Estátuas sepulcrais ali quedamos

Todo o dia na mesma posição,

Sem mínima palavra, todo o dia.



Se alguém - pelo amor tão refinado

Que entendesse das almas a linguagem,

E por virtude desse amor tornado

Só pensamento - a elas se chegasse,



Pudera (sem saber que alma falava

Pois ambas eram uma só palavra),

Nova sublimação tomar do instante

E retornar mais puro do que antes.



Nosso Êxtase - dizemos - nos dá nexo

E nos mostra do amor o objectivo,

Vemos agora que não foi o sexo,

Vemos que não soubemos o motivo.



Mas que assim como as almas são misturas

Ignoradas, o amor reamalgama

A misturada alma de quem ama,

Compondo duas numa e uma em duas.



Transplanta a violeta solitária:

A força, a cor, a forma, tudo o que era

Até aqui degenerado e raro

Ora se multiplica e regenera.



Pois quando o amor assim uma na outra

Interanimou duas almas,

A alma melhor que dessas duas brota

A magra solidão derrota,



E nós que somos essa alma jovem,

Nossa composição já conhecemos

Por isto: os átomos de que nascemos

São almas que não mais se movem.



Mas que distância e distração as nossas!

Aos corpos não convém fazermos guerra:

Sendo nós, Inteligências,

E eles, as esferas.



Ao contrário, devemos ser-lhes gratos

Por nos (a nós) haverem atraído,

Emprestando-nos forças e sentidos.

Escória, não, mas liga que nos ata.



A influência dos céus em nós atua

Só depois de se ter impresso no ar.

Também é lei de amor que alma não flua

Em alma sem os corpos transpassar.



Como o sangue trabalha para dar

Espíritos, que às almas são conformes,

Pois tais dedos carecem de apertar

Esse invisível nó que nos faz homens,



Assim as almas dos amantes devem

Descer às afeições e às faculdades

Que os sentidos atingem e percebem,

Senão um Príncipe jaz aprisionado.



Aos corpos, finalmente, retornemos,

Descortinando o amor a toda a gente;

Porque se os mistérios do amor, a alma os sente,

É ao corpo que pertencem todas as linhas que lemos.



Se alguém - amante como nós - tiver

Esse diálogo de um, ouvido a ambos,

Que observe ainda e não verá qualquer

Mudança quando aos corpos nos mudamos.



Tradução de Augusto de Campos


* LACAN refere-se a este poema em Le désir et son interprétation – sessão de 12/11/1958 -(http://gaogoa.free.fr ).



Por M * 9:12 PM


Por sed non satiata * 1:50 AM

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Nietzsche e o Corpo
O que fizeram do corpo na tradição metafísica?

Nilo César - Mestrado de Filosofia - UFRN (2003)


“Eu sou corpo, por inteiro corpo e nada mais” (Dos Desprezadores do corpo)


Alguém aqui ousaria a dizer que me ouve com o corpo? Que me entende ou tenta fazê-lo por meio da extensão de sua epiderme como uma simples sensação? Ora, isso não parece demasiadamente jocoso? Pois é exatamente daquilo que se tornou zombaria aos homens da razão, e aos espirituais também, que vai se consagrar uma das notas mais elevadas da partitura filosófica de Nietzsche, no que a filosofia não privilegiou, está, agora, no sentido de ser para o filósofo. O corpo está ai para isso. Com efeito, alguns filósofos de sensibilidade aguçada, a saber – Bachelard, Merleau-Ponty pensaram o corpo como uma orquestra, um organismo que tem sua melodia e sua textura musical, “o organismo é uma melodia que se canta.” Assim diz Merleau-Ponty.

Não obstante, Nietzsche é quem propõe um desconcerto ou quem sabe um concerto (com c), exercitado com tamanha maestria para a filosofia, quando eleva o corpo a condição de grande razão, Por isso, que já não nos soa mais, com seu eco límpido, os acordes da razão soberana em seus tribunais. Talvez não sejamos “espíritos livres” para sintonizar com brevidade as vibrações desta grande razão tocada por uma melodia de imagens poéticas. Mas por que associar o corpo ao canto, a dança e a poesia? A dança, o canto, a poesia nos transporta para um estado pueril de imaginação, e assim traz o corpo á superfície à leveza, às sensações. Nietzsche é quem diz: eu só acreditaria no Deus que soubesse dançar; quando vi o meu demônio achei-o, sério, metódico, profundo, solene, era o espírito de gravidade – a causa pela qual todas as coisas caem. (ZA do ler escrever, 1844) Portanto, o filósofo nos convoca assumi o corpo e suas vibrações para que diante da gravidade possamos fazer o corpo dançar. O que fizeram do corpo? Enxertaram-no de uma moral decadente e entorpeceram-no, tornando seus órgãos indolentes, “impotentes”, amputaram-no de suas possibilidades criadoras, em detrimento de uma educação que privilegia o espírito, tendo como fins o esmero da cultura.

O corpo tem sua linguagem própria, que fogem as regras dos argumentos, da evidencia, das provas dos métodos, cujos procedimentos são puramente racionais. Mas, Nietzsche sabia que argumentos e razões não convencem, por isso ele obedece ao corpo, aquilo que o corpo dizia ele escrevia, muitas vezes sem explicações e fundamentos, mas era a razão do corpo. Meu caro amigo, diz Nietzsche: “há mais razão no teu corpo do que na tua melhor sabedoria”. Só sei que muitas vezes nos damos maus quando não obedecemos aos argumentos do corpo/razão.

Para Nietzsche a filosofia não foi até agora uma interpretação do corpo e um mal-entendido sobre o corpo. Diz Nietzsche: “Por trás dos mais altos juízos de valor, pelos quais até agora a história do pensamento foi guiada, estão escondidos mal-entendidos sobre a índole corporal, seja de indivíduos, seja de classe, ou de raças inteiras.” (GC, prefácio 1886, § 2) Portanto, é de dentro desse mal-entendido sobre o corpo que pretendemos fazer a questão, O que fizeram do corpo ao longo da tradição filosófica? E quem sepultou o corpo na filosofia? Ao que parece, Nietzsche quer deslocar uma tradição filosófica centrada num eixo racional metafísico e propor uma nova compreensão de sentido para o corpo humano. Essa má compreensão do corpo foi haurida no discurso metafísico travestido de religião, moral e ciência que, por sua vez, constituem-se os detratores do corpo. A ciência moderna teve que instrumentalizar o corpo, e para manter-se enquanto poder dominante, foi necessário transformar o corpo no modo de produção; eis a razão pela qual Marx define o homem quando pensou o corpo na sociedade moderna como, valor de troca, mercadoria, ou forças produtivas, assim ele determinava a condição humana na sua existência.

O cristianismo como portador por excelência do platonismo deu-lhe a alma o primado sobre o corpo. No Fedon, Platão, discorrendo sobre a alma nos diz: “o objeto próprio do exercício dos filósofos é destacar a alma e separá-la do corpo”. Na metafísica platônica há a deflagração do corpo, retiraram essa capacidade de corpo-pensante, e apresentaram o corpo como um estorvo para o exercício do pensamento. Para Platão o corpo nos enche de tal forma de amores, paixões, desejos, temores, de imaginação, que todo tipo de futilidades, guerras, revoluções, batalhas têm sempre como causa o corpo e seus desejos. Assim prossegue Platão no Fedon: “Ora nós somos obrigados a adquirir riquezas por causa de nosso corpo; esse por ser escravo a bens materias. E por sua culpa ainda não temos tempo para filosofar”.

Nietzsche trava um embate com a metafísica platônica, na sua concepção não como filosofar sem o corpo, ora se pensar consiste nessa “multiplicidade com um único sentido”, corpo-alma, corpo-espírito, corpo-mente, corpo-psique, não haverá por que denegrir o corpo em detrimento da razão, afim de que ele seja suscitado do “além e para o além”? Isso não é logrador situar o corpo como uma esfera distante do pensamento? Por que recusar as sensações e vibrações de teu corpo, os compassos de sua voz interior – que é a voz da beleza? Salvo, a lucidez de alguns, o corpo é inegável, dói, fere-se, agita-se, clama, silencia-se, vem e vai, modifica-se e transforma-se? Não há como negar o corpo, se o corpo é o ser próprio, tudo que sei de minha existência, “Eu sou por inteiro corpo e nada mais.” Essa é a voz consciente do Zaratustra que entre as cinzas da morte de Deus ressuscita o corpo; Contudo, tudo que lhe resta é o corpo como instrumento da vontade.

Parece que na cultura ocidental o corpo perdera suas forças, sua potência. Nietzsche constata isso na genealogia da moral, cuja degeneração do corpo inicia quando o homem se viu sob pressão da mais radical das mudanças que se encerra no âmbito da sociedade e da Paz. Diz Nietzsche: “Esses semi-animais adaptados de modo feliz à natureza selvagem, à vida errante, à guerra, à aventura – subitamente seus instintos ficaram sem valor e “suspensos” e seus impulsos reguladores reduziram os infelizes, a pensar, inferir, calcular, combinar causas e efeitos, reduzidos ao seu órgão mais frágil e falível a saber –a consciência.” (GM II § 16 1887) - Na verdade, a consciência foi outro mecanismo criado para sepultar as forças e a potencia do corpo. Ela funciona como filtro naquilo que devemos ou não experimentar no corpo. Segundo Nietzsche o processo chamado consciência se dá desta forma: “todos os instintos que não se descarregam para fora se voltam para dentro – isto é o que eu chamo de interiorização do homem, é assim o que no homem cresce o que depois se denomina sua alma. (GM II § 16 1887) “Entrai-vos mais profundamente na sua consciência e examinai-a, lá encontrarás a sua alma contrita e prisioneira deste corpo!” assim nos convoca os espirituais, a fugir das chamas ardentes do corpo. Com efeito, alma para Nietzsche é um instinto admoestado sustado á ação ou movimento. Nietzsche acusa os metafísicos por esta colossal violência ao corpo feita no processo de contenção dos instintos, chamado interiorização de si – em busca de alma.

A tradição cristã ensinou ao homem envergonhar-se de seu corpo, Paulo em suas cartas conclama ao povo de Coríntios a fugir da imoralidade contra o corpo. Diz Paulo “Vocês não sabem que o seu corpo é templo do Espírito Santo que está em vocês e lhe foi dado por Deus? (Paulo, Coríntios 18-20). O apóstolo ensina o preço a se pagar pela vida moral. Deus é confundido com um ente moral e a condição para viver a vida em Deus é a privação do corpo, que são embriagados de desejos e das paixões. Com efeito, esse ódio ao corpo pensado como instrumento perversor da alma, surge bem antes de Paulo Apóstolo, ainda quando Adão não consegue conter-se do desejo e da vontade de tocar no proibido, tal atitude descarregou toda maldição sobre o corpo, pois a corrupção entra na humanidade, e Adão perde o paraíso eterno. Isto é a moral prevalece sobre a vontade e os instintos humanos. Foi isso que a civilização precisou fazer até agora pra se manter. Ao que parece, a tradição nos ensinou a não viver com intensidade a nossa natureza humana enquanto corpo; Quanto mais compressão sobre o corpo, mais garantia se tem de felicidade plena numa vida extraterrena. Não obstante, a moral cristã delimita o corpo como ente moral, como um sistema de juízo de Deus, que se opera pela resignação, castidade e amputação dos desejos e da vontade. Desse modo, o corpo perde a força e a vontade, nisso também é a vida quem perde a sua gravidade; Para tanto, indaga o filósofo: como caminhar sobre a terra? Se, se põe o centro da gravidade da vida, não na vida, mas no “além” - no nada – tirou-se da vida toda a gravidade (AC § 43). É Nietzsche quem diz, é a fé cristã quem não partilha a dúvida, tendo a certeza de que o paraíso é extraterreno e que o corpo é imprestável por ser corruptível – por ter desejos confessos e não confessos, por vezes incontroláveis. Transportaram o sentido da vida para um “além” que buscaram um outro “mundo verdade” voltaram-se para a alma, sepultaram o corpo. E da sepultura forjada brotaram a renuncia pela vida, ou melhor, aquele tipo de moral que assume como verdade tudo que é contra a natureza do corpo.

“O corpo é uma grande razão, uma multiplicidade com um único sentido, uma guerra e uma paz, um rebanho e um pastor. Instrumento do teu corpo é, também, a tua pequena razão, meu irmão, à qual chamas “espírito” pequeno instrumento e brinquedo de tua grande razão.” (ZA dos desprezadores do corpo). Essa grande razão é uma sede de uma vontade, por sua vez uma configuração de um jogo de forças constitutivas. Uma pulsação que ativa e desativa em constante compasso; que se agitam no ir e vir incansável, afetos, sentimentos, instintos – emaranhado de relações entre si de acordo com um fluxo e refluxo de suas ações. Nietzsche concebe o corpo como uma unidade organizada de relações complexas de aliança e oposição entre células, tecidos, órgãos e sistemas. Elege o corpo como fio condutor e ponto de partida para uma nova concepção de subjetividade, nesse sentido, está à multiplicidade com um só sentido. Mas é preciso entender a vida como jogo; o jogo se faz e refaz em guerra e paz, no que ainda não é, e no que já é, uma permanente luta. Onde as forças não se anulam, mas se superam. A Luta quem garante a permanência da mudança. Tudo é um eterno vir-a-ser constante. Nietzsche constata que só há uma única maneira de ser da vida – a luta.

Nesse processo, o homem está convidado a reconciliar com o ser próprio, esse configura um Eu, nas palavras do Zaratustra “o Ser próprio reina e é igualmente o soberano do eu” (ZA I Dos desprezadores do corpo) não obstante, esse “Eu” no sentido lógico e crítico, sujeito pensante, se transfigura na pluralidade ou seja, na multiplicidade dos “Eus” por ser diverso, intenso, pulsional, dinâmico isto é com seu corpo. “Atrás de teus pensamentos e sentimentos, meu irmão, acha-se um soberano poderoso, um sábio desconhecido – e chama-se o ser próprio, mora no teu corpo, é o teu corpo. (ZA: Dos Desprezadores do Corpo). Ser próprio foi o que o Zaratustra não ousou a nomear. Reconciliar-se no sentido de buscar a razão no teu corpo, ou talvez na sua loucura, nela encontrei tanto liberdade como segurança em; a liberdade da solidão, e a segurança de não ser compreendido, pois aqueles que nos compreende escraviza alguma coisa em nós.

O meu corpo agradece a atenção de vocês. Obrigado!



Por M * 5:43 PM


Por sed non satiata * 1:50 AM

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[Segunda-feira, Outubro 01, 2007]


O Teatro Mágico - Sintaxe À Vontade


"Sem horas e sem dores
Respeitável público pagão
Bem vindo ao teatro mágico!
sintaxe a vontade..."

Sem horas e sem dores
Respeitável público pagão
a partir de sempre
toda cura pertence a nós
toda resposta e dúvida
todo sujeito é livre para conjugar o verbo que quiser
todo verbo é livre para ser direto ou indireto
nenhum predicado será prejudicado
nem tampouco a vírgula, nem a crase nem a frase e
ponto final!
afinal, a má gramática da vida nos põe entre pausas,
entre vírgulas
e estar entre vírgulas é aposto
e eu aposto o oposto que vou cativar a todos
sendo apenas um sujeito simples
um sujeito e sua oração
sua pressa e sua prece
que a regência da paz sirva a todos nós... cegos ou
não
que enxerguemos o fato
de termos acessórios para nossa oração
separados ou adjuntos, nominais ou não
façamos parte do contexto da crônica
e de todas as capas de edição especial
sejamos também o anúncio da contra-capa
mas ser a capa e ser contra-capa
é a beleza da contradição
é negar a si mesmo
e negar a si mesmo
é muitas vezes, encontrar-se com Deus
com o teu Deus
Sem horas e sem dores
Que nesse encontro que acontece agora
cada um possa se encontrar no outro
até porque...

tem horas que a gente se pergunta...
por que é que não se junta
tudo numa coisa só?








-









puta que pariu, não falo palavrão mas hoje abri uma exceção. Na bosta do dia 06 de outubro um dilema me consumirá. Shows de O Teatro Mágico, Geraldo Azevedo e Nação Zumbi.

puta merda que caralha!


libriana já sofre com indecisão... puta mundo natalense babaca, que é 8 ou 80: um fds sem canto nenhum pra ir, outro com mil opções. ah, vai tomar no, ok parei.

Por M * 8:29 AM


Por sed non satiata * 1:49 AM

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Como todo ano, no dia 30 de fevereiro toda a cidade de Embromeixonsville parou, a fim de prestar uma homenagem à tragédia ocorrida há 30 anos, que quase destruiu toda a civilização embromeixense. Em sinal de luto, toda a cidade interrompeu trânsito, trabalho, tudo, para produzir um silêncio mórbido, durante 1 minuto.

Como todo ano, uma sirene tocou em Seiláoquêlândia, para lembrar que naquele mesmo dia e horário, a 3 anos atrás, uma bomba explodiu, matando milhares de pessoas. Ao ouvirem a sirene, todos os habitantes seilaoqueanos pararam o que estavam fazendo, em sinal de luto.

Como todo ano, no aniversário de morte do maior escritor romancista do mundo – Zé Escrivinho - , os habitantes de sua cidade natal, Escrivinho do Sul, param tudo o que estavam fazendo por 1 hora, para orações e silêncio.

Como todo ano, os americanos prestaram homenagem aos mortos de 11 de setembro. Não muito distante dali, "não-sei-quem's" param tudo para 1 minuto de silencio, em tal cidade, em luto devido a alguma bomba, tsunami, acidente...

Nesta sexta-feira o Brasil também parou.

Mas não foi pela fome, pelos acidentes da GOL, TAM, NAM, DÃ. Não foi pela morte de um intelectual, de um presidente, mártir ou cidadão comum, morto em troca de tiros.

...

...Era o ultimo capitulo da novela das 8, gente...
...e no fim das contas foi o Olavo. (!!!)


...By the way. Foi tudo clichê: perseguição de carros, casamento, gravidez, final feliz, elenco e equipe com cara de babaca aparecendo na TV, num show de algum famoso.

Mas assim é o brasileiro. Recebe de braços abertos o senso comum, sem reclamar. A novela começa já óbvia, termina mais ainda. Mas o brasileiro mesmo assim pára o que estiver fazendo para assistir...

Chega a confundir o nome do vilão com aquele da outra novela. Mas é tudo igual mesmo...O mocinho fica com a mocinha, o vilão morre, e por aí vai.


Enfim.
No sábado pela manhã o Brasil voltou à rotina, já sabendo quem matou Taís.


Por M * 7:43 AM


Por sed non satiata * 1:49 AM

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[Sexta-feira, Setembro 28, 2007]


Qualquer forma de arte, assim como os mitos, são veículos para a expressão do inconsciente coletivo, e seus conteúdos, os arquétipos. Ao fundo, jazz. Repugnação daquilo que pouco conhece: medo do desconhecido. Ventou tanto hoje cedo... Fechei a janela sem hesitar. Calor. Do mesmo modo que não podemos julgar um individuo a partir da idéia que temos de nós mesmos, não podemos julgar uma época de agitação revolucionária (digamos assim...) a partir da nossa consciência. Lacunas. O homem é condenado a ser livre, não há como deixar de sê-lo (e ser livre a dois é melhor ainda...); ele tem o direito de fazer suas próprias escolhas, o sujeito é o único responsável pelos seus atos. Porém, suas ações são delimitadas pelo meio. Uma caneca de cappuccino. a liberdade será alcançada pela observação do processo de prisão da mente, feito de conceitos e preconceitos. A liberdade começa com um trabalho de desconstrução. Acordei espirrando tanto... Uma obra está sempre aberta a inúmeras interpretações. Ai que saudade, anseio pela vinda da lua. A dialética seria uma progressão na qual cada movimento sucessivo surge como solução das contradições inerentes ao movimento anterior. No primeiro gole de cappuccino, engasgo ao balbuciar dialética, mas continuo a pensar. É preciso abandonar a idéia de que a contradição produz um objeto vazio de conteúdo. Uma coisa pode ser una e ambígua... ai que raiva desses espirros! O homem não seria apenas possuidor de uma essência, teria que criar nuances em torno dele e para ele, a partir de sua existência. Putz, é a franja roçando no nariz que me provoca tanto espirro!

Renovação: os métodos modificam-se porque são aplicados a objetos novos.

É preciso então construir outro edifício acima do demolido, e... Caramba onde pus meu broche?




Por M * 4:07 PM


Por sed non satiata * 1:49 AM

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[Domingo, Setembro 23, 2007]


Depois de um cappuccino para embreagar o intensivão de leitura sartreana, a Crítica da Razão Dialética já não me enchia os olhos. Estes, semicerrados, por mais que se esforçassem não conseguiam mais ficar abertos. Enfadada, só me cairiam bem suas mãos.

E depois de livro e mamadeiras, suas mãos me massagearam as costas, como se tudo no mundo fosse só aquele momento. Dedos firmes e grandes, pegada forte. Nódulo a nódulo, senti quase o estalo da tensão se esvaecendo pela janela. Massageou-me a nuca, desceu pela espinha, relaxou-me os ombros e só assim pude suspirar: como é bom...

Um afago, uma proteção, colo, dormir de conxinha: nasci do tamanho certinho para me encaixar entre seus braços e pernas, para dormir o sono mais sereno que tive. Seu corpo quentinho faz o lençol ser obsoleto, e sua pele macia deixa qualquer amaciante de roupas com ciúme: danem-se os lençóis super amaciados e cheirosos, eu tenho um Sr. Cobertor para mim.

Sentir o gosto do cappuccino ao acordar é como pisar numa nuvem. Não tem explicação, mas é bem essa sensação mesmo...




Por M * 6:28 PM


Por sed non satiata * 1:49 AM

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[Sábado, Setembro 22, 2007]


"(...)

Cada gota em sua cristalina nascente, cada folha que caiu em nossa trilha, cada momento em poucos segundos, cada beijo doce em meus lábios, enfim cada minuto vivido ao seu lado foi mágico, meu amor. A vida me tornou forte ao seu lado, me sinto completo, toda noite ao seu lado me faz sentir a paz e o amor que com certeza nunca tive igual. Hoje temos mais uma razão para sorrir, acho que fizemos a coisa mais linda e importante que deixa nosso amor mais forte que o mais puro metal.
Espero que essa data se repita por muito tempo meu amor, não tenho vergonha em dizer que só tenho um amor e que é forte e emocionante, pois em pouco tempo transbordou em uma história completa de entrega e admiração.



Amar
Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o cru,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave
de rapina. Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

(Carlos Drummond de Andrade)




Feliz dia mais importante da minha vida!
Te amo muito Little Girl !
Do seu pirata que vive louco por você !
Glay Anderson

(...)"

...não há maior sensação do que esta, não sei mais o que dizer... fiquei sem latim e foi um dia mágico.

Por M * 9:16 PM


Por sed non satiata * 1:48 AM

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[Quarta-feira, Setembro 19, 2007]


SE EU FOSSE UM PADRE

Se eu fosse um padre, eu, nos meus sermões,
não falaria em Deus nem no Pecado
- muito menos no Anjo Rebelado
e os encantos das suas seduções,

não citaria santos e profetas:
nada das suas celestiais promessas
ou das suas terríveis maldições...
Se eu fosse um padre eu citaria os poetas,

Rezaria seus versos, os mais belos,
desses que desde a infância me embalaram
e quem me dera que alguns fossem meus!

Porque a poesia purifica a alma
... a um belo poema - ainda que de Deus se aparte -
um belo poema sempre leva a Deus!

Mario Quintana

nhá

Por M * 12:06 AM


Por sed non satiata * 1:48 AM

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"...
Sempre houvera, no planeta do pequeno príncipe, flores muito simples, ornadas de uma só fileira de pétalas, e que não ocupavam lugar nem incomodavam ninguém. Apareciam certa manhã na relva, e já à tarde se extinguiam. Mas aquela brotara um dia de um grão trazido não se sabe de onde, e o principezinho vigiara de perto o pequeno broto, tão diferente dos outros. Podia ser uma nova espécie de baobá. Mas o arbusto logo parou de crescer, e começou então a preparar uma flor. O principezinho, que assistia à instalação de um enorme botão, bem sentiu que sairia dali uma aparição miraculosa; mas a flor não acabava mais de preparar-se, de preparar sua beleza, no seu verde quarto. Escolhia as cores com cuidado. Vestia-se lentamente, ajustava uma a uma sua pétalas. Não queria sair, como os cravos, amarrotada. No radioso esplendor da sua beleza é que ela queria aparecer. Ah! Sim. Era vaidosa. Sua misteriosa toalete, portanto, durara dias e dias. E eis que uma bela manhã, justamente à hora do sol nascer, havia-se, afinal, mostrado.

E ela, que se preparava com tanto esmero, disse, bocejando:

- Ah! Eu acabo de despertar... Desculpa... Estou ainda toda despenteada...

O principezinho, então, não pôde conter o seu espanto:

- Como és bonita!

- Não é? Respondeu a flor docemente. Nasci ao mesmo tempo que o sol...

O principezinho percebeu logo que a flor não era modesta. Mas era tão comovente!

..."



Por M * 12:01 AM


Por sed non satiata * 1:48 AM

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[Terça-feira, Setembro 18, 2007]


"A vida é para nós o que concebemos dela. Para o rústico cujo campo lhe é tudo, esse campo é um império. Para o César cujo império lhe ainda é pouco, esse império é um campo. O pobre possui um império; o grande possui um campo. Na verdade, não possuímos mais que as nossas próprias sensações; nelas, pois, que não no que elas vêem, temos que fundamentar a realidade da nossa vida."

Fernando Pessoa

...e nesta sexta 21 comemoraremos 1 ano "oficial"... já muito bem celebrado desde já.



*
*



um pouco de tabacaria, minha predileção.


"...
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu..."


Álvaro de Campos (Fernando Pessoa), 15-1-1928

Por M * 11:52 PM


Por sed non satiata * 1:48 AM

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[Quinta-feira, Setembro 13, 2007]


Todos os dias acordo com alegria e pena.
Antigamente acordava sem sensação nenhuma; acordava.
Tenho alegria e pena porque perco o que sonho
E posso estar na realidade onde está o que sonho.
Não sei o que hei-de fazer das minhas sensações.
Não sei o que hei-de ser comigo sozinho.
Quero que ela me diga qualquer cousa para eu acordar de novo.

*

«O Pastor Amoroso», de Alberto Caeiro

Por M * 11:37 PM


Por sed non satiata * 1:47 AM

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Filosofia kikoviskiana de boteco


Dizem em melodia que o céu é só uma promessa. Se me sinto nas nuvens - em conotação e denotação - não havendo céu, vivo no inferno... mas ah, que doce inferno então. Não há tridentes, nem caldeirões, nem bichinhos vermelhos de chifres e rabinho comprido. Há amor, sorrisos no canto da boca, e tantos afagos...

*

Monotonia a me chamar de ingrata. Tédio a me chamar de mal agradecida. Morgação a me chamar de insatisfeita, ansiosa, imatura...
Tudo o que eu queria, num fim de noite, resume-se a uma caneca de cappuccino, um cigarro, ou quiçá um copo de cerveja... e um bom livro. Me odeio por ter essas vontades, é cedo, eu sei, é cedo e sou a maior inimiga do tempo nesse mundo. Sempre fui ansiosa ou atrasada. Sempre antes ou depois de experimentar tudo. Falo isso me lembrando de como ansiei pelo parto, ou quis procrastinar uma prova, atividade, ou até mesmo uma louça suja na pia. NEM 8 NEM 80, quero mesmo é um 69 para desopilar, então... (brincadeirinha). Fico com meus 21. Imaturos e amadurecidos 21, que daqui a menos de 1 mês tornar-se-ão 22, dois patinhos na lagoa, quaaaaaase se afogando. Qua qua qua...

*

De 3 em 3 horas ele costuma acordar para tomar o seu leite, que é mais nan do que materno. Divirto-me em cada despertar, a cada dia ele que abre mais os olhinhos, faz caretas e sons que me provocam risos, incontidos. Quando chora mesmo com a mamadeira na boca, quando resmunga pela demora (enquanto o leite esfria), quando reclama por eu ter tirado a mamadeira de sua boca, ao se engasgar. Pelas bombinhas-com-cheiro que solta, fazendo a maior carinha de sonso... pelos espirrinhos meigos, ou qualquer coisa que ele faça. Nessa noite não foi diferente, acordei a cada 3 horas para alimentar o petit, às 11, 2, às 5, e exausta desabei na cama, entre uma mamada e outra. Às 8, mal escutei seu chorinho. Como de costume, entra o papai shoo, que pontualmente e diariamente sempre se dispõe a dar a mamadeira das 8. Sempre disposto, coruja, babão, prestativo... acordei quase ao meio dia desnorteada, vendo o petit não só alimentado, mas com a fralda de cocô trocada, banho tomado, roupa limpa, sapato novo, cabelo penteado, quarto arrumado, berço com lençóis trocados, lixeirinha do quarto com saco trocado, banheiro arrumado, casa varrida, meus livros no lugar, cozinha cheirando e almoço feito. E ainda teve disposição para estar de barba feita, banho tomado e nu, deitado na cama, ao me acordar... é por isso que digo, não me conformo por habitar nuvens sem céu, já que este é só uma promessa... será? Ou então, brindemos, o inferno está bombando!



Por M * 8:44 PM


Por sed non satiata * 1:47 AM

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[Quinta-feira, Setembro 06, 2007]


Com uma vontade INSANA de ouvir Billy Idol, mas não encontro meus CDs. (Não adianta ninguém tirar sarro, eu gosto e MUITO!) Resta apelar para o iutubi. Mas repito, é insana a vontade, o ventinho frio que vem da janela aberta me atiçou a trilha de outrora, meus CDs-zinhos tão gostosos em meio a capuccinos e cigarrettes, ali na mesa de computador, enquanto ouvia mamãe conversar com a empregada... nostalgia, afaste-se nessa noite gostosa. Prontofalei...

Agora, ouvindo e dando pulinhos. Dançando porque Ícaro ainda não assimila coisas bizarras, então nem percebe que estou serelepe... a propósito, dorme. Pulinhos, pulinhos, um copo de água gelada. Sentindo tudo voltar ao que era antes da gravidez...

Rebel yell dancing with myself eyes without a face. (… reticências)... Por que musicas sempre marcam, sempre trazem lembranças, sempre eternizam momentos, fases?

Quem quiser gravar pra mim a discografia dele, fico grata eternamente. He He

Agora não há mais jeito. O pediatra me receitou o tal remédio para que o leite seque. Um suspiro magoado, como eu queria ser uma torneirinha de leite... quero dizer, consigo até ser. Então reformulando: como eu queria que mon petit mamasse.


no mais, descobri que sexo é mais gostoso a cada dia que passa...


Por M * 9:48 PM


Por sed non satiata * 1:47 AM

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[Quarta-feira, Setembro 05, 2007]


Amanheci entre personagens já conhecidos no enredo. Lençóis, travesseiros, um cavanhaque que me excita, um som de ronco, a epiderme longa e branca ao meu lado, pêlos, nudez, cueca no chão, e no quarto ao lado tudo o que uma nova vida necessita. De longe ouço o soninho do pequeno, inclusive.

Mas algo precisou ser inaugurado em meio à rotina.

Sinto-me tão “robocop”...!

A conversa com o ortomolecular foi na base da parcimônia. Embora eu tenha praticamente desistido - em virtude da frustração - amamentar, fui paciente e hesitei em pedir uma dieta programada (a última que pedi foi eficiente a mil, foi a fase do peso ideal mais satisfatória da minha vida...!). Conversamos bastante sobre a melhor maneira de recuperar o que “perdi” (ganhei). Agora, sou escrava de uma cinta sufocante, que dá uma silhueta bem bonitinha, mas não deixa de ser broxante. Digo, até agora não tem sido, não há empecilho pra aprontarmos mesmo... mas continuo achando broxante. Pelo menos é o que eu sinto quando a desabotôo para tomar banho...

Sinto-me tão “robocop”!


Por sed non satiata * 1:47 AM

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[Domingo, Setembro 02, 2007]


Soube que ele iria ao Budda, naquela noite. Na verdade, não soube, mas desconfiava (no fim das contas, ele não foi...). À tarde, fui ao shopping comprar uma pomada para o cabelo, alguns cacarecos e uma roupa, não lembro exatamente para quem. Só conseguia pensar naquela noite, meu ex iria ao Budda e eu o veria, mesmo que de longe. Só de longe...

Preparativos, esperei minha "amiga" (hoje em dia nem colega, que ironia) chegar até minha casa e fomos fi-nal-men-te ao Budda. Cervejas, muitas. Cigarros mil. uma carteira de Camel toda tragada, sendo substituída por uma de Marlboro, eca, mas só tinha essa pra vender lá... Procurei nervosa por todas as frestas daquele pub meu ex, mas ele não iria. Deveria estar em algum outro programa com sua namorada, aquela... Enfim.

Já perto da meia-noite, entra aquele casal conhecido, tão querido. Acompanhados de um homem, lindo, de barba e olhos puxados. Olhos azuis, sedutores... Brincos salientes, um tanto sexy. Alto, branquinho, sério excessivamente. Pensei: ele não deve estar em um bom dia, ou deve ser muito antipático. Como cola-tudo, fixei meus olhos nele, não intencionalmente, mas porque não consegui evitar. Hipnotizei-me. Para minha surpresa ele retribuiu, e não resisti. "amiga, me apresenta...", fomos então apresentados, uma apresentação sutil, nem puxamos tanto assunto assim. De praxe, qual seu nome? A idade? Ah sim, faz o que? Sei, sei... Aquilo tudo. Nossa, eu fiquei enlouquecida com aquele rapagão, alto, precisei olhar bem pra cima, erguer o queixo para falar!

Já era hora de ir embora, banda terminando de tocar, fila no caixa para pagar e tudo. Acendi um ultimo cigarro e pensei “caramba, me apresento a esse cara e deixo assim, acabar a noite? Tchau?" não, ousei e fiz algo que ridiculamente JAMAIS pensei fazer, nunca imaginei que eu fosse falar isso a alguém... devo ter nascido mineirinha, prefiro comer quieta e apenas olhar, até que cheguem até minha pessoinha. mas algo não sei de onde ou como me fez SIM ousar e falar: estou com vontade de fazer uma coisa, mas tenho medo de levar uma cortada...

Quando me perguntou o que era, sussurrei no seu ouvido: um beijo....

Você me deu um sorrisinho "errado", e no canto da boca um pouco de maroto. Seu olhar era o mais sedutor possível, ah malandrinho eu sei que você também estava no jogo, admita. Retribuiu-me com um eu também, só que continuou falando assim: só não posso hoje, acabei um relacionamento recentemente e tem muita gente conhecida aqui...

Poxa. Que cretino! Quer é comer quietinho ele... Daqueles que ficam com varias às escuras, e aloprei em pensamento. Que canalha! Que galinha! Se acha! Safado.

Pediu-me meu telefone, por via das duvidas dei....

Então me afastei, continuei a conversa com minha "colega", enquanto ele também virou de costas e voltou a socializar com os amigos.

Não sei como, mas ele virou-se de novo até onde eu estava e falou: queria hoje... Retribuí com um eu também, mas logo a musiquinha romântica de fundo desafinou, quando ele falou "vamos ali fora?"

tá certo, ao menos ele foi sincero e hoje eu entendo que era aquilo mesmo que ele tinha que fazer. Mas naquele momento continuei a pensar, cretino, canalha, galinha. Quer fazer escondido... Hesitei, neguei, achei aquilo o cúmulo.

No fim das contas, era pegar ou largar, eu queria mesmo era ficar com ele, então por que não? Fui até a lateral do Budda, e não me arrependo... Foi gostoso, comportado, mas gostoso... Meu corpo ficou quente só por estar beijando aquele homem.

No outro dia ele me ligou, uma conversa ainda recatada. e aí Monica, tudo bem? Como vc ta? É isso... Pois é, vamos marcar algo qualquer dia ne.

o resto, se Ícaro deixar eu conto depois. Ele acordou com uma fraldinha bem recheada pra eu limpar.


Por M * 12:14 AM


Por sed non satiata * 1:46 AM

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[Sábado, Setembro 01, 2007]


2 de setembro de 2006.

Dois de setembro de dois mil e seis: pronuncio. Sibilando. Suspirando..............


* (fogos de artifício)

já parou para pensar que há um ano nosso destino se encaixou num só percurso? Desde então há só UMA pessoa, e isso pra mim é magnífico. Fui ao Budda atrás de uma ilusão do passado, mas acabei dando de cara com o futuro, e tudo agora faz sentido. Eu me machuquei muitas vezes na vida, mas tudo porque eu tinha que estar preparada para VOCÊ, meu pirata. Foi bom ousar e lhe pedir um beijo, naquele dia. Se não tivesse pedido, não me perdoaria... te amo.

* (fogos de artifício)


Capítulo IV: 1 ano desde que nos conhecemos... (sim, o título vem no final do post...)

Por M * 11:55 PM


Por sed non satiata * 1:45 AM

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1 copo de leite, 7 colheres de farinha láctea Nestlé. E isso se tornou um vício...

Relendo O Primo Basílio, antes de ver o filme (ansiosa...). Refletindo, horrorosamente, excessivamente, a respeito do que Eça escreveu. Olho-me no espelho e me sinto Luísa, por quê?

O jeans finalmente coube. Mas é aqueeeele “coube”: entrar entrou. Foi necessário usar uma batinha por cima... não há mais abdômen, como outrora havia. “Ah, a genética e seu ziriguidum!”, como dizem. Mentira, ninguém diz isso. Mas eu comento agora, vai.

Lembro-me de olhar admirada a barriga da minha mãe, quando criança, cheia de risquinhos brancos, e pensar “nossa, como ela conseguiu ficar assim? Como se chama mesmo? Estrias...”. agora que vim ter a resposta: engravide. Use todos os óleos e cremes possíveis, mas não se esqueça: a genética tem um ziriguidum potente, puxou à mãe, dona Monica.

no mais, sexo é tão bom...

| ouvindo jamie cullum |


Por M * 7:37 PM


Por sed non satiata * 1:45 AM

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[Sexta-feira, Agosto 31, 2007]



Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a dum jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar
E não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre falar
E nem deixou-a só num canto, pra seu grande espanto convidou-a pra rodar

Então ela se fez bonita como há muito tempo não queria ousar
Com seu vestido decotado cheirando a guardado de tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços como há muito tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça foram para a praça e começaram a se abraçar

E ali dançaram tanta dança que a vizinhança toda despertou
E foi tanta felicidade que toda a cidade enfim se iluminou
E foram tantos beijos loucos
Tantos gritos roucos como não se ouvia mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu
Em paz



Por M * 4:34 PM


Por sed non satiata * 1:44 AM

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Capitulo III – valsinha

Hormônios em passeata protestavam: abaixo a repressão! Abaixo a repressão!!! Resguardo não, resguardo não! Ada Ada Ada, minha dona está tarada! Inha inha inha, queremos trep...

Com plaquinhas desenhadas em tinta guache, os hormônios protestaram intensamente.

Ela, de resguardo. Ele, paciente, entre mamadeiras e fraldas, apenas olhava... por falar em olhar, era só o que faziam, coitados. Entreolhavam-se, faziam bico, respiração ofegante e muito desejo acumulado. Ufa, enquanto o pequeno dormia, dia após dia foram se aproximando mais na cama, como antigamente... igual a namoradinhos tímidos, com receio de aproximação. 1cm mais próximo: hihihi! Outro cm: hihihihi!! Nenhum cm de distancia: suspiros... contaram até 5, tentaram conter, mas não adiantou. Trá!! Atracaram-se. Beijos de desentupir ralo, de estalar, de lambuzar. As mãos dele procuravam apalpar cada pedaço da epiderme dela, como se quisesse reconhecer o território que há umas semanas não desvendava. Apertou, acariciou, pressionou com força, muita força, contra seu corpo. Contra seu corpo endurecido. Contra seu corpo com volume... dava para ela sentir o volume. Dava pra sentir a rigidez. A rigidez... latente. Latejando.

Foram por etapas. Um dia depois do outro. No primeiro, o desejo e o tesão não esperaram. Foram direto para o gelzinho... virou-a de costas, e fizeram aquilo que descobriram juntos, tão gostoso como sorvete de cereja. Usaram a força, a fome, a intensidade, como animais. Formigava, suor, corpos quentes. Mordidas nas costas, unhas arranhando tudo. Foram tantos gritos roucos como não se ouvia mais.. Que o mundo compreendeu, e o dia amanheceu em paz.

Depois disso, já não havia empecilhos. Estava aberta a porteira da volúpia (que brega). Por cima, por baixo, de lado, de costas, de quatro. Medo de engravidar? Nunca pensei que aquelas camisinhas guardadas no fundo da gaveta da cabeceira teriam utilidade, algum dia...


Por M * 4:33 PM


Por sed non satiata * 1:44 AM

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Capítulo II: o capitalismo

Consumismo, capitalismo. O petit Prince se rendeu à mordomia dos bicos de mamadeira, do leite NAN e da conveniência do “pronto na hora”. Não puxando para o lado maldoso, eu diria que a “máquina veio com defeito de fábrica”, mesmo eu o achando perfeitíssimo, não confundam. A combinação perfeita que é “mãe + filho” não combinou, o pequenino não quis peito, não quis sugar, não quis o que eu tinha e ainda tenho a oferecer. É frustrante, doloroso, triste encarar isso. Cheia de leite, mas...

As bombinhas, outra obra do capitalismo consumista, tentaram ajudar, mas não obtiveram êxito total. Machucaram mais do que ajudaram. Restaram o bico de silicone (que também não foi bem sucedido) e a retirada manual de leite. Aperta daqui, aperta dali, pinga pinga pinga, pingos e mais pingos dentro da mamadeira. Ufa! Quase uma hora depois, sofridos 80ml retirados. O que há de errado comigo, afinal? “ah, minha prima enchia frascos de maionese por dia, chega pingava na roupa...” é frustrante...

Contava com a amamentação, tanto para a saúde do meu pimpolhinho, como também para a perda de peso, sabe como é. Agora, consulta marcada com o ortomolecular, na terça. Vamos atrás do prejuízo... mas não desisto. Ele “há de pegar” o bico, há de mamar, há de sugar... (esse “há de”, exatamente como ouço nas novelas, e sempre acontece...)


Por M * 4:16 PM


Por sed non satiata * 1:44 AM

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[Quinta-feira, Agosto 30, 2007]


Ele morava em um planeta pequeno, não muito distante do meu. Na verdade, morava aqui pertinho... não é Júpiter, não é Marte, tampouco Saturno. Chama-se Útero. Sim, ele vivia no seu próprio planetinha, com sua própria florzinha. Essa, passava horas arrumando suas pétalas, à espera do príncipe. É vaidosa, orgulhosa, caprichosa e contraditória. Alguns a conhecem como Mãe....

Em 11 de agosto de 2007 ele sairia de seu planetinha, com a missão de conhecer todos os outros planetas do céu. Estaria predestinado a conhecer aviadores, que durante longos anos serão seus amigos, seus confidentes, seu “laboratório”. Transformará a vida dessas pessoas viajantes em completa infância, com direito a elefante engolido por uma jibóia, ou algo do tipo... se bem me entendem. (“As pessoas grandes aconselharam-me deixar de lado os desenhos de jibóias abertas ou fechadas.”) Continuando, em seu destino viriam também “reis”, que pensam que tudo e todos são seus súditos e têm necessidade de controlá-los. - Mas, com sabedoria, nos ensinam que cada um só pode dar aquilo que tem... ("É preciso exigir de cada um o que cada um pode dar"); viriam pessoas vaidosas, que precisam da admiração de todos para comprovar o seu valor, e nos fazem lembrar que precisamos reconhecer nossos próprios talentos e capacidades, e não depender de elogios dos outros para nos auto-afirmar ("Mas o vaidoso não ouviu. Os vaidosos só ouvem elogios."); viriam bêbados (trajando luto, lembrando carlitos, ou não...), tentando escapar da realidade por meio do álcool, mas não conseguindo escapar da vergonha de serem como são; (“– Por que é que bebes? – Para esquecer. – Esquecer o quê? – Esquecer que eu tenho vergonha. – Vergonha de quê? – Vergonha de beber!”); viriam os “homens de negócios”, tão ocupados contando o que acumularam que não podem desfrutar da vida. (“– E de que te serve possuir as estrelas? – Serve-me para ser rico. –E para que te serve ser rico? – Para comprar outras estrelas, se alguém achar. Esse aí, disse o principezinho para si mesmo, raciocina um pouco como o bêbado.”); viriam os acendedores de lampiões (O universo está em constante evolução. O homem, as crenças e as relações humanas também. os acendedores de lampiões não têm o bom senso de questionar as ordens e trabalham sem parar, mesmo sabendo que não vão chegar a lugar algum...), viriam os geógrafos, sabendo toda a teoria, mas não aplicando seus conhecimentos. Nunca saem das suas mesas para explorarem as descobertas. Como um bom burocrata, declaram que isso é trabalho de outra pessoa. ('É muito raro um oceano secar, é raro uma montanha se mover...."); viriam os adultos, fantasiados de astrônomos turcos. especialmente os sofisticados materialistas, julgam pelas aparências. Por isso, são desprezados pela comunidade científica até aparecerem em elegantes roupas ocidentais. ("Mas ninguém lhe dera crédito por causa das roupas que usava. As pessoas grandes são assim."); viriam as raposas, sábias, que ensinam a compartilhar, cativar, amar. Viriam tantas outras criaturas...


Mas como eu disse, em 11 de agosto ele saiu de seu planetinha. Sim, meu pequeno príncipe resolveu antecipar sua viagem ao planeta Terra. Quando seu moço nasceu meu rebento não era o momento dele rebentar... e com 37 semanas (supostamente) decidiu que nasceria. Às 7:30 da manhã, senti cólicas leves e percebi um sanguinho discreto, no bom e velho carefree diário. Obcecada pelo seu nascimento (irmãs e amigas sabem bem o que estou dizendo... uma completa CANINGA paranóica eu era.), pensei: o tampão rompeu. Cantarolando e assoviando, apenas arrumei a mala, com um sorrisinho no canto da boca, e voltei a deitar. Olhei para o lado, lá estava o shooshoo de sempre, roncando em sinfonia, sem nem sonhar que era AQUELE o dia. La La La... cantarolei de novo. Não me agüentei, voltei a levantar e arrumei a roupa, dei uma caprichada no cabelo, passei uma base para esconder as olheiras matinais e aí sim, voltei a deitar. Mas não consegui dormir...

“shoo? Já está acordada?” “amor... o tampão rompeu.”

Olhos arregalados, um “eita” pronunciado lentamente, aquele sorrisinho nervoso-defelicidade-disfarçado, e lá foi ele pegar meu celular para ligar para a médica. “compareça ao papi.”. mas que nada! Eu to bem, amor... e ficamos ali, assistindo TV, TV cultura total. Vi como todo santo dia PINGU, “os amiguinhos da miss spider”, e por aí vai. Ele ainda viu seus 8349480 programas sobre futebol, chegamos até a almoçar, normalmente. Comi enfurecidamente (risos), pensando: é meu último prato guloso, prato de operário. É hoje!!!

Lá fomos nós, do papi à promater (por decisão minha). Lá pelas 14h começaram as REAIS dores, aquelas de arrepiar a alma, de levantar os cabelinhos da..., de me fazer chorar e gritar... (lembro de ter me arrependido de sentir curiosidade a respeito do trabalho de parto e suas dores.). entoei palavrões, chorei, apertei a mão dele. Esse, tadinho, tremia de nervoso e ansiedade, e de peninha, não sabia o que fazer para me ajudar.

Quando me deitaram na maca e me levaram até a sala de cirurgia, meu coração acelerou. Ai meu Deus, não acredito que é agora, já, assim, de repente, tendo eu esperado tanto tempo! É agora, agorinha mesmo, ai, ai, ai...! por “sorte” (sorte?), não senti a dor da anestesia, da agulha do soro, da sonda. Eu só estava “pra morrer” com a dor das contrações... baita menino grande, sô. Barriga pelas tabelas, será que agüento parto normal? Não digam a ninguém, mas na primeira dor forte só faltei fazer uma declaração de amor à cesárea. Muito franca.

Incômodos aqui e ali, da dormência da anestesia, das contrações no pé da barriga, da enfermeira grossa me sacolejando como um mamulengo. Aquele foi o momento mais longo da minha vida... emendei o choro das dores com o choro de emoção, quando ouvi seu primeiro ruidinho de choro. E vi aquele bebezão passando por mim, branquelo, imenso, enorme, rouco, chorando. Dei-lhe um beijinho, todo lambuzado de liq. Amniótico. Tirei uma foto. Inchados estávamos.

Emoções mil, descrições reduzidas, não sei o que falar, o que lembrar, vem tudo ao mesmo tempo. Dicotomia, pra que existe? Foi o momento mais doloroso e perfeito da minha vida... o mais sofrido e feliz, o mais difícil e sublime.

De lá até agora, não consigo não olhá-lo, ali no bercinho. Ou no meu colo, ou no banho, no carrinho, nos braços do pai.

Agora, falemos do pai.

É lindo vê-lo carregando no colo seu filho. Tem seus olhos, mas o nariz é meu... continuando, é lindo vê-lo trocando fraldas, levando jatos de caca e pipi na roupa, pondo para ninar, cantando para acalmá-lo. Apaixonei-me pelos dois intensamente...

Como previa, tenho que abortar a missão “verborragizar com intensitade”, meu pequeno príncipe acordou entoando seu chorinho mais gostoso, de fome e dengo.

Status: lembrar de falar sobre a amamentação, sobre os hormônios e sobre a ânsia de protagonismo.










Por M * 8:36 PM


Por sed non satiata * 1:43 AM

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[Terça-feira, Agosto 28, 2007]


Dá-me a tua mão: Vou agora te contar como entrei no inexpressivo que sempre foi a minha busca cega e secreta. De como entrei naquilo que existe entre o número um e o número dois, de como vi a linha de mistério e fogo, e que é linha sub-reptícia. Entre duas notas de música existe uma nota, entre dois fatos existe um fato, entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam existe um intervalo de espaço, existe um sentir que é entre o sentir - nos interstícios da matéria primordial está a linha de mistério e fogo que é a respiração do mundo, e a respiração contínua do mundo é aquilo que ouvimos e chamamos de silêncio.

(...Clarice Lispector)

Por M * 4:49 PM


Por sed non satiata * 1:42 AM

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[Quarta-feira, Agosto 22, 2007]


Joseph Arthur - Honey And The Moon

Don't know why I'm still afraid.
If you weren't real I would make you up now.
I wish that I could follow through.
I know that your love is true and deep as the sea.

But right now, everything you want is wrong.
And right now, all you dreams are waking up.
And right now, I wish I could follow you
To the shores of freedom
Where no one lives.

Remember when we first met
And everything was still a bet in love's game
You would call, I'd call you back
And then I'd leave a message on your answering machine


But right now, everything is turning blue.
And right now, the sun is trying to kill the moon.
And right now, I wish I could follow you
To the shores of freedom
Where no one lives.

Freedom. Run away tonight.
Freedom. Run away. Run away tonight.

We're made out of blood and rust
Looking for someone to trust without a fight .
I think that you came too soon;
You're the honey and the moon that lights up my
night.

But right now, everything you want is wrong.
And right now, all you dreams are waking up.
And right now, I wish I could follow you
To the shores of freedom
Where no one lives.

Freedom. Run away tonight.
Freedom. Run away. Run away tonight.

We got too much time to kill
Like pigeons on my windowsill we hang around.
Ever since I've been with you
You hold me up all the time I'm falling down

But right now, everything is turning blue.
And right now, the sun is trying to kill the moon.
And right now, I wish I could follow you
To the shores of freedom
Where no one lives.

Freedom. Run away tonight.
Freedom. Run away. Run away tonight.
Freedom. Run away. Run away tonight.


http://youtube.com/watch?v=cBst1dhdIHg


Por M * 12:33 AM


Por sed non satiata * 1:42 AM

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[Quinta-feira, Agosto 09, 2007]



Os dias de gravidinha-dodoi foram paradoxalmente deliciosos. Motivo? Marido carinhoso... tanto zelo, tanto cuidado, tanto carinho... Confesso que planejei me fazer de doentinha, quando me curasse, mas logo desisti. Seria uma malvadeza abusar daquele médico gostoso. Era um bom dia recheado de beijinhos pelo corpo, “minha pequenininha doentinha, bom dia”... era um despertar preocupado, em direção à cozinha, e na volta um café da manhã peralta com frutas, suco, queijo. Pastorava, para que eu não procrastinasse a alimentação. Cozinhava, almoço tão gostoso que simulei uma cultura onde os homens cuidavam da cozinha e as mulheres das outras tarefas. Me ninava, e eu dormia à tarde tão serena que todas as dores sumiam. Sem falar nos trocadilhos marotos, “amor, me dá injeção???” “shoo, ta na hora de verificar a temperatura, cadê seu termômetro?” “não não, mede-se a temperatura colocando o termômetro na boca... errr...” Já estou mal acostumada, assumo, assumo! Mimada e mais manhosa do que quando era solteira, e agora???

Morremos um pouco antes de morrer por completo: nas tristezas, nas quedas, nas decepções, nos caminhos do coração que evitamos repassar por perto por termos nos machucado, em muitas coisas.

Hoje morri um pouquinho só por ser tão boba, tão babona e tão boboca. (e tão apaixonada...) Nada que remeta a crises, mas sim a uma gripe forte que possuiu meu médico gostoso, justo agora. Já estou bem de saúde, mas senti dor... Doeu bastante ver a coisa mais preciosa e gostosa do mundo ardendo em febre, debaixo do lençol. Manhoso, balbuciando gemidos infantis, de dor, de frio, de nariz congestionado. Uma expressão dengosa no seu rosto, e me derreti de primeira. Lá fui eu preparar salada de frutas, suco de laranja, copos e mais copos d’água, ligações para a farmácia mais próxima e muitos beijinhos na testa. Mesmo exausta, mesmo com uma ressaca-pós-hospital. Pensei: “ow, logo agora que estava tão gostoso ser paciente...”

Casar é gostoso, casar é gostoso, La La ri La Ra! Acordar com aquele cheirinho de sono, rosto inchado, olheiras, cabelo desarrumado, e mesmo assim receber um sorriso lindo e beijos, e carinho... Receber bronca (ao invés de dar, ai que vergoínhazinha!) por deixar a toalha na cama, confundir as escovas de dentes, bolo na janela esfriando, brinquedos futuros pelo chão (calcinhas e cuecas, por ora), lista de compras com início "nescau, farinha láctea e neston...."... Confesso que foi gostoso cuidar do meu doentinho. Mesmo assim, uma paúra, uma dor no peito por ver meu gotosinho ali com dor e tristinho, encolhido na cama, em posição fetal, só de cueca (reclamando de frio, e eu digo: não é à toa, vá se vestir, danado!), chamando “shooooo”, pedindo colo, roubando meus travesseiros e o lençol todo pra ele. Dava uma vontade de apertar as bochechas, de encher de beijos, de tirar-lhe o que restava de roupa e...

Estou aqui, com dois palitos de fósforo nos olhos, tentando ficar o mais saudável e disposta possível, só para que eu possa cuidar do meu amor, só para que eu possa sentir sua febre no meu colo, sua tosse no meu ouvido e seu gemido manhoso em sinfonia, pelo quarto. Ao mesmo tempo, preocupada e aborrecida. La foi ele para a aula, la vai ele depois para o Budda... parece mais uma criança teimosa. O que posso fazer? É o sucesso dele que está lá, são os anseios, é o esforço, os planos, a música. Uma esposa apaixonada e uma reza: “meu Deus, ajuda ele para que tudo dê certo, e de quebra faz ele melhorar do dodói... ah, e deixa Ícaro demorar um pouquinho mais pra nascer, as lembrancinhas ainda não ficaram prontas, o licor está em falta na loja e a malinha ainda não foi totalmente arrumada. Amém”


Por M * 8:54 PM


Por sed non satiata * 1:41 AM

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[Quarta-feira, Agosto 08, 2007]


Não há mal que vença o bem. Não há feitiço, bruxaria, magia, inveja ou agonia. Tente tudo isso, caso queira. Se você se diverte assim. Mas a realidade não se limita a abracadabra e ocus pocus. O que tem que nascer nasce. Quem tem que amar ama, quem é feliz apenas é. Mesmo que não esteja em seus planos. A hora e a vez, minha estirpe vingará.

No aforismo 34 da obra Crepúsculo dos Ídolos “Incursões de um extemporâneo”, Nietzsche afirma que todo aquele que exige justiça com ar de indignação é alguém que só percebe a própria dor e sofrimento como algo trazido “de fora” por outro. Esse individuo é incapaz de notar que seu sofrimento vem do seu próprio instinto de vida enfraquecido e da sua incapacidade de criar algo afirmativo. Recrimina-se por não poder criar; cultiva o sentimento de raiva em relação àquele que cria e reage contra tudo diferente de si. Afirma a própria indignação, negando sua condição ressentida. Para Nietzsche, esse modo de pensar é fruto de uma educação niveladora e imbecilizante que ensina os indivíduos a serem meros “animais de rebanho”, desprovidos de singularidade. Em outras palavras, um fraco. Ora, quem é fraco precisa de um apoio: no caso, de um culpado. Para Nietzsche, a fraqueza está no anseio de vingança, pois alguém sempre tem de ser o culpado pelo meu sofrer. De acordo com o filósofo, esse sofredor “prescreve o mel da vingança para seu sofrimento”.

A justiça que muita gente clama é fruto de ressentimento: reagimos a tudo que nos inflige alguma dor. A vingança é apenas um modo apequenado de “ação”. Uma fraqueza com ares de força. É raro ouvir clamores que apontem para a necessidade de analisar as causas produtoras de tamanha crueldade e indiferença. O que se vê não é uma crítica da estrutura e organização social, econômica, política ou bla bla bla, mas a expressão de sentimento de vingança.

Diria Nietzsche: “o verme se encolhe ao ser pisado. Com isso mostra inteligência. Diminui a probabilidade de ser novamente pisado. Na linguagem da moral: humildade.” Assim, a suposta inocência e humildade de certas pessoas não parece tão simples e ingênua: o verme, encolhendo-se, quase fica inatingível àquilo que tenta eliminá-lo. Ao se fechar não trava contato com nada nem com ninguém. Isso não significa, todavia, que compreende a si mesmo: o individuo, cobrindo-se com a dor que lhe foi aplicada, abraça seu sofrimento... e reage.

Mudando de assunto (ou não), recebi alta pela segunda vez.



-




Sobre o chá de bebê, em 29 de julho


Recebi alta e quase que em seguida corri para lá arrumar tudo. Passara semanas, longas semanas providenciando trilhas nostálgicas, fotos reminiscentes, sentimentos pueris que possuí e que gostaria que Ícaro conhecesse. Cheia de dor, disfarcei, só para que meus planos se concretizassem. Depois quase me arrependi, precisei me internar de novo, e pior do que estava antes... foram 8 dias chatissimos no hospital.

Voltando ao chá.

em suma, impressões de uma amiga querida, em suas palavras:

"Foi tudo muito lindo: Detalhes singelos q falavam coisas lindas, as imagens da nossa infância, lembrando que vale à pena criar nossos filhos como antigamente, quando tudo era mais saudável e coca-cola era só em tempos de festinhas.

Um varal de emoções estendido no local que despertou estes nascimentos q estão se fazendo por hora...

- Belo, bravo!

As canções, escorregando entre uma infância e outra, os docinhos, escorregando pelas nossas ex-línguas azuis de pirulitos, de traquinagens...

A energia infantil, as crianças q nos dão esperança da continuação do mundo, os depoimentos de vidas que ouvi, opinei e levei comigo, as vestes coloridas e negras de mulheres mil, porém um sonho só: mãe.

Sua mãe, ansiosa pelo q já existe: a felicidade nos braços dela, aos olhos dela, querendo seu ninar...

O sorriso do Glay, tão leve, tão feliz...

Você, tão preciosa, em todas as suas cores, nas cores das jujubas (acho q eram jujubas) que confeitavam o 1º de tantos bolos dedicados a esta nova família, a este pequeno príncipe..."




não sabem como é aconchegante ler isso, ou ouvir de alguém que tenha gostado da festinha. É reconfortante, depois do sacrifício que foi preparar tudo, imaginem a dor que eu senti... valeu à pena ter fingido estar bem, gostei de ter visto quem foi, gostei da energia boa, gostei de não estar na cama de hospital, desapontada por ter cancelado o chá. Depois precisei voltar às agulhas, mas com a sensação de missão cumprida...


Por M * 11:15 PM


Por sed non satiata * 1:39 AM

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[Sexta-feira, Julho 20, 2007]


ANTES DE SER MÃE



Antes de ser mãe, eu fazia e comia
os alimentos ainda quentes.
Eu não tinha roupas manchadas,
tinha calmas conversas ao telefone.
Antes de ser mãe, eu dormia o quanto eu queria,
Nunca me preocupava com a hora de ir para a cama.
Eu não me esquecia de escovar os cabelos e os dentes



Antes de ser mãe,
eu limpava minha casa todo dia.
Eu não tropeçava em brinquedos e
nem pensava em canções de ninar.
Antes de ser mãe, eu não me preocupava:
Se minhas plantas eram venenosas ou não.
Imunizações e vacinas então,
eram coisas em que eu não pensava.






Antes de ser mãe,
ninguém vomitou e nem fez xixi em mim,
Nem me beliscou sem nenhum cuidado,
com dedinhos de unhas finas.
Antes de ser mãe,
eu tinha controle sobre a minha mente,
Meus pensamentos, meu corpo e meus sentimentos,
e dormia a noite toda.





Antes de ser mãe,eu nunca tive que
segurar uma criança chorando,
para que médicos pudessem fazer testes
ou aplicar injeções.
Eu nunca chorei olhando pequeninos
olhos que choravam.
Nunca fiquei gloriosamente feliz
com uma simples risadinha.
Nem fiquei sentada horas e horas
olhando um bebê dormindo.



Antes de ser mãe, eu nunca segurei uma criança,
só por não querer afastar meu corpo do dela.
Eu nunca senti meu coração se despedaçar,
quando não pude estancar uma dor.
Nunca imaginei que uma coisinha tão pequenina,
pudesse mudar tanto a minha vida e
que pudesse amar alguém tanto assim.
E não sabia que eu adoraria ser mãe.





Antes de ser mãe, eu não conhecia a sensação,
de ter meu coração fora do meu próprio corpo.
Não conhecia a felicidade de
alimentar um bebê faminto.
Não conhecia esse laço que existe
entre a mãe e a sua criança.
E não imaginava que algo tão pequenino,
pudesse fazer-me sentir tão importante.





Antes de ser mãe, eu nunca me levantei
à noite toda , cada 10 minutos, para me
certificar de que tudo estava bem.
Nunca pude imaginar o calor, a alegria, o amor,
a dor e a satisfação de ser uma mãe.
Eu não sabia que era capaz de ter
sentimentos tão fortes.
Por tudo e, apesar de tudo, obrigada Deus,
Por eu ser agora um alguém tão frágil
e tão forte ao mesmo tempo.
Obrigada meu Deus, por permitir-me ser Mãe!

Por M * 11:45 PM


Por sed non satiata * 1:38 AM

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11 maneiras de descobrir se você é MALA!!! (email que recebi... depois de ler, concluí: ou eu sou MUITO mala - e todos à minha volta... - , ou esse texto é malvado. pronto, falei.)


**** Se você se encaixa em alguns desses itens, você é MALA :

1. Almoço em grupo. Mesa retangular. Um de seus colegas, o Fulano, se senta numa das pontas da mesa. A primeira coisa que você diz é: "O Fulano vai pagar a conta!".
Você é um MALA .

2. Início da madrugada. 1h16 a.m. Alguém lhe diz: "cara, amanhã vou acordar às 7h". Você se apressa em dizer:" Amanhã não. Hoje!".
Você é um MALA .

3. Quando você convida alguém para almoçar e esse alguém lhe esclarece que já almoçou. E você solta a frase: "Então você já está comido?".
Você é um MALA.

4. Ou pior, o seu amigo chega atrasado no serviço e diz sorrindo: "Bom >dia!!!" e você responde: "Boa tarde !!!". Você é um MALA .

5. Quando as pessoas estão cantando parabéns, você tenta embolar a cantoria, gritando os versos do início da música, enquanto todos já estão no meio da canção. Além de manezão! Você é um MALA.

6. Você fica rindo quando um homem diz que tem 24 anos, aludindo ao número do veado no jogo do bicho.
Você é um MALA .

7. Você faz alguma piada quando alguém diz que é do signo de virgem.
Vai ser MALA assim na casa do...

8. Você diz para um amigo: "Se esconde !!!" quando passa o carro da polícia.
Você é um MALA .

9. Quando uma mulher diz que está "de saco cheio", você diz que isso não é possível porque ela não tem saco. Precisa dizer de novo ? Seu MALA!

10. Se a anfitriã anuncia: "Temos pavê de sobremesa" e você pergunta: "é pra vê ou pra comer?
Além de xarope, como você é MALA !!!

11. Se você tiver medo de mandar este texto para seu amigo, aquele que se enquadra num montão destas possíveis situações, não só ele, mas você também!
Aê MALA !!!


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jsoidksdfposdk´pogkl´fd ai ai

Por M * 9:34 PM


Por sed non satiata * 1:38 AM

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[Terça-feira, Julho 17, 2007]

Eu tenho uma espécie de dever.
Dever de sonhar...Sonhar sempre!
Por me sentir espectadora de mim mesma
eu busco ter o melhor espetáculo que posso.
E assim, me imagino em estúdios supostos,
invento palco e cenário para viver o meu sonho,
e fazer uma flor brotar do impossível chao.

!Marisa Carnicelli!

*

Renda-se,como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei.
Não se preocupe em "entender"
Viver ultrapassa todo entendimento.

!Clarice Lispector!

Por M * 9:47 PM


Por sed non satiata * 1:37 AM

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Seis da manhã. Pela centésima vez me levanto para o frustrado “pipi”, três gotas que mais parecem 2L de água na minha bexiguinha de grávida. Goles gostosos na água gelada - copázio vermelho, de acrílico: é mais gostoso que beber em copo de vidro - em cima da cabeceira, rente à cama. A próxima missão é: após a missão pipi magoado, conseguir voltar ao auge do sono, depois desse despertar nada simpático.

(...) - uma pausa. Ao fundo, o zumbido do vento, passando pela janela. Coisas de quem mora em apartamento (
é boooooom).

Ah, as queixas de uma grávida jovem são variadas...! não se trata apenas de pipi magoado, de acordar cem vezes de madrugada, de dores nos quadris, por ser pequena e ter que suportar muitos - muitos mesmo - quilos a mais, enquanto durmo. Vem a azia, a gula, os pés e pernas inchados, lingerie de número maior, rosto redondo, roupas folgadas (que já não agüento mais olhar e vestir...), dificuldade para me depilar e para fazer a manicure, sono fora de hora, insônia também fora de hora, desejos sexuais fora de hora... (rindo), enfim, clichês e sintomas gravídísticos* dos quais não posso fugir, ninguém pode, são os pedaços do fardo que carrego... (momento drama mexicano)...

Exageros à parte, a palavra de hoje é: tudovaleuàpena.

Tudo valeu à pena. É muito pouco esse pacote completo de ser e estar grávida. Os nove meses são longos, mais para quem gera do que para quem está observando. É mais penoso para mim do que para uma pessoa conhecida, que acompanha minha gravidez. Só que esse “ser penoso” mesmo assim, no fim do percurso, se mostra pequeno. Em três tempos: o começo, o meio, o fim. No começo tudo é novidade, tudo ainda é transparente, não tem forma e nem tamanho. Começam os planos, tão pequenos quanto o embrião. No meio, já existe uma “borracha de duas cores”: tem a azul, ingênua azul, referente ainda ao começo; e tem a vermelha, penosa vermelha, referente ao meio e ao fim. Muitas transformações, sociais, físicas e psicológicas. - Como todos sabem, a borracha de duas cores não apaga nada direito...! e realmente é uma experiência de três tempos INESQUECÍVEL.

Tudo valeu à pena. É enfadonho, depois de nove meses, ouvir sempre e repetidas vezes as mesmas frases da literatura gravidística - enjoou muito? Você inchou? Ganhou muito peso? Ele chuta muito? Tem certeza que aí dentro só tem um bebê (seguido de risinhos super solitários, a piada é muito sem graça, acreditem)? Eita, engoliu uma melancia? Tem desejos? Você prefere normal ou cesárea? Pesa? Dói? Fede? Faz barulho? Pisca? Já teve estrias? Quem é sua médica? É menino ou menina? Qual o nome? E isso, e aquilo? -, por mais “sem maldade” que seja. É claro que isso tudo acontece, é involuntário inclusive. Faz parte do interesse de todos ao meu redor, de todos ao redor de uma grávida. É a demonstração de que sentem interesse, de que estão empolgados com isso, de que querem saber o possível, para compensar a espera. É compreensível, não há como chegar para uma grávida e não perguntar tudo isso, ou não imaginar como será o bebê, ou tentar fazer parte da rotina dela. Gostei de receber tanto carinho e tanta atenção durante esse tempo todo. Mas admito que não quero repetir a dose tão cedo... é enfadonho (já disse isso antes?)!

Tudo valeu à pena. “eu tenho o rei na barriga”. Talvez não seja exatamente um rei, mas tenho certeza que aqui carrego um grande e lindo príncipe. Como aprendemos em aulas de ciências, o útero da mãe protege o bebê de tudo, é resistente, tem espaço suficiente para que o pimpolho cresça. Blá blá blá! E assim o protejo de tudo, de pessoas ruins, de ventos fortes e frios, de calor... bah, de tudo. O que ninguém sabe é que o oposto também acontece: ele me protege. “não grite com ela, está grávida, não vê?”; “ei, carregue isso pra sua esposa.. ela não pode pegar coisas pesadas”; “pode passar na frente, senhora”; “lhe fiz um doce, o bebê vai gostar!”; “sente-se aqui, senhora”; “não precisa se levantar, amor. Eu faço o almoço hoje.”; “não, não se preocupe que lavarei a louça”. “tudo bem, pode me entregar os exercícios na próxima semana, você deve se cansar muito.”; “se quiser fazer a prova em casa, tudo bem...” (...) eis a parte gostosa de ser e estar grávida: MIMOS!!!!!!!!!!! Massagens antes de dormir, ao acordar, comidas gostosas, filmes na cama, procrastinação de atividades, dormir na hora que quiser, caronas, amor e muito carinho. Muito amor e muito carinho, muito amor e muito carinho...


... é por isso que digo: tudo valeu à pena. As amizades, o maridão, os sogros, os pais, as famílias, as balconistas de lojas etc.

Não paro por aqui: valeu à pena mais do que isso...

Morri de comer, “por dois” (como diriam na literatura gravidística), ganhei muito peso, mas valeu à pena ver o bebê saudável na ultrassonografia.

Obviamente precisei deixar o gostoso hábito de bebericar e fumar, e obviamente valeu à pena saber que vou parir um bebê saudável...

Tive anemia, fui obrigada a tomar remédios chatinhos, mas valeu à pena ter sangue suficiente para parir.

Precisei perder algumas regalias festivas, mas valeu à pena saber que o bebê não teve traumas.

Fui obrigada a - futilmente - passar longe da moda finalmente bonitinha. Tive que virar o rosto ao passar por lindas vitrines, tudo para que minha vida se limitasse a uma legging mixuruca e uma variedade de cores e estampas, em batas. Tive que abandonar no fundo do armário todas as sandálias de salto, tive que assumir meu posto de “pequenininha”, usando rasteirinhas... (a coisa boa desse detalhe é ouvir em tons carinhosos o maridão falar: “minha pequenininha...”), tive que ganhar um tom de pele amarelo, para evitar o sol e no fim não ficar com a pele manchada. Mas valeu à pena.

Fui obrigada a dormir muito mal, acordando mil vezes para pipi, mas valeu à pena... sempre na volta do banheiro, faço bico e recebo um denguinho do maridinho lindo.

Agora estou no oitavo mês, é provável que eu espere ainda umas 3 semanas para que ele nasça... no mínimo. Enquanto isso, protagoniza a ansiedade, em forma de comidas, líquido, cama, filmes, sexo, mil livros: me distraio como posso.

Concluo que o “valer à pena” se resume em mérito: o mérito de ser mãe surge com os sacrifícios...me orgulho de ter suportado tudo, juro.

(agora eu entendo a frase – mais velha que Dercy Gonçalves – que toda mamãe dramática e apelativa usa: “oras, carreguei você no colo por 9 meses, e você me faz isso!” Realmente, agora eu entendo o peso da frase - glup.)

Valer à pena:

1) Passar horas em pé na frente do fogão esperando o leite com açúcar e suco de laranja virar doce de leite, e no final comer quase tendo um orgasmo, de tão gostoso
2) Sentir as dores da depilação, para depois receber elogios do marido/namorado/parceiro
3) Ficar horas na fila da sua loja preferida, em dia de liquidação, para comprar aquela blusa que você desejou o mês inteiro e não podia comprar
4) Passar a madrugada em claro lendo a matéria mais chata do mundo, para depois receber uma nota 10 no fim do semestre
5) Pagar caro pela “recauchutagem” no salão de beleza, e depois adorar o resultado final
6) Ficar horas em claro zelando o bercinho do filho. Vale à pena ao ver aquele soninho sereno, aquele corpinho pequeno, os dedinhos minúsculos, as roupinhas delicadas...
7) Trocar fraldas fedorentas. Depois sempre há um bebê cheiroso e limpinho...
8) Gastar horas na academia, para depois, ao olhar no espelho, gostar do resultado
9) Renegar sobremesas, para não engordar
10) Agüentar aquele parente ou amigo chato, para que o relacionamento não desande
11) Ficar uma tarde inteira na fila de banco, para no fim receber o dinheirinho suado
12) Finalmente, encarnar a mulher grávida, para depois de 9 meses nascer um príncipe, pequeno, lindo, cheiroso, mimoso, delicado, impoluto, frágil etc..., olhar nos seus olhinhos, ouvir seu choro, sentir sua pele e dizer: veio de dentro de mim, eu quem fiz, é meu, é meu complemento, tem meu sangue, tem meu nariz, será meu menino pelo resto da vida...


“Valer à pena” possui tantos mistérios. Sempre precedem os sacrifícios, muitos, dolorosos, intensos. Em tudo. Mas a recompensa é SEMPRE gratificante. Mesmo que seja uma moeda de 10 centavos, ou um palito de fósforo. Não importa o tamanho do resultado, mas o valor...


"Você ganha forças, coragem e confiança a cada experiência em que você enfrenta o medo. Você tem que fazer exatamente aquilo que acha que não consegue."

Eleanor Roosevelt




*neologismo maroto


*** dicas do dia:

- http://www.imdb.com/title/tt0354899 (em homenagem à siiiiiiiiiilvia aosidkjosdkpso)
- doce de milho verde (djilicia)
- sexo com chocolate (errrr)
- cd de kings of convenience
- suco de tangerina
- "cem sonetos de amor", de neruda


ah, esqueci de uma coisa: fui obrigada a tomar vacina antitetânica hoje. ai meu bracinho... (dando ênfase ao dengo, na frente de shoo. nher nher nher)

Por M * 9:29 PM


Por sed non satiata * 1:37 AM

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[Sábado, Julho 14, 2007]


Quero apenas cinco coisas….
Primeiro o amor sem fim….
A segunda ver o outono….
A terceira o grave inverno….
Em quarto lugar o verão…..
A quinta coisa são teus olhos….
Não quero dormir sem teus olhos.
Não quero ser… sem que me olhes.
Abro mão da primavera para que
continues me olhando.

PABLO NERUDA



Por M * 5:28 PM


Por sed non satiata * 1:36 AM

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[Quinta-feira, Julho 12, 2007]


Domingo, Julho 08, 2007


O querido diário foi deletado, restaram os textos de outrem. Uma fase sem verborragia será boa, enjoei de dedilhar o teclado. Peço desculpas se o que eu escrevia entretia alguém, mas eu pelo menos nunca cheguei a reler algum escrito, então aquilo foi se tornando grande, foi perdendo o controle, foi expondo tanto, resolvi dar um tempinho... depois de digitar essas reticências me arrependi. Depois desse ponto final, voltei a me sentir segura: vai ser bom parar com a verborragia. Felicidade, prazer, gozos, tudo isso continua de vento em polpa, mas fora do computador. Confesso até que não era saudável meu hábito, apesar de gostoso (às vezes uma coisa gostosa faz mal, tipo coca-cola). Era uma privacidade não só minha, mas também de personagens da minha vida, e eu fui expondo sem as rédeas da censura. Prazeroso era escrever tudo aquilo, a felicidade me tomava de uma forma que eu só conseguia enxergar o resultado final: querido diário, organizado, bonitinho, datado. Salvei tudo em um blog improvisado, quiçá eu volte a postar tudo. Por ora fica guardado só pra mim, quero ver como será a experiência de "ser feliz em silêncio". Talvez seja até melhor, bem melhor do que falar tudo. Era uma coisa meio boba, mas ao mesmo tempo gostosa. enfim, se alguem gostava de ler, repito: se entretia alguém, peço compreensão.

Convenhamos, é um vício tão singelo que cresce despercebido entre as palavras, me imaginei daqui a um ano, tendo escrito muita coisa: exposição desnecessária, pois a internet é tão... digamos, aberta! Talvez eu não gostasse de algum leitor. Talvez eu não soubesse exatamente quantas pessoas estavam lendo minha vida, ou vivenciando minhas experiências. Eu sabia de algumas, e até me agradava a idéia, eram pessoas queridas. Mas pensei na hipótese de pessoas estranhas lerem meus relatos, de pessoas indesejáveis, negativas etc. Talvez eu quisesse um pouco mais de limitação, ou talvez eu precisasse de um pouco de ar puro... muita gente nasceu nesse mundo para sentar numa cadeira, com um binóculo virtual, buscando em orkut, fotolog, msn e derivados cibernéticos informações alheias, por pura satisfação superficial ou sei lá o que... é chato, eu evito fazer isso e me incomodo quando sou observada (por desconhecidos). Para essas pessoas, uma pergunta: e daí que eu existo? pra quê você me procura, anonimamente? (direcionando a pergunta apenas a desconhecidos, ok?)


antes que eu escreva mais e mais e mais, me faço despedida:

fiquem bem! prometo estar também (é quase eterna a felicidade, como na época em que usei isso aqui para diário)!

kika




Retorno ao querido diário, à verborragia monótona, holística e paradoxalmente original. Não há como me desvencilhar das letrinhas do computador, do papel e da caneta, da leitura e de uma boa dose de egocentrismo. Me comprometi a ler tudo daqui a uns meses, a relembrar, a rememorar meus escritos (coisa que nunca fiz, o que tornava minha verborragia cansativa com o passar do tempo). Pensei que seria interessante, daqui a um ano ou mais, relembrar o comecinho de uma gravidez, de um casamento, de um leque de vidas e amoras... dou-me as boas vindas!!!

Por M * 10:32 PM


Por sed non satiata * 1:36 AM

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(julho de 2007)


céu grisalho, brisa gelada, um bocejo e 7 horas no relógio da cabeceira. olhei para o lado e não vi aquele corpo grande e quentinho - adormecido -, olhei para o outro e percebi o som do chuveiro. lembrei: é segunda-feira, certa vez li que os adultos trabalham...

É bem verdade, depois de um fim de semana ocioso sempre vem a segunda-feira malcriada. meus olhos, como ainda pesavam, voltaram a fechar... em poucos segundos eu já dormia novamente. acordei dez minutos depois com um beijinho de hortelã, bom dia shoozinha, te amo...

cabelo penteado, a barba feita, calça jeans, camisa, tênis, empacotado todo como não costumo ver dentro de casa. o cheirinho gostoso do seu desodorante me despertou, o corpo já-não-quente me fez arrepios, acho que ícaro começou a ter solucinhos, o danado!

um punhado de carinhos - eu bem que dou corda, faço-me bem manhosa para que se prolongue o tempo de mimos... - antes de sair, e senti queimar meu coraçãozinho da forma mais gostosa que existe. ai, como amo esse adulto-que-trabalha-tão-na-hora-em-que-quero-muito-dengo!!!!

ouvindo Her Space Holiday - Tech Romance

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Por M * 10:28 PM


Por sed non satiata * 1:34 AM

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(junho de 2007)



Hoje, assistindo ao café filosófico - reprise -, me reconheci nas imagens... e não é que apareci na TV? hehhehehe...de cabeça baixa, escrevendo o que ouvia. Bons tempos... senti saudades e saí correndo pra procurar na estante meu caderninho de anotações do café. Li, reli, devorei tudo.

...com aquela estranha sensação de que sempre a época quando vista para trás (como passado) é mais gostosa do que vista no tempo presente, como uma nostalgia de outrora, coisas desse tipo... aí parei pra pensar. Hoje sou tão feliz, tantas coisas boas, tudo em estado homogêneo. Já pensou como olharei para o passado (no caso o tempo presente), daqui a um tempo? Será uma nostalgia mais gostosa ainda!


Enfim, não obstante o tédio ainda teima em me fazer companhia. um bebê no ventre nos presenteia sempre com contradições, dicotomias, pudores e alegrias. entre os planos, os mimos, o amor, o gozo, há sempre uma caneca de tédio, que me deixa castrada das coisas - um tanto mundanas - divertidas (em se tratando de perdição kkkkk). enquanto as luzes e os sons se diversificam lá fora, eu fico na minha caminha, na companhia de meus livros, esperando pacientemente que só esses dois meses que restam da gestação passem rápido. que ícaro nasça, que eu volte a pinotar, a fazer tudo que gosto - mesclando com a nova vida -, enfim.

Por M * 10:28 PM


Por sed non satiata * 1:34 AM

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(19 de junho de 2007)


Um novo brinquedo que surgiu de um brinquedo velho. De repente vasculhei antigos guardados e encontrei papiros de outrora, encontrei o que antes eu chamaria de *livro*, escrito por mim em meados de 2004. Época cor de rosa, início do curso de Letras e nascimento da minha mania de ler vários livros ao mesmo tempo. Me meti a escrever, e aquilo para mim, naquele momento, era tão satisfatório quanto fumar um cigarro depois do sexo, ou beber um cappuccino ao acordar. Eu me alegrava em pensar: *tantas palavras saindo dos meus dedos...*, não importava se eram interessantes ou não. Eu estava experimentando a sensação de escrever, e imaginava puxa, será isso que sentem os grandes autores, na frente do teclado, dedilhando suas palavras?

Apesar da verborragia pobre, confesso que me diverti deveras naquela experiência de caloura encantada com a literatura. Não sou cara de pau, assumo que pincelei minha criatividade com José de Alencar, Jostein Gaarder, e por aí vai. Quase um plágio barato. Cheguei a beirar o pieguismo, a breguice, ou sei lá o que. Hoje dei muitas risadas do que escrevi, mas não tenho vergonha. Talvez - eu disse talvez - eu tenha amadurecido, quem sabe hoje em dia eu teria escrito tudo diferente, quiçá nem escrito eu teria....

O que importa é que bom ou ruim, descobri esse novo brinquedo em velhas brincadeiras. Resta uma releitura, uma xícara de café e uns biscoitinhos. Estes últimos, Ícaro agradece...

[ http://www.aspetalasdeclaire.blogger.com.br ]




Por M * 10:27 PM


Por sed non satiata * 1:34 AM

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(12 de junho de 2007)


O dia amanheceu grisalho, nuvens densas coloriam o céu de cinza. A brisa gelada envolvia os corpos quentes, adormecidos de um sono gostoso da noite anterior. Como de costume, os corpos dormiam em conchinha. O ronco delicado dele embalava meu sono gostoso, e sua respiração quente aquecia minha nuca. Nove da manhã no relógio da cabeceira, e um sussurro: amor, te amo, acorda... - respondi com um gemido sonolento. E mais uma vez, em tom de insistência: amor, parabéns, bom dia... - e devolvi com mais um gemido manhoso. Era dia dos namorados, enfim!!!

Com esforços perceptíveis, em virtude da barriga já crescente de 7 meses, me virei na cama e me pus de frente para ele, ainda na horizontal. Suas mãos percorriam meu corpo, n'um carinho gostoso, dando bom dia a cada célula da epiderme adormecida. Quão gostosas são suas mãos...! Pesam e ao mesmo tempo flutuam, deslizam. Arrepiam. Meus olhos, semicerrados, miraram suas belezas azuis, que me olhavam. Um sorrisinho gostoso lhe veio à face, e acompanhando sorri também. Te amo... - falei.

Beijei-lhe a boca, ainda com gosto de sonhos, e abracei-o forte. Seu corpo nu roçava no meu, e achei graça quando me lembrei daquela historinha, que diz que o homem acorda aceso... e não é mesmo?

É delicioso seu abraço, seu carinho, seu jeito amável escondido debaixo dos lençóis.
Um banho, e então o passeio. Fomos almoçar.

Presentes, e uma carta. dois livros, ojuara e minhas putas tristes. Um corte e uma tonalização. E repito: uma carta. simples, em papel branco, cheiroso, letras negras e verborragia que jamais imaginei receber de meu homem, aquele que manja a música, manja o sexo, manja os risos, manja tanta coisa, e vejam só: manja a verborragia!
*
*
*
*

De shoo, para mim

[Aspas]


- O início

No princípio um improvável encontro se deu em uma noite mágica no palco recente de nossas vidas, seus olhos negros se juntaram aos meus como que se esperássemos esse momento a vida toda, e foi com um beijo roubado junto ao pedido safado que iniciamos nossa linda historia de amor.

Nada que nasce para ser eterno é fácil de juntar, estávamos tão perto e sempre tão longe um do outro, precisávamos da ajuda do destino que caprichosamente nos fez enxergar um novo caminho. Antigos relacionamentos foram desfeitos com a força desse amor, que aos poucos se tornava forte e quente como uma tocha que queima até no frio mais intenso. Percebíamos então que éramos feitos um pra outro e não conseguíamos mais ficar longe, porém a vida nos ensinou a ter paciência mesmo nas horas que era tão difícil ficar só. Tivemos então que fazer novas regras nesse jogo tão gostoso de amar, foram tardes inesquecíveis, seu corpo junto ao meu, beijos, caricias e um gosto doce do desejo em nossos lábios. Assumimos nosso amor para todos e para tudo, éramos livres e sem empecilhos para amar e amar e amar... , e a cada dia mais esse amor era motivo de comemoração e disputa para saber quem sabia mais sobre essa história recente de magia, sedução, carinho e do então desejado: verdadeiro amor.

Logo após alguns meses que pareciam mais alguns anos de tanta intimidade e respeito, nosso amor nos pregou uma peça que sem dúvida foi mais uma grande obra do destino, que certa vez nos unirá. Uma semente estava germinando dentro de nossa relação, sabíamos que era muito cedo para tal compromisso, mas sentíamos que essa semente traria consigo toda união e paz que sempre sonhávamos.

Foram dias difíceis antes de comunicar a nossas famílias sobre a boa nova que estava por vir, apesar de sermos adultos, sempre estivemos sobre as asas de nossos pais e um desafio como esse era encarado por todos como um grande problema. Portanto, a noticia foi dada e para nosso espanto recebida com muita alegria por todos, nossas vidas iriam se fundir completamente, pois estava marcado a data do nosso casamento e os preparativos estavam apenas começando.


- Casamento

Nossos dias de tranqüilidade haviam acabado, agora tínhamos que nos dedicar na organização de nosso matrimônio, havia pouco tempo e muita coisa a se fazer. Estávamos sempre juntos, em qualquer decisão, em qualquer planejamento ou escolha, aprendemos muito um com outro sobre nossas preferências e foi muito bom também discordar e ficar de cara amarrada quando não se era atendido. Nosso apartamento também foi sendo montado e com cada objeto novo comprado havia um sonho de estar junto pra sempre.

Enfim a data tão esperada chegou, todos convidados, tudo arrumado para uma celebração única de um amor difícil de achar nos nossos dias. Foi uma noite eterna em minha vida, seu rosto brilhava com um sol na aurora mais cintilante do amanhecer, e seus olhos agora com mais cores faziam minha pele tremer de tanta emoção, éramos agora um, um, apenas um.

Nosso lar e nossa cama estavam prontos para nos receber e nós mais ainda para selarmos um acordo de carinho e amor.
Estou vivendo essa historia de conto de fada a cada dia de minha vida ao seu lado shoozinha, tenho certeza que vou escrever longos capítulos desse nosso amor.
Por fim, um certo menino chamado Ícaro que nos faz sonhar e sorrir a cada minuto está muito perto de chegar e com certeza terá o capítulo mais especial desse nosso livro.

Te amo !!!! Feliz dia dos namorados.

"Não é só de beijos que se prova o amor".

"Ela é que ensina as tochas a brilhar,
e no rosto da noite tem um ar
de jóia rara em rosto de carvão.
É riqueza demais pro mundo vão.
Como entre corvos, pomba alva e bela,
entre as amigas fica essa donzela.
Depois da dança, encontro o seu lugar,
pra co´a mão dela a minha abençoar.
Já amei antes? Não tenho certeza.
Pois nunca havia eu visto tal beleza".


Romeu e Julieta - Ato 01, Cena 05 05
William Shakespeare


[Aspas]


*
*
*
*


A sobremesa comemos em casa. Sorvete tão gostoso...
Dois DVDs insinuantes, tanto tesão...para ser sincera, eram mais comédia do que erotismo. Mas mesmo assim, sugeriram algo. Corpos nus, a chuva continuava a cair e alguns respingos na fresta da janela molhavam nossa pele. Misturavam-se o molhado da chuva com o molhado de dentro, mãos desvendavam pernas, braços, membros, texturas. De cima a baixo, de fora a dentro. Seus dedos descobriam de onde vinha meu mel, e penetrava o segredo com ritmos alternados, sussurros e gemidos, desejando algo mais. Para início, um orgasmo ali, em seus dedos. Ele me acompanhou com um gostoso, na minha mão. Sem fôlego, me esparramei na cama, com o corpo todo quente ainda da explosão. Aquilo só o atiçara, pedindo-me mais atrito. E então me ergui. Apesar do peso da barriga, foi gostoso vê-lo em volúpia, por baixo de mim. Suas mãos me guiavam o corpo, para cima e para baixo, e não demorou muito para gozarmos juntos. Deitei por cima do seu corpo, seus pêlos me roçavam o rosto. Seu peito queimava, palpitava. Adormecemos uma meia hora, mas logo em seguida já continuávamos a assistir aos filmes. Quando me dei conta, seu dedo gostoso penetrava aquele lugar que provoca tanto fetiche nos homens, e tanto mistério para mim. Nesses nove meses de convívio, descobri que aquele lugar também provoca orgasmos. Sim, estou falando de orgasmo anal. Existe sim, e um fulminante me paralisou o corpo. Ali, em seu dedo, e confesso que depois senti vergonha, talvez o resto do condomínio tenha ouvido meus gritos. Junto ao meu gozo, outra vez lhe deixei lambuzado, com minhas mãos e boca. É tão gostoso seu gemido...
Por que sexo mais parece uma bola de neve? Logo depois estávamos atracados, ainda naquele espaço misterioso, mas dessa vez com seu membro latejante. Se a vizinhança não ouviu os gritos anteriores, estes com certeza não passaram despercebidos. É gostoso, é mais longo, dura mais, é mais intenso, é mais apertado, lateja, é visceral. Fizemos juntos, e confesso que depois desse, nem meus dedos agüentam mais se mexer... talvez eu termine aqui a verborragia. Talvez eu vá para a cama, a chuva está tão gostosa... entre muitas juras de amor e muita volúpia, o dia dos namorados continua gostoso. A vida de casada continua gostosa.


Por M * 10:26 PM


Por sed non satiata * 1:33 AM

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(junho de 2007)



Ouvindo: Chico Buarque - Uma Canção Desnaturada

música fora de contexto pessoal, mas ouvida por ser tão e tão linda...

_

Por que creceste, curuminha
Assim depressa, e estabanada
Saíste maquilada
Dentro do meu vestido
Se fosse permitido
Eu revertia o tempo
Pra reviver a tempo
De poder

Te ver as pernas bambas, curuminha
Batendo com a moleira
Te emporcalhando inteira
E eu te negar meu colo
Recuperar as noites, curuminha
Que atravessei em claro
Ignorar teu choro
E cuidar só de mim

Deixar-te arder em febre, curuminha
Cinquenta graus, tossir, bater o queixo
Vestir-te com desleixo
Tratar uma ama-seca
Quebrar tua boneca, curuminha
Raspar os teus cabelos
E ir te exibindo pelos
Botequins

Tornar azeite o leite
Do peito que mirraste
No chão que engatinhaste, salpicar
Mil cacos de vidro
Pelo cordão perdido
Te recolher pra sempre
À escuridão do ventre, curuminha
De onde não deverias
Nunca ter saído

_

vídeo: http://youtube.com/watch?v=BlsZPhySFtU

_

Dentro do contexto da "Ópera do Malandro", essa música é cantada pelo poderoso Duran, pai de Terezinha, no momento em que ela sai de casa para viver com o malandro Max Overseas (aliás, tenho minhas dúvidas. se cantada pelo pai ou pela mãe, ou em dueto - kkkkk -, não importa. é linda a canção...). A música é um lamento. Uma lamúria de uma mãe que preferia que a filha não tivesse nascido, em vez de vê-la sofrer. O próprio arranjo é um lamento. Notas dissonantes de piano... sem fundo de orquestra, sem ritmo, tentando assim, passar a tristeza pelo desalento dos pais. Dá um arrepio... É uma bela canção, sempre gostei...

Por M * 10:25 PM


Por sed non satiata * 1:32 AM

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(junho de 2007)

saudade de tanta coisa! correr nadar pular sol nadar nadar movimentos cigarrettes entre livros aulas filosofia pessoas multidao barulho e um pacote de etc's, um tanto fúteis, confesso, mas que só daqui a 1 ano terei de volta... agora, icaro icaro icaro, e muito amor... felicidade.

saudade de ficar cansada de tanto estudar, de dormir por cima dos livros, sujinha de cinzas, de queimar o dedo no isqueiro de chama verde, de me engasgar no chá mate de madrugada, devorando o livro de sartre, de ouvir kings of convenience, dirigindo, de manhã, indo pra faculdade. saudade de trocar bilhetinhos na aula, de rir das palhaçadas das amigas sem juizo...saudade das aulas de latim, da professora mais fofa do mundo que sempre tinha algo rico a me dizer nas manhãs gostosas das Letras.

tenho saudades mais ainda do futuro. de ver icaro nascer, de amar uma pessoa 24h por dia, de olhar seus olhos azuis e me sentir tranquila, de esperá-lo até tarde, acordada, e de tudo de bom que está me acontecendo.

daqui a 1 ano, essas coisas se misturam... aí vai ser tudo mais que o perfeito que já é.


a palavra de hoje, é: nostalgia



Por M * 10:25 PM


Por sed non satiata * 1:32 AM

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De: Mônica Medeiros (ou Kika Medeiros)
Para: Kika Medeiros (ou Mônica Medeiros)
Escrito em 30 de maio de 2007.

Kika, escrevo-lhe na forma de desabafo: a admiro por inteiro, mesmo não sabendo até onde vão suas qualidades e quando começam os defeitos. Sei que sabe ser sensata, e quando não é, pelo menos tenta ser com toda a sua boa vontade. Sabe usar sua inteligência, de forma discreta. Em tom de modéstia, esta carta lhe dirá algumas coisas essenciais.

Vejo que em seus 21 anos você não conseguiu se desvencilhar de certas peculiaridades, tais como: sensibilidade, sinceridade, transparência. Você continua deixando transparecer - cada vez mais - seu desprezo perante as pessoas medíocres. Seu termômetro-da-dignidade está quase pondo tudo ao risco, e por isso você precisa ser mais discreta.

Entendo que nesses últimos meses a farsa das amizades de papel finalmente foi descoberta. Máscaras caíram, e agora você consegue ver nitidamente as caras das pessoas nefastas, rodeando você com olhares de desdém. Olhares tortos, enviesados. Sorrisos amarelos. Diálogos em busca de sua - só sua - felicidade, mas nenhuma retórica. Nenhuma dialética. Sei que essas pessoas lhe dão nojo, insatisfeitas com seu bem-estar. Por trás, falam mal de tudo o que você ama e respira. Na sua frente, lhe providenciam um sorriso improvisado, um cumprimento mal feito e (como se quisessem disfarçar, mas sem êxito) olhares dos pés à cabeça, lhe analisando. Sugiro que ria, eles lhe invejam!

Gostaria de lhe explicar por que essas pessoas se esforçam na proliferação da falsidade, mas confesso que não faço idéia do motivo. Elas perdem tempo rindo descartavelmente, tentando demonstrar algo que não lhes é sincero. Tornam-se medíocres fazendo isso, não acha? Por que elas simplesmente não se entregam? Poderiam muito bem admitir suas caras feias, evitando assim o constrangimento. Mais cedo ou mais tarde você vai explodir, e vai jogar na cara de todos seu desgosto pela tamanha falsidade.

Holofotes da sua boa perspicácia conseguiram distinguir os sujos dos nobres. Você tem escolhido bem suas amizades, e tem sutilmente se afastado das cobras. Tenhamos pena dessas cobras, kika. Elas não são felizes como você. Já sei, é isso!!! Elas não são felizes como você!!! Pessoas que passaram do ponto não podem mais ser comidas. Vão pro lixo. Mas como elas são teimosas, insistem em fazer parte da salada fresquinha da sua vida. Lhe rodeiam como azeitonas fora da validade. Coitadas... mal amadas, infelizes, disfarçam seus desejos com alfinetadas, das mais fúteis às.... bom... mais fúteis. Coitadinhas, nem sensatez elas têm. Beiram a futilidade, sempre...Têm sede de sexo, de amor, de homem, de mulher, de sorrisos sinceros. Kika, tenha pena!!! Mas por favor, retribua - mesmo isso sendo medíocre também - os sorrisos falsos, para manter as aparências. Se você fizer aquilo que tem vontade, ou seja: explodir e estirar a língua para tais pessoas, você vai deixar de se divertir com isso ainda por muito tempo! Deixa, que essas pessoas logo, logo ficarão nuas e mostrarão sozinhas suas intenções. Assista de camarote essa torre de babel, prepare sua pipoca, seu suco de laranja, e divirta-se. Em breve tudo ficará mais nítido.

Quero falar agora de cada uma. Mas não citarei nomes. Sei que se elas lessem isso, não precisariam ser nomeadas, a carapuça serviria até mesmo no anonimato sutil. A primeira, já beira a velhice de sua alma. Mendiga um amor que não existe, e repudia aquele que, mesmo não merecendo, insiste em existir. Cobiça sempre a forma mais vulgar de prazer. Sempre demonstra uma vaidade superficial, mesmo que em vão. Ela é feia. Não só por fora, mas por dentro também (é engraçado o fato de mesmo feia ela se esforçar para que uma beleza banal lhe vista a cara, sempre.). Por dentro, chega a feder! Apesar de já ter envelhecido bastante, tem a mentalidade de uma criança. Mimada, inclusive. Ah, as mimadas são as piores... Convenhamos. A segunda pessoa também já beirou a vulgaridade e a idade avançada do frescor. É mal amada, mendiga também sexo e amor em coisas medíocres. Foi desprezada. É como se uma pessoa se masturbasse com um vidro de desodorante: decadente. Tanto essa como aquela, ocupam-se de falar de quem é feliz. Têm raiva de quem sente prazer. Para isso, tentam - eu disse tentam - disfarçar em tom de crítica, para que a inveja se fantasie de desdém. Elas têm a doce característica de transparência negra: deixam explicitar a raiva do sucesso alheio. Fazem comentários mundanos, do tipo - ele não conseguirá. - Por fim, elas são burras. Linguisticamente e em tudo.

A terceira pessoa também se enquadra nos discursos de desdém, a fim de disfarçar a inveja. Só que, diferente das duas primeiras, ela tenta ser inteligente. Mal sabe que você, kika, percebeu que essa inteligência é apenas um rótulo improvisado (ou meticulosamente memorizado) para que a inveja seja disfarçada. Ela tem o imundo costume de distrair sua feiúra e sua pobreza (não de dinheiro, mas de existência) cutucando as outras pessoas. Ela está sempre com seu dedinho imundo apontando o que ela chama de *defeitos* (mas só na cabeça dela... ), em todos. Ela tenta apontar a imperfeição na fuça dos outros para que sozinha pareça perfeita, mas é o contrário. Ela é a mais deformada das criaturas, passa fome de alegrias, e tenta mascarar com a casca da fruta. E como beira a futilidade, nossa! *Olha, sua unha isso. Seu cabelo aquilo. Sua roupa, isso. Olhem pra mim!! Olhem pra mim!!! Eu não sou ninguém, mas eu me esforço em falar coisas interessantes para que isso pareça ser inteligente!!!* e então fala sobre cavalos, sobre o jogo de xadrez do pai, sobre pimenta, sobre o casamentinho moderninho que gostaria de ter. Tudo balela, kikinha, tudo lorota. Repita comigo: coitadas!

Quer saber? Confesso que cansei... Não vou falar das outras pessoas. Essas três já serviram de exemplo. Sei que você é sensível. Sabe reconhecer quando alguém é assim, pobre. Mas olha: a pior (conseqüentemente a melhor) coisa que você pode fazer a tais pessoas é sorrir, bem gostoso. Sorria, demonstre simpatia e ignore suas energias ruins. Isso doerá nelas muito mais do que se você se preocupar em retribuir as antipatias. Se faça de inocente, de coitadinha. Deixe que falem, e até dê motivos para falarem. Explicite sua vida, seja solidária: elas vivem de sugar suas palavras e invejar suas conquistas. Se você não fizer tudo isso, elas ficam com fome de mediocridade. Você sabe que é superior a todas.

Termino a carta com uma música. Ao fundo, kings of convenience, build up. Te amo!!!

Ass: kika.


Por M * 10:23 PM


Por sed non satiata * 1:31 AM

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Dia 19 de junho é o aniversário DO homem: o chico.

eis um pequeeeeno texto que escrevi, ano passado, para seu dia:


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Usando palavras dele, conto-lhes a história de um danado. Quando ele nasceu, veio um anjo safado, o chato "dum" querubim.... E decretou que ele estava predestinado a ser errado assim...Já de saída a sua estrada entortou, mas ele iria até o fim. Até o fim do nosso juízo pouco, do nosso juízo farto. Seria ele aquele guri, e por que não o "meu guri", a enebriar tantas cabeças e tantos sentimentos. Tantos sentidos. E tão à toa na vida, às vezes, nem se dá conta de que tanta gente o venera. Não percebe que a banda de sua proveniência nos canta coisas de amor, nos canta coisas de dor, de pavor, de prazer, de desejos... "A namorada que contava as estrelas parou para ver, ouvir e dar passagem" à sua banda... A moça triste que vivia calada sorriu, a rosa triste que vivia fechada se abriu, e a meninada toda se assanhou...O velho fraco se esqueceu do cansaço e pensou que ainda era moço pra sair no terraço e dançou. A moça feia debruçou na janela pensando que a banda tocava pra ela... é isso tudo culpa do tal guri. Meu guri...

Quando, seu moço, nasceu esse rebento, não era o momento dele rebentar. Já foi nascendo com cara de homem, e não havia nem nome pra lhe dar...Como fui levando, não sei lhe explicar, fui assim levando ele a me levar. E na sua meninice ele um dia me disse que chegava lá... chega suado e veloz do batente, e traz sempre um presente pra me encabular....Eu consolo ele, ele me consola. Boto ele no colo pra ele me ninar. De repente acordo, olho pro lado, e o danado já foi trabalhar, olha aí...

E numa cidade em que ser artista é subir na cadeira engolindo peixeira, é empolgar o turista, é beber formicida, cuspir labareda, olhar a praça lotando e o chapéu estufando de tanta moeda...em um mundo onde cair de joelhos é dar graças ao céu... Lá se foi o turista, a dinheiro, a peixeira, a cadeira e o chapéu. Foi-se tudo isso, e veio um guri. Quando ser artista nas cidades é comer um fiapo, vestir um farrapo, ficar à vontade, vagar pela noite...quando ser artista é ser um vaga-lume, catar uma guimba, é tomar uma pinga, é pintar um tapume, não ser quase nada... É não ter documento, até que o rapa te pega, te dobra, te amassa....E te joga lá dentro. Eis que chega o querubim e nos rebola um danadinho pra mudar a cara do mundo, das cores, dos cheiros e dos amores, pra mudar todo esse conceito sobre ser alguém e sobre ser artista.

Sem nem pedir licença, nos enxeu de palavras. Aquelas palavras primas, uma palavra só, a crua palavra... Que quer dizer tudo, anterior ao entendimento, palavra...Palavras vivas, palavras com temperatura, palavras que se produzem mudas. Feitas de luz mais que de vento... Palavras dóceis. Palavras d'água pra qualquer moldura, que se acomodam em balde, em verso, em mágoa, qualquer feição de se manterem palavras. Palavra minhas, palavras dele, matéria, minha criatura, sua criatura, que me conduzem muda, e que me escrevem desatenta, palavras.... Talvez, à noite, quase-palavras que um de nós murmura, que elas misturam as letras que eu invento, que ele inventa, outras pronúncias do prazer...Palavras boas, não de fazerem literatura, mas de habitarem fundo o coração do pensamento.

Quando não necessita ser artista, torna-se malandro. Eis então o malandro na praça outra vez!! Malandrinho esse guri, caminhando na ponta dos pés, como quem pisa nos corações que rolaram dos cabarés. E entre deusas e bofetões, entre dados e coronéis, entre parangolés e patrões, e malandro anda assim de viés. Lindo... Deixa balançar a maré, e a poeira assentar no chão, deixa a praça virar um salão, que o malandro é o barão da ralé! Malandrinho esse guri!

Ele é a voz do dono e o dono da voz. Até quem sabe a voz do dono gostava do dono da voz... Assim como os nossos avós, o dono prensa a voz, a voz resulta um prato que gira para todos nós. A voz era de um dono só. Deus deu ao dono os dentes, as nozes. Às vozes Deus só deu seu dó...

E quando a sua voz se cala, às vezes, quando a timidez lhe toma por completo, ficamos todos sós. Sós? Xiii... Nessas horas, eu pergunto: O que será ser só, quando outro dia amanhecer? Será recomeçar? Será ser livre sem querer? O que será ser moça e ter vergonha de viver? Ter corpo pra dançar e não ter onde me esconder? Tentar cobrir meus olhos pra minh'alma ninguém ver... Eu toda a minha vida soube só lhe pertencer! O que será ser sua sem você, como será ser nua em noite de luar? Ser aluada, louca, até você voltar... Pra que? Eu gosto tanto de você...snif

Ele é aquele que "na dele" nos provoca desconforto, desejo, curiosidade. Quanto mais se esconde, mais temos saudades, mais queremos saber. Que roupa você veste? Que anéis? Por quem você se troca? De que é que você brinca? Que horas você volta? Seu beijo nos meus olhos, seus pés...Que o chão sequer não tocam
...E fantasiamos todas um galanteador como ele. Não para por aqui. A seda a roçar no quarto escuro, e a réstia sob a porta... Onde é que você some? Me diz guri, me explica, quem é essa voz? Que assombração seu corpo carrega? Me sopre novamente as canções com que você me engana, que blusa você, com o seu cheiro, deixou na minha cama? Você, quando não dorme... Quem é que você chama? Pra quem você tem olhos azuis, e com as manhãs remoça... E à noite, pra quem você é uma luz debaixo da porta? No sonho de quem você vai e vem... me diz.... de quem?

Objeto de desejo e de cobiça, soube nos ensinar como viveríamos do amor. Então significa que o guri também é mestre. Juro... Aprendi que para se viver do amor, há que esquecer o amor. Há que se amar sem amar. Sem prazer. E com despertador - como um funcionário...Há que penar no amor, para se ganhar no amor. Há que apanhar, e sangrar, e suar. Ai, o amor... Jamais foi um sonho. O amor, eu bem sei... Já provei. E é um veneno medonho!

É por isso que se há de entender que o amor não é um ócio. E compreender que o amor não é um vício, o amor é sacrifício, o amor é sacerdócio. Amar é iluminar a dor
- como um missionário...

E mesmo com toda a fama, com toda a brahma, com toda a cama, com toda a lama, ele vai levando essa chama... Mesmo com todo o emblema, com todo o problema, todo o sistema, ele vai levando essa gema...Mesmo com o nada feito, com a sala escura, com um nó no peito, com a cara dura, não tem mais jeito. Ele não tem cura! Mesmo com o todavia, com todo dia, com todo ia, todo não ia....

E mesmo com tanto tempo, tantos aninhos, com tanto vivido, ele continua sendo o homem. o cara. o malandro. o amor. o guri. o incuravel implacavel inesquecivel, e quem dera, comestível... tragável. AH, otima invençao. tragavel. assim mesmo, nao liguem pra letras maiusculas e minusculas, assim mesmo, sem acentuaçao. o enrolaria em um papelzinho de seda, e tragaria, fumaria... quente... entorpecente, enebriante, sempre. o fumaria até o ultimo resto. se assim eu conseguisse eternizá-lo, o faria. Fumo sua fumaça, fumo suas palavras, fumo seu cheiro, fumo suas fotos. e um gole de vinho para adocicar...

Sei que preciso conduzir um tempo de te amar, te amando devagar e urgentemente... Pretendo descobrir, no último momento, um tempo que refaz o que desfez. Que recolhe todo o sentimento, e bota no corpo uma outra vez. Prometo te querer até o amor cair doente...depois de te perder, te encontro, com certeza. Talvez num tempo da delicadeza... Onde não diremos nada, nada aconteceu. Apenas seguirei, como encantada, ao lado teu... (suspiros)

Parabéns ao moço dos olhos d'água... ô, moreno dos olhos d'água. Tire os seus olhos do mar e vem ver que a vida ainda vale o sorriso que tenho pra te dar.. :$ Vem ouvir lindas histórias que por seu amor sonhei... hihi vem saber quantas vitórias, moreno, por mares que só eu sei...

Tijolo por tijolo em canções, literatura, teatro, cinema. Meu estorvo, meu fardo, el benjamin, meu menino de budapeste carioca, brasileiro. De são paulo e de monica... de todas as helenas e ritas e bárbaras apaixonadas. Meu julinho da Adelaide! Meu, NOSSO Chico de Hollanda, de aqui e de alhures. Que ama a Mangueira, estaçaaao primeira de Mangueira. Eu também, sabia? Chico, Buarque, parceiro de euforias e desventuras, amigo de todos os segundos, generosidade sistemática, silêncios eloqüentes, palavras cirúrgicas, humor afiado, serenas firmezas, traquinas, as notas na polpa dos dedos, o verbo vadiando na ponta da língua - tudo à flor do coração, em carne viva... Cavalo de sambistas, alquimistas, menestréis, mundanas, olhos roucos, suspiros nômades, a alma à deriva, Chico Buarque não existe, é uma ficção - saibam. Inventado porque necessário, vital, sem o qual o Brasil seria mais pobre, estaria mais vazio, sem semana, sem tijolo, sem desenho, sem construção.

Ele é um gênio da raça, depositário da cultura popular brasileira. Grande poeta, grande músico, grande letrista, grande escritor, grande tudo.

É aquele que ficará no meu corpo, como tatuagem, para me dar coragem quando eu quiser seguir viagem pelos pensamentos, quando as noites vierem. Será aquele que me fará escrava do ego, do narcisismo, do espelho, será aquele que pesará feito cruz nas minhas costas, me retalhará em postas, e no fundo eu gostarei... Será sempre aquele que me fez ouvir e ler tantas palavras que eu conhecia só por ouvir falar...

Me perguntam por quê, como, quando, onde.. mas nasceu comigo, veio junto, tá no sangue. Foi minha primeira experiência lúcida de boa música, de lirismo, de emoção, de amor, de desamor, de literariedade e de agressividade.. meu painho espiritual! - "...Os momentos bons e as horas más que a memória coa..." (Chico Buarque) ele é assim, meu porto seguro pra risos e prantos!

Enfim. Um surto de parabéns.


Por M * 10:23 PM


Por sed non satiata * 1:31 AM

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(abril de 2007)

The world was on fire and
No one could save me but you
It's strange what desire make foolish people do
I never dreamed that I'd meet somebody like you


incensos, velas, céu nublado e brisa entrando suavemente pela janela. um farto copo de água, meias coloridas, uma lingerie confortável e um blusão, que peguei emprestado dele. acho que vai chover, meu nariz está tão gelado...

os dias passaram da forma mais gostosa possível. um arco-iris de cores e gozos, desde o sol nascendo até a lua transando nas nuvens. tautologia à parte, mas nunca é demais repetir coisas gostosas. seus sussurros entre sonos, dizendo "te amo, amor, dorme bem"; seus beijos nas minhas costas, quando dormimos em conchinha. nunca fiquei tão satisfeita com minha altura - me encaixo perfeitamente no seu corpo, na horizontal... e sinto um gozo infinito quando meu sono é embalado com seus braços à minha volta, me enlaçando. pequena que sou, entro na conchinha do seu abraço e assim, dormimos gostosas e longas horas, até que bem cedinho acordamos apalpando o bom humor e sentindo um ao outro o gosto de boca dormida, deliciosamente macia e carinhosa. aproveitamos o horizontal do colchão para fazermos um amor gostoso, ainda regado a preguiça, mas aquela preguiça bêbada de volúpia. é gostoso voltarmos a dormir depois do gozo. lambuzados de sexo, mais uma vez, em conchinha. o banho quente viria daqui a umas horas, e o café na cama nunca deixa de ser uma regalia necessária. o sexo depois do almoço é quente, digestivo, desvenda todos os segredos do corpo inteiro, completamente nu. à noite, o amor se faz quente, selvagem, desesperadamente longo e intenso. e tantos são os verbos entoados nesse português popular... trepar, comer, amar, foder, não interessa: presto atenção no seu gemido, no seu rosto embreagado de tesão, no seu maxilar rígido e nas suas mãos a me guiarem o ritmo. te olhar deitado no colchão, fazendo tudo isso, me deixa louca.

no mais, aos olhos dos leitores curiosos (me refiro àqueles que não são agradavelmente conhecidos ou convidados a virem aqui, e não às pessoas queridas que praticam a leitura das minhas palavras tolas, fico grata inclusive a quem gosta delas. Fico feliz em saber que não escrevo apenas para que as teclas do meu pc sejam acariciadas, bom sentir que alguém absorve coisas que penso.)...:

eu, passarinho.

holismo a quem inveja.
lamentação a quem cobiça.


fiquem longe, não fazem falta.








minha felicidade não lhes cabe.
ouvindo enigma - push the limits


recomendo o cd: enigma - the screen behind de mirror


Por M * 10:23 PM


Por sed non satiata * 1:30 AM

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(abril de 2007)

Debaixo de dois saiotes, uma barriga de 5 meses e duas pernas tremulas. Acima disso tudo, um vestido branco, bordado com pedras em tom prata. Um penteado sutil, uma tiara de brilhantes. A maquiagem delineava a expressão do grande dia. Unhas brancas, de praxe. Perfume especial, aquele o papai trouxe de sua viagem à Alemanha, mês passado. Uma tarde tranqüila, aquela que *babacamente* chamam de *dia da noiva*: penteia aqui, massageia ali, pinta acolá, veste isso, tira aquilo, depila coisas e tudo. Eis que, pontualmente, às 19h, ela estava sim, quebrando o clichê da *noiva que sempre atrasa*, na porta da igreja, dentro do carro, compartilhando suspiros de nervosismo com seu pai, lindo lindo de terno e cravo no bolso. Por mais que ela tenha se contido por toda a semana, por mais que tenha evitado aquela situação em que um filme inteiro sobre sua vida passa pela cabeça, por mais que aquele sentimento de nostalgia tenha sido preso entre os dentes, e as lagrimas tenham sumido a muito custo, ela não agüentou. Qualquer hora, menos agora - pensou. Mas não teve jeito, o filme passou sim pela sua cabeça, as lembranças de infância vieram sim à tona, a saudade de casa veio sim naquele momento, e muitas, muitas lágrimas a possuíram. Ah, algo que não se pode deixar passar: herança de família chamada *menina manteiga derretida*. Puxou às tias.

Agora, em primeira pessoa. A imparcialidade tentou, mas não vingou...

Foi tudo culpa daquele vestido! Daquele buquê na minha mão, daquela fila de padrinhos já preparada, esperando que eu chegasse, daquele noivo lindo, abraçado à sua mãe, ali prestes a entrar na igreja, tremendo, nervoso, emocionado. Foi culpa dos tios queridos, das irmãs ansiosas na calçada, da avó com o lenço já na mão, da mãe ali com os olhinhos arregalados, da sobrinha linda, vestida de daminha. Culpa de tudo ao mesmo tempo, me fazendo finalmente um estalo: chega de ser menina, chega de ser criança, chega de ser mimo: eu vou casar agora, eu serei mulher, serei esposa, serei senhora!!! Ficaria para trás o colo do papai, a papinha que me deram tantas vezes e o bercinho que vi em fotos; as fraldas que me trocaram, os sermões da mamãe, aquele zelo de minhas irmãs, tanto da mais velha quanto da caçula. Aquela sensação de dormir na minha caminha de solteiro e acordar no dia seguinte com tudo pronto, como um pintinho debaixo da asa da galinha.

Mais do que disse aqui, um enorme filme passou. O fato de o padre ter se atrasado VINTE minutos colaborou para que o filme se prolongasse...Não falei errado. A tal da noiva chegou às 19h em ponto na igreja, sabem... mas, cadê o padre??? *Ops.... Monica, fique dentro do carro, o padre ainda não chegou na igreja... err....*. E me desmanchei em risos. Foi uma risada tão gostosa que já não havia mais filme passando na minha cabecinha, mão trêmula ou maquiagem borrada. Era a tal da graça do atraso do padre. Dentro do carro, o buquê cheirava tão bem... o aroma possuía meus pensamentos.

E quando ele finalmente estava ali, no altar, esperando a minha entrada, um redemoinho me tirou o juízo. Ao fundo, tambores, ou seriam meus nervos pulsando, ou o coração acelerando a cada passo? Uma musica linda toca no canto do altar. Estava anunciando minha entrada, que duraria tão pouco tempo, mas que juro por Deus, quando você é a noiva, leva séculos. De mãos dadas com meu pai, e todos direcionando olhares a mim. Que timidez, que timidez!!! A cada passo, mirava uma pessoa dentro da igreja, e mais uma, e mais outra. A cada pessoa, um filme particular passava pela minha cabeça. A bobona foi até o altar chorando, tadinha...! a cada tia, uma lembrança. A cada tio, outra, a cada irmã, uma mais intensa ainda. E com o maxilar travado, prendi o choro, a emoção. Quem me via, com certeza pensava *ih, ela está nervosa*. Chuchu, não era nervosismo, era emoção, e-mo-ção. Era o choro preso de anos de muitas coisinhas boas, de uma família unida, de um amor pleno entre muitas pessoas. Parece bobagem, mas mesmo que não aconteça, a sensação de que tudo aquilo terminaria ali surgiu... mas eu sei que aquilo tudo que vivi só começara. Virá, virá um mundo de novas vidas, novos amores, familiares, laços...(...)

"não se afobe não, que nada é pra já. o amor não tem pressa, ele pode esperar em silêncio, num fundo de armário....(...) milênios no ar..." [coincidentemente, ouvindo agora essa música.]

Juro que não lembro de nada que o padre falou, Deus que me perdoe...! eu estava tão anestesiada que só conseguia me manter em pé e mirar aquele noivo lindo, que também tinha o maxilar tenso, que também tinha os olhos úmidos, que também, como eu, não conseguia fitar nada além do nada, para não cair em prantos, emocionado. Enquanto estive na eternidade da porta-até-o-altar, com meu pai, mirei aquele noivo tão perfeitinho, me esperando, perto da mãe. Achei graça por não conseguir olhar nos olhos dele, ou na verdade por conseguir, mas vê-lo tão emocionado, que não conseguia retribuir por completo. Se olhava pra mim, chorava. Se virava o rosto, com certeza deveria pensar *calma, calma, se controle, não chore, não seja mole...*. eu também pensava isso, olhando pros convidados. Todos, menos o noivo, não conseguia. Ele é tão lindo... - pensei.

Engraçado, quem diria que protagonizaríamos um *ritual* tão tradicional? Você lá, no altar, eu ali, indo em sua direção... você, de forma clichê, como em filmes e novelas e tudo mais, ao me ver, chorava, emocionado... e eu, nervosa, e isso e aquilo, buquê na mão, música de casamento... é, pirata. O amor nos faz essas coisas. Assumo com as bochechas rosadas: foi lindo, foi sim.

Só você para ter feito dona moça aqui vestir-se de noiva, e dizer o SIM, e dizer aqueles juramentos tão bonitinhos que sempre vi na tevê. E foi gostoso fazer tudo isso, e foi prazeroso, e foi gratificante e tudo mais. Senti como se fosse a coisa mais certa que eu fizera na minha vida inteira, mais do que qualquer coisa. Eram as palavras mais sensatas. Até quando trocamos as alianças, foi tudo muito confortável.

Eis que, ao assinar os papéis, finalmente eu descobri qual era a surpresa (passei dois meses ouvindo ele falar que teria uma surpresa pra mim no casamento...): de repente, quando eu já estava mais à vontade com aquela cerimônia cheia de clichês e tradições, quando eu já feliz assinava meu nominho no livrão, o pianista dedilha Beatriz, do Chico Buarque. Por pouco explodi em pleno altar, arrepios, e tanta lágrima, tanto êxtase! Amor, era essa a surpresa?? - falei, na verdade sussurrei. - Melhor do que imaginei, ele acertou direitinho minha sensação naquele dia. Beatriz. Nunca pensei que Chico Buarque fosse ser mencionado no dia mais importante da minha vida, e meu noivo ali sabia que me faria feliz com a surpresa. Sei que quem realmente conhece e reconhece a musica, chorou comigo na igreja, ah, danado desse meu marido lindo! Beatriz... (em prantos, agora, lembrando do momento)

Para não dizer que não falei do arroz: meninas, na porta da igreja, rebolando aqueles grãos tão sorridentes, que a neura de ter arroz em todas as minhas partes durante uma semana passou. Foi divertido... E ao entrar no carro, eu e ele, entre um beijo e outro, muitos sorrisos, e suspiros de ufa! Foi lindo ver as lágrimas... Acho que todo o choro que ele prendeu no altar, soltou no carro. E chorou tão lindo, e falou *to tão feliz*, e falou tantas coisas lindas que eu chorei também. Lembro-me de nessa hora eu ter pensado que a maquiagem era resistente mesmo.

Não estou apta a dar impressões da festa, pois pouco aproveitei, coisa de anfitriã. E pior: anfitriã e noiva. Mas só de acumular elogios, já me foi suficiente o esforço de preparar tudo do jeitinho que queria. Amigos no palco, famílias nas mesas, alegria e satisfação, e até um discurso lindo do meu pai, agradecendo ao meu recém-marido por introduzir em minha vida a música, coisa que por falta de tempo não pôde me oferecer em excesso. (apesar de eu ter herdado o Chico, o Vinicius, o Fagner, o Toquinho, o Alceu, o Geraldo, o Mozart etc do papai e de sua família).

Sei que estavam todos lá, os mais especiais, os mais essenciais. Estavam lá, e eu dei cada abraço de alegria por terem ido...! foi tudo tão gostoso, tão memorável.
Acabada a festa, chegamos ao nosso apartamento. Nosso, nosso lar. Era a noite de reverenciarmos os clichês do amor: pôs-me no colo, e adentrou o AP com o pé direito. Me carregou nos braços até a sala. Pétalas de rosas na porta da entrada, que fizeram caminho até o nosso quarto, rodeando e cobrindo a cama. Em cima dos travesseiros, um buquê, lindo. Duas taças, e um vinho gostoso. Lingerie especial pra ele, e cueca especial pra mim. (Falo mesmo...)

Os dias seguintes foram plenos. E assim continua sendo... Cada dia amanhece mais gostoso que o anterior, e cheio de novidades. Todo dia ela faz tudo nada igual... sorriso pontual, uma duas três vezes durante a madrugada. Samba e amor até mais tarde, e enquanto dormem, em conchinha, se beijam, se abraçam, e se esquentam. Debaixo dos lençóis, ela o ouve sussurrando, entre um ronco e outro: *te amo, amor, dorme bem...* e ela retribui *você também, amor.* E te amo, e te amo, entre um ronco, entre uma espreguiçada. Quando já é dia, a mesma coisa. Sorriso pontual, beijos, abraços, e a cama se enche de amores por todos os lados e lençóis. Só quando já não temos mais vergonha na cara de enganar a tarde, nos levantamos e eu executo meu ladinho Amélia, que pensei nunca ter: comidinha surpreendentemente gostosa, que ganha elogios, quem diria, e sobremesa mais ainda...(essa já conhecida, errr, foi assim que Icaro foi concebido).

Tudo está tranqüilo. Beijos na boca de hortelã, abraços nos corpos quentes, banhos gostosos, filmes na cama, delicias na cozinha, e assim todos os dias agradecemos por termos nos conhecido, há oito meses.

No mais, só isso mesmo. Tanta coisa mais pra relatar... mas faço suspense. Melhor é omitir o relato.
Ícaro tem chutado tanto, danado.


*


Chico Buarque - O Meu Amor

O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
E que me deixa louca
Quando me beija a boca
A minha pele toda fica arrepiada
E me beija com calma e fundo
Até minh'alma se sentir beijada, ai

O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
Que rouba os meus sentidos
Viola os meus ouvidos
Com tantos segredos lindos e indecentes
Depois brinca comigo
Ri do meu umbigo
E me crava os dentes, ai

Eu sou sua menina, viu?
E ele é o meu rapaz
Meu corpo é testemunha
Do bem que ele me faz

O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
De me deixar maluca
Quando me roça a nuca
E quase me machuca com a barba malfeita
E de pousar as coxas entre as minhas coxas
Quando ele se deita, ai

O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
De me fazer rodeios
De me beijar os seios
Me beijar o ventre
E me deixar em brasa
Desfruta do meu corpo
Como se o meu corpo fosse a sua casa, ai

Eu sou sua menina, viu?
E ele é o meu rapaz
Meu corpo é testemunha
Do bem que ele me faz


Por M * 10:23 PM


Por sed non satiata * 1:30 AM

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(20 de abril de 2007 - véspera do casamento)

trocando em miudos..

'Eu bato o portão sem fazer alarde

Eu levo a carteira de identidade

Uma saideira, muita saudade

E a leve impressão de que já vou tarde'...




Trilha de despedida, só sendo buarqueana, ne?
Trocando em miúdos, bato o portão da casa em que vivi 21 poucos anos e adentro o apartamento em que viverei mais quantos quiser. Bato o portão com muita saudade, um choro de saideira e lembranças gostosas da infância e adolescência. Agora não da mais pra adiar: não posso ser eternamente a menininha do papai. Agora serei a menininha do glay, a mulherzinha do glay, a amantezinha do glay...

...E mãe do icaro.


Por M * 10:22 PM


Por sed non satiata * 1:25 AM

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(abril de 2007)

Abraçadinhos na horizontal, na sua cama gostosa. Testando os botões do controle remoto. Aperta: jornal. Aperta de novo: novela. Aperta mais uma vez: leilão de boi. Aperta: desenho animado. E rimos, e rememoramos...

[ ah, como é bom ser uma criança dos anos 80...! esses desenhos de hoje em dia (quando você começar a usar termos como *hoje em dia* e *no meu tempo*, se conforme: envelheceu!) não tão com nada...! Bom era desenho com cor esquisita, dublagem aguda e temáticas educativas. Hoje? Hoje o super-hamster sabe usar o computador do dono, uma menina de sete anos vira super-heroina quando algo na escolinha da errado, monstros que mais parecem caca de nariz combatem. e as musiquinhas super idiotas das aberturas, que as crianças retardadas (nossa, como as crianças de hoje em dia são abobalhadas....) entoam o dia inteirinho...???

Me orgulho de ser careta, assumo sim que meu filho vai ouvir muita ladainha, do tipo *não ouça isso, brinque daquilo*, vai ouvir sim musicas infantis do Chico buarque, de toquinho, vai ver desenho antigo, e tudo. ]

Mas acabei entrando no assunto errado... Onde eu estava? Ah, a cama gostosa... *amor, poe dvd... (pausa com mordida no pescoço e sussurro no ouvido)... Pra fazer barulho...*

- é?
- é...
- hum...
- poe...
- é é é é é?
- hum, hum, hum, hunf, unf, unfffffffffffff... (no ouvido) é... uin...
- huuuuuuuum... *grunidos**excitação a mil*

E me enrosquei, e gemi gostoso... água na boca ao arrepiar seu mamilo, ao ouvir o barulho dos pelos do peito, nas minhas unhas. Seu pescoço suculento, me fazendo sentir a mais cretina das vampiras. A mais malandra. A mais safadinha. Sugo, mordo, chupo, que nuca boa.

O puto do seu membro tão gostoso de olhar, já estava atento. Mas fui sacana: como quem não tem pressa, continuei nos mamilos. Me divirto com o jeito que você morde os lábios em tesão. E os olhos de gozo, semicerrados, buscando um ponto fixo. Mas continuei ali, nos mamilos. Eu já estremecia, umedecia, o sangue já fervia. Mas os mamilos(...).

De repente, senti ânsia de seu umbigo. A língua o desbravou, devagarinho. Quis sentir a boca nos pelos do ventre. Excitam-me seus pelos. Esses pelos crescidos que rodeiam seu sexo, esses pelos suculentos de cheirar, de roçar as unhas, de soprar um bafo quente, para ver você ficar molhado. Por falar em molhado, me enlouquece umedecer meus lábios com seu brinquedo molhado. Como um gloss, passo na minha boca e lhe beijo. Me excito mais. Brinco de suspense, finjo que toco o membro com a língua, mas apenas toco com o sopro. Seu gemido me lateja o corpo, e entra em sintonia com o meu *rrrrrrrr*. Lambo. A volúpia não deixa mais o suspense brincar de mestre. Sem que você perceba, presto atenção na sua face lhe condenando. Sugo. Chupo. Ah, ah, ah, ahhhhh que surreal seu gemido. Seu corpo inteiro pegando fogo, dormente, e sua boca meio aberta, seus olhos nem abertos, nem fechados. Sua respiração pesada, e palavras prestes a saírem de sua boca, mas não saem, são só gemidos. Em alguns momentos pensei que você fosse finalmente falar algo, mas era só um impulso sonoro, um ápice, coisa assim. E continuei, naquele prazeroso vai-e-vem. Tão quentinho, tão suculento o gozo... explodiu-me os ouvidos seu oooooooooaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh... delicia.

Lambuzada, limpo o queixo, não disfarçando meu sorriso de volúpia, daquele sorriso sacana, no canto da boca, só no canto da boca. Aquele sorriso que um mafioso italiano daria, em um filme antigo, com um cigarro preso entre os lábios, aquele sorrisinho maroto, faceiro.

Dou um salto e grudo em você, sentada no seu prazer adormecido, lambuzado de gozo. Beijo, atiço, mordo, tudo. Não há mais suspense. Há ânsia, há ganas, há desejos, fogos, vontades de lhe encaixar. Tenho pressa, meu prazer não espera. Meu prazer já não agüenta mais a calcinha... tiro. Misturo os prazeres, lambuzo, brinco. E logo ele estava ali, atento de novo. E encaixo, e galopo.. Agora quem não consegue controlar olhos, sons e boca sou eu. Você me imita.

Não tem pressa, não tem pressa... quanto mais fazia, mais eu queria fazer. Mais eu queria passar a tarde inteira fazendo, mais eu queria adiar o gozo. Aquele atrito me perturbava, e suas mãos me seguravam os mamilos, como quem tem necessidade de apertar algo com as mãos. Seus olhos hipnotizados nos meus, e isso fazia aumentar mais ainda o desejo. A cada ida pra frente e pra trás, pra cima e pra baixo, eu sentia mais e mais que você me rasgaria, de tão duro. A sensação é de que daqui a pouco não caberia, de tão grosso que ficara. Mas coube, e foi então que me contorci, explodiu-me a epiderme, e me formigaram todos os cantos do corpo, o coração acelerou, o fôlego cessou, luzes coloridas: amarelo, vermelho, azul, rosa, verde, anil, e me senti surda do mundo e ouvi meu sexo explodir. Ouvi o seu me acompanhar, gozamos simultaneamente. Os olhos instantaneamente se fecharam, como quem espirra, o grito entalou, e o silencio antecipou um grito meu. Gemi. Forte, alto, e você me tapou a boca, ainda bêbado de tesão, porque a minha idéia de ouvirmos um dvd-barulhento não foi suficiente.


Por M * 10:22 PM


Por sed non satiata * 1:24 AM

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(abril de 2007)

Mais um sábado necessariamente caseiro, na sua companhia. O céu era colorido, as nuvens marotas fizeram do negro da noite, um céu nubladamente* lilás. Tudo de básico para começo de noite: chuva tão gostosa, fina, caindo quando você chegou. Beijo molhado, a sensação de 'me esquecer' e depois me lembrar do seu cheiro gostoso - quando lhe abraço e sinto seu cheirinho, penso: 'não me lembrava que sua epiderme era tão sedutora...', como se não a sentisse há uma semana, tendo embora sentido há poucas horas. - E que epiderme sedutora... Umedecida, faço-lhe entrar.

Peguei-me rindo agora. 'umedecida'? rio com o fato de nesse nosso tempo sempre termos nos 'umedecido' e 'atiçado' com tudo. Nos encostamos, e tchum. E assim foi, bem tchum entramos em casa.

Ah, aquele sofá... aquele tão cálido-e-paradoxalmente-candido sofá. Filme. (clássico é sempre clássico...) Deitada no seu colo, e aquele filme tão gostoso a ser redescoberto. Deitada e recebendo carinhos, deitada e beijinhos.

Horas depois, não conseguíamos mais assimilar filme / realidade, por mais que quiséssemos ver ate o fim (tudo bem, tinha como dar pause mesmo...): vi-me por cima de você, atiçando, beijando, mordendo. Suas mãos desvendando aquilo que já sabia de cor, e a umidade nos tomando, e nos lambuzando. Meu bem, torna-se mágico quando decide usar seus dedos! Formigamento no meu corpo a cada toque, a cada pressão da sua mão. Misturando suor de desejo com suor de calor, explorei seu campo branco, do queixo ao membro. Mordi, lambi, suguei como quem morre de fome e vê seu prato predileto ali adiante. Volúpia já sem controle, e enfim lhe encaixei, aqui, e senti como se me rasgasse, de tão duro e grosso o desejo. Ah, seus gemidos... como era gostoso o ritmo.

O gozo, um dos melhores... o meu e o seu.
- lembrando como é gostosa a cara que você faz nesse momento...

Beijos beijos beijos beijos e nos esticamos horizontalmente no sofá. Procuramos o fôlego perdido. Procuramos algum vento que aliviasse nossos corpos suados.

Tem fome? Subi as escadas para bancar a dona de casa prendada. Desci com seu prato, e gostei dos seus elogios estreantes. (alivio: o que seria de mim quando casássemos ein...que bom que passei no teste do INMETRO :p)

Ei, mas e a digestão? Ficou pra depois, recomeçamos a brincadeira do suor...

Quatro da manha, que gostoso o beijo de despedida... tchau, ate amanha, vai direitinho e dirige com calma... te amo.

* neologismo maroto master ativar


Por M * 10:21 PM


Por sed non satiata * 1:23 AM

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[3.3.07 4:26 PM | MÔNICA MEDEIROS]
Fênix

-

Ao fundo: Kings of Convenience - Cayman Islands.
Uma xícara de capuccino.

Mesmo sem perceber, o Monta me deu uma boa idéia: voltar ao mundo do blog. Bons tempos (nem tanto) de 2003, quando adentrei nesse mundinho. Era divertido. "Querido diário..."; Papinhos de: "mamãe, eu penso que sou madura, mas não sou..."; "ai, eu sou o máximo e sei brincar com as palavrinhas. Afinal, minha paixão é a Língua Portuguesa, a Literatura..."

Engraçado quando eu começo a "reviver" todas as coisas escritas aqui. Sorte que já levei pro lixo eletrônico muito texto de outrora... há quem goste de ler diários antigos, para rir de si mesmo, ou pensar "puxa, evolui.", ou "putzgrila, naquele tempo eu tinha juízo, ou algo parecido com ele.", mas eu prefiro, como diria o puto do Chico Buarque, "os momentos bons e as horas más que a memória coa": prefiro filtrar o que quero ou não "reler", na minha memória.

Apaguei 2003, 2004, 2005. Deixei que tudo aqui parecesse ter se iniciado em 2006... motivos não faltam. Talvez pela constante que se tornou minha personalidade, finalmente definida, no pos - adolescência. Acho que "talvez" não, tenho certeza que foi por isso (Mas, de certa forma... não sei se já sou outra de ontem até hoje, quantas já fui desde a ultima vez que escrevi?). Foi como se, depois de ler a revista "capricho" (aprenda a beijar em 5 passos; aquele gatinho ta afim de você? Saiba aqui!; cinco dicas pra você ficar na modinha nhem nhem nhem; você menstruou? Saiba o que fazer!; Saiba tudo sobre o grupo RBD!! ) - esclarecendo: fiz apologia a uma revista de adolescente, não significa dizer que eu lia aquela porcaria, Deus me livre... me referi a adolescentes-padrão, movidos pelas revistinhas do senso comum e pelas novelinhas estilo Malhação - eu passasse a ler Budapeste, Benjamin, Um copo de cólera etc, e me tornasse um ser intrigante, irritante, pensante, com opiniões próprias e um estilo apuradinho de falar.

Interessante foi encontrar aqui (e em rabiscos quaisquer nos livros, cadernos e paredes que possuo, e ate mesmo em meus pensamentos) duas faces da mesma 'kika': aquela que escreve, adentrando de forma branda na poética e na sensibilidade literária, como se fizesse sexo - ou amor - com as palavras que cuspira; e aquela que, como nesse texto aqui, fala para ninguém ler, ou para todo mundo ler e pensar que não passa de algo "nada de mais", com palavrinhas sem sinônimos cultos, sem maquiagem, sem conjugação verbal pouco usada. Falo de forma simples e branda, mas em tom de 'boas vindas': welcome back, me myself kika.


Por M * 10:21 PM


Por sed non satiata * 1:23 AM

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*** Quarta-feira, Agosto 30, 2006

5:10 PM


café filosófico bonzinho ontem, ¿O INOMINADO DESEJADO¿, Prof. Dr. Oscar Federico Bauchwitz... heheheheh

nos aproximamos de nós mesmos; somos e não sabemos o que somos; ir em busca do que não tem nome é ir em busca de nós mesmos; entoamos metáforas e cantamos nossa história; kabala misticismo; desejo vontade de falar / silêncio; o sabio deixa de ser sabio quando abre a boca; tarde demais pra Deus e cedo demais para o Ser... etc etc


Por M * 10:21 PM


Por sed non satiata * 1:22 AM

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(abril de 2007)

Planos. Alemanha quarta. Casacos. Lista de quereres. Ai que nervoso. *Um capuccino do lado do laptop. Um gole. Está cremoso.* Digito freneticamente, na velocidade dos meus pensamentos. Querido diário. Meu fim de semana. Alegria. Felicidade. Volúpia. prazer. Orgasmos. Desejos. Saudades. Preparativos. Ansiedade. Amor. Tesão. Sono. Cama gostosa. Limonada suíça. Pipoca. Filmes. *Ai que sede. Um gole d`água.* Volto meu olhar para as letras no computador. Rememoro. Seu suspiro no meu ouvido. Seu beijo demoradamente longo me excitando. Minha mão na sua barba. Minha boca seguindo um percurso demarcado com mordidas. Gosto delicioso na boca, ao final do percurso-degustativo uniformemente acelerado. Isso não foi um eufemismo. Adoro seu gemido. *Sede, outro gole d`água.* Prazer. Paixão. Loucura. Carinhos, dormir, acordar, beijos. Te amo. Também te amo. Ate amanha. Oi. Bom dia. Tudo de novo...

O melhor de tudo é que esse querido diário *diário* nunca correrá o risco de cair na rotina...

Status: discando seu numero. *alo, amor? Ta fazendo o que agora? Hum... chego já.*



Por M * 10:21 PM


Por sed non satiata * 1:19 AM

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[3.3.07 4:00 PM | MÔNICA MEDEIROS]
12/24/06

Hê, o Natal....

Papai noel por todos os lados. Enfeites pela cidade. "Esqueceram de mim" na tv. Especial Roberto Carlos. Xuxa com voz de criancinha. Shoppings lotados. Vendedores simpatiquinhos. Sorrisinhos amarelos e tudo. Musiquinhas natalinas. O mecanicismo do "Feliznataleumprosperoanonovo".

Hê, o Natal... Peru, panetone, comidinhas orgásticas e sobremesas surreais. Árvore de Natal imensa, rodeada por presentes. Capitalismo vazando por todos os poros... E entre um gole e outro do vinho, "ah, é mesmo, nascimento do tal do menino zizus!"

Natalzão dos amigos secretos, da cobiça por presentões e do sorrisinho de alívio dado ao chefe. Daquela inimizade que, por um ventinho natalino e por uma inspiração bondosa (lê-se hipocrita), fica tudo liiiiiiindo, azul e purpurinado.

Papai Noel, que tal a gente trazer aquelas historinhas à la Xuxa-Especial-de-Natal (criancinhas conscientizadas, salvando o mundo, espirito natalino e tudo mais, musiquinhas mágicas, amor e menção ao nascimento do zizus! aquele conto de fadas...) para a realidade? Cadê realmente o Natal ein... tá, eu vejo a novela de Manoel Carlos e consigo ver personagens felizes brincando de bonequinha, mas eu tô falando de verossimilhança, txio!

Eu tenho receio em desejar a todos os ventos um feliznataletudodebom, porque não consigo passar tanta sinceridade...Digo, passar consigo, mas sabe-se lá como a mensagem chegará ao receptor. Eu quero é uma "noite feliz, noite feliz, lalalalalalala"... ... e família reunida, rindo dos acontecimentos do ano, numa retrospectiva. Quero shooshoo do meu ladinho, compartilhando histórias. Quero visitas queridas, pessoas amadas e amando. Quero abraços, sorrisos, quero sinceridade, autenticidade... Papai noel é tão xuxu que vai me dar isso tudo hoje, então, ao invés de um FELIZ NATAL pra vocês, meu caro "povo de Fotologuarajara", desejo uma noite agradável.

E sobre 2007 tratamos depois.


Por M * 10:20 PM


Por sed non satiata * 1:18 AM

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(abril de 2007)



Amando na escada, sussurrando o mais baixo que consigo, mas a vontade era de gritar. Era de rasgar a roupa e morder todo aquele conjunto branco de pele e suor, debaixo da lua. Entre membros duros e úmidos, mordia a boca e prendia o grito. Movimentos sincronizadamente* calculados que faziam barulho, gemido e gozo. Suas mãos guiavam o ritmo, e minhas pernas faziam o resto. No descanso da primeira, veio a ânsia de fazer uma segunda vez. E foi bom... O corpo queimava mais que fogueira. E descobrimos um planeta novo, ali naqueles batentes. Hoje vou dormir achando o inventor da escada a pessoa mais beijomeliga do mundo. E uma noite de sábado em casa, a noite mais animada do mundo. E me despedir de você, cansada de amor, a coisa mais gostosa do mundo...


*neologismo maroto


Por sed non satiata * 1:17 AM

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(abril de 2007)


Meu amor

-

Apostar com o sushiman e engolir um bolão de raiz verde e ainda fazer carinha de menina feliz. Sushizinhos antes de sair, cafezinhos antes do cinema, cigarrinhos antes durante e depois de tudo, aguinhas, salgadinhos e filmes vistos pela metade. Brincar de quem-conhece-mais e redescobrir bons momentos que já vivemos. Receber foto dos meus dois amores e ficar surpresa, fazer esquecer a saudade duma sexta sem te ver. Se tornar meu herói quando não quero dirigir e dirige por mim. Se tornar meu doutor quando tenho minhas crises de espirro, manha ou sono. Me faz massagem no pé até quando meu xulé está psicótico. Achar bonitinha minha marcona feia do maiô. Oferecer musiquinhas pra mim nos shows. Dormir de conchinha, ouvir ronquinhos no meu ouvido, mordidinhas nas costas enquanto durmo, suspiro no pescoço enquanto dorme, calorzinho do corpo durante sonhos. Acordar com beijinho na boca e chocolatezinho...

...e não cansar de olhar os olhinhos puxados mais lindos do mundo. Branquinho lindo, me desperta tantos sentimentos que nem sei expressar. Aquela saudade só de olhar pro outro lado do quarto... Olhos hipnotizados em você, acordado, dormindo, sério, sorrindo, amando, beijando, falando... Amor que nunca acaba que nunca falta e que sempre tem um pouquinho a mais.

Além disso tudo, não tem como chegar no dia de hoje e não relembrar os primeiros segundos que nos vimos. As primeiras conversas, impressões, os primeiros dias, o primeiro teamo e o primeiro beijo... 10 anos se passarão e eu lembrarei como um acontecimento da noite passada. Lembre-se sempre que ouvirá todos os dias "hoje é o dia mais feliz da minha vida". "amo-te mais que tudo", "amo mais que muito", "beijomeligaprasempre", "amoamoamoamoamoamo" "sou sua"...


Eu poderia escolher o poema mais bonito de Vinicius de Moraes, mas ainda assim eu não saberia expressar sua importância pra mim. Se não tenho você, quem conseguirá substituir-lhe, quando eu precisar do peso do seu corpo, na medida certa, em cima de mim, quando eu sentir insegurança, medo, amor, desejo? Que homem terá a textura perfeita dos cabelos, quando eu quiser passar meus dedos entre os fios, na intenção de sentir seus pensamentos? Que peito terá o mesmo calor que o seu, quando eu passar a mão pra sentir os pêlos num momento de volúpia ou acalanto? Qual beijo me fará calar, da forma que o seu faz? Qual sorriso entrará pelo meu ouvido quando eu estiver surda do mundo todo? Que mãos macias e grandes me farão carinho nas horas em que quase padeço de amor? Qual voz vai me ninar, me intrigar, me acordar? Qual abraço vai me unir os pedaços soltos do meu corpo?


Lhe amo como quem vê a morte e não consegue fugir: desesperadamente.


[ Ao fundo: O Que Tinha Que Ser - Tom Jobim / Vinícius de Moraes ]


Por M * 10:20 PM


Por sed non satiata * 1:17 AM

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(abril de 2007)


Envolves o meu corpo como se fosses nevoeiro. Enfeitiças a minha pele, retesas meus músculos... Despes-te... e mostras-me o teu desejo... "Quero-te..." soltas num gemido quando te toco. Pões meu sangue a ferver. És a paixão que me persegue... o amor que me faz bem. Cada carícia tua leva-me à loucura...!

Sacias a tua sede nos meus lábios, matas o teu desejo no meu corpo. Fazes-me viver ao morreres de prazer em mim...

Não posso resistir-te... mão consigo... não quero... "Sinto medo do poder que tens sobre mim..."

Sussurras... achando que quem controla sou eu...

Mas na verdade sabes bem: não sou eu. Não és tu...

É este amor que um pelo outro sentimos.

Que nos tem na mão.

Que comanda os nossos destinos. Que nos faz estar assim, horas e horas, unindo as noites a cada amanhecer. Sempre prontos para nos entregarmos um ao outro...
Loucos... amando com prazer.


Por M * 10:19 PM


Por sed non satiata * 1:16 AM

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(abril de 2007)

"Mônica,

- Voe, volte alto, voe alto demais!
Você resgatou a história, a magia, o sonho manifesto na coragem do jovem Ícaro e seu desejo de ver a verdadeira beleza, a beleza vista do alto, sem os detalhes de tristeza que vemos sob esta gravidade que nos encolhe a alma.

Diz-se, por lapso, que cada pena caída no mar originou uma ilha na grécia. - Nenhuma de tuas lágrimas, bela moça, será em vão. Porque do justo até o desastre se faz belo; Ou não seria a obra "O grito" um manifesto da tristeza?

Abandone este labirinto confuso e pequeno que são estas mentes pobres, podres e lúgubres; Ressuscite a sua nobreza de voar, de superar os "xeques" que estas circunstâncias nos costumam passar (in passant, do xadrez)."

(...)


Por M * 10:19 PM


Por sed non satiata * 1:16 AM

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(abril de 2007)


A Bíblia nos fala, em Salmos, sobre as pessoas más, que aparentemente parecem boas e, no fim, Deus as faz desaparecer, enquanto os justos são como árvores que resistem às tempestades e dão frutos. - Assim eu tento ser.

Não me importo com aquelas pequenas almas que só serviram para mim para alimentar o ego. Logo, pude catar, como nítidos feijões mágicos, os que brilhavam e os que eram podres.

Afastei-me de algumas pessoas, durante toda a vida, porque estava tudo sem nexo: me sujava a alma e o desejo do saber verdadeiro. Considero apenas o que é bom para mim. "Decoro" na mente que AS PALAVRAS SÓ SÃO VÁLIDAS QUANDO ACEITAS e que com as atitudes alheias também se pode fazer isso.

Aproveito a prática em vomitar nestas últimas semanas e VOMITO tudo o que nada acrescenta em minha vida. - E terei o alívio de ter somente o essencial, que é invisível aos olhos, presente nos sentidos, que entra pelo coração, como as sensações peculiares de sinto nestes dias em que nasce uma mãe e nascerá um bebê.

Digo a mim mesma: Seja nobre, superior. Seja um bobo da côrte! - Pareciam loucos, tão tolos, mas eram personalidades sarcasticamente, estrategicamente influenciáveis, inteligentes, cautelosas, jogavam xadrez com as palavras que diziam em tom de brincadeira; Porque era assim: seriedade/crítica ditas "com açúcar", que "entravam" na mente do Rei sutilmente. O verdadeiro rei eram as decisões tomadas e todas vinham das insinuações sutis dos bobos da côrte.

Sempre fui o bobo da côrte: sorria, dançava, mas sabia que na Queda do reino, eu teria o meu lugar, porque eu já estava preparada para isso. Ironicamente tenho vista do 17º andar para a torre de babel que se abriu debaixo dos meus olhos. Ficarei por perto da torre, sim, como um bobo da côrte, para zombar dos que se matam, para zombar daqueles que falam mal entre si, que se traem, e eu acho muita, muita graça.

Dedique-se a fazer o bem, porque o mal sozinho se faz e desfaz. Vejo os que nos desgostam como desesperados, que se corroem e contorcem suas almas num descarnecimento mortífero.

Aqueles pobres nada acrescentaram à minha vida: daqui há 2 anos, estarão dispersos em minha mente, alguns, talvez, tenham um lapso de nobreza ou apenas bom gosto e me agradem em algo...

...Enquanto eu, estarei vivida das mais belas experiências de ensinar um Ícaro não só a voar, mas como a pensar, andar e SER, em toda a sua liberdade, como a liberdade de quem voa.

Aquieto-me a alma! O futuro me presenteia com o maior e mais sincero dos amores: O amor de uma criança. Os outros, são os outros. Dissiparam-se como poeira ao vento.

Nenhum deles levará meu jornal, meu leite; nenhum deles dará o hortelã, nem o feijão, tampouco a paixão e o pavor dos meus beijos, do meu TODO DIA ELE FAZ TUDO SEMPRE IGUAL. Portanto, ignoro-os e os acolho nobremente, se preciso. Porque a Bíblia também diz que amontoaram-se brasas na cabeça do meu inimigo quando eu pago o mal com o bem. Não existe nada pior que descobrir nossa pobreza... De alma!

Penso no meu vestido, no meu despir, no meu filho, que nascerá nu de roupa e coberto de amor. Penso no meu homem. Deixo estes miseráveis mendigarem qualquer algo pelas noites vagas da "Nigth". E assim, serei feliz, voarei alto e longe. Eu e meu Ícaro. (e meu homem.)

[ ao abrir o seu coração pra mim, entrei. E eis que fiz suas palavras, as minhas, N.C.L.G (in memorian). ]


Por M * 10:19 PM


Por sed non satiata * 1:16 AM

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Primeiro semestre [ 21 de setembro a 21 de março ]

Um amor que não tem fim: e lá se vão seis meses, meu bem! 21 de março de 2007 - a um mês do dia de Tiradentes, a um mês do nosso casamento civil-e-religioso: meio ano de amor pleno e de sentimentos que vão muito alem de rótulos envaidecedores aos curiosos. Se eu lhe disser aquelas qualidades taxadas de perfeitas, aqueles sentimentos que aqui dentro se reproduzem, aqueles desejos de coisas para o futuro, e de reminiscências do passado, eu correria o risco de ser taxada de piegas, repetitiva, garota clichê. Eu apenas diria o que qualquer pessoa apaixonada diz para sua alma complementar, mas só eu saberia o valor de cada palavra. Quem lesse, apenas pensaria: *ih, já li isso antes em algum canto, ou já escrevi isso a alguém*. Mas não importa, deixe que as palavras fiquem no dicionário, nos depoimentos quaisquer, nos orkuts nos emails, nas cartas. Eu quero lhe falar do olhar, sim, aquele olhar que me pega fogo o corpo, quando você o faz. Aquele olhar que lhe direciono, repleto de candice, de amor, de sentimentos imortais, ou sei lá o que. Tento, mas não consigo descrever o que sinto, não sei expressar verbalmente como esses seis meses se fizeram. Se fossemos cegos, eu diria mesmo assim: tudo começou com nosso primeiro olhar. Meu bem, aquele olhar não teve igual em novela nenhuma, em filme nenhum. Porque foi conosco, sentimos o que ninguém sentiu igual. Já levou uma tapa na cara? Foi como uma tapa. Splash. E eu mirei seus olhos puxados, como olhos de gato de raça. Aqueles azuis, aqueles como espinhos entrando no meu. Se fossemos cegos, mesmo assim eu teria sentido o que senti em meus olhos. Foi como uma espécie de reciprocidade: olhamos ao mesmo tempo, sentimos ao mesmo tempo. Desejo incontrolável que não esperou dia nem hora, teve que ser naquele dia. Ta certo que me refiro ao dia 2 de setembro, mas desse dia ao dia 21, tudo se resumiu na *bolha* do primeiro olhar: perfeitamente, infinitamente - e todas as palavras mais grandiosas do mundo - belo.

Cada pessoa nesse mundo pensa: *sou diferente*. Apesar do mesmo penteado, do mesmo jeito de se vestir, do mesmo gosto musical, e de todo o resto que a bagagem-cultural-popular impõe: cada um se sente melhor ou diferente que as outras pessoas. Assim eu me sinto com você, sinto como se meu sentimento fosse o mais explicito de todos, que o meu amor fosse o mais grandioso, que nossa convivência fosse a mais perfeita. Acho isso tudo e muito mais, admito. É como se eu pensasse, num certo clima de *o mágico de oz*, não há lugar como nosso lar: não há amor igual ao nosso. Não há mesmo! É como se olhasse em volta e, envaidecida, dissesse: esse casal aqui não é tão feliz como somos, aquele casal não se ama tão intensamente quanto eu e você, aquele beijo não foi tão gostoso quanto o nosso. Não acho que seja errado pensar assim, porque quem me faz sentir isso é o amor que nos une, o nosso dia-a-dia, o que falamos diariamente, o que fazemos, o que sentimos e explicitamos. Eu te amo e você já esta cansado de saber, e por mais que eu queira sempre ouvir mais e mais, sei que sou retribuída.

Como já disse muitas vezes, eu nunca mensurei o tamanho que esse tal de namoro teria hoje. Como quem pusesse fermento, noivamos e logo logo casaremos... e vem Icaro, e vem nosso lar, e vem NOSSA família. Quem poderia imaginar que aquele primeiro olhar quente, *aquele de paquera cara de pau, aquele de uma noite descompromissada, aquele de umas cervejas e um desejo avulso numa noite de solteirice* viria a formar um compromisso desse? Aquele homem fechado, como se pisasse sempre em ovos ou cacos de vidro, virou um completo sorvete de pinha: delicioso e sempre doce, diferente do glay que por mais que tenha sido SEMPRE maravilhoso no comecinho, era serio e recatado.

Já vivemos o suficiente no passado para hoje sermos um do outro, como o destino queria. E daí que se formos comparar, temos no pretérito perfeito-e-imperfeito mais tempo que temos hoje, juntos? E daí que foram-se anos, e hoje temos apenas seis meses? Preciso dizer que esses seis meses foram muito mais coisa do que todos aqueles anos? Do que todo o ¿ontem¿?

Meu amor, saiba que teremos NOSSOS anos e nossa felicidade, diariamente. Te amo, parabéns por tudo, brigada por tudo, tudo. Sinta-se tudo pra mim.

Vai chegar o dia em que a variedade de palavras será escassa. A partir de agora, e desde sempre, vou lhe mostrar o quanto te amo, com o olhar, com o beijo, com o toque, com a pele, com o que seu ouvido absorve. Se nesse tempo as palavras ajudarem, melhor ainda... mas nunca se esqueça que o TE AMO nunca será do mesmo tamanho:

Cresce o tempo todo.


Por M * 10:19 PM


Por sed non satiata * 1:13 AM

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(março de 2007)

http://www.youtube.com/watch?v=GnzCn00z2rY


Eu não fazia idéia de que eu poderia ficar tão mais feliz do que se ouvisse: é menina. Não sei explicar, mas instantaneamente o choro me veio aos olhos e meu corpo queimou... ardeu de tanto nervosismo. *olha, olha o pirocao ali! Parabéns, vocês terão um menino*, disse o doutor. E eu perguntei umas trezentas vezes seguidas: *serio? Serio? Serio mesmo? Jura? Tem certeza?* imaginei logo a alegria de shoo, a alegria do meu pai... (primeiro homem na família, olha lá!). Choros e emoção e sorrisos e foi lindo ver aquele homem que eu amo, emocionado, realizado. Não sabia que sentiria esta felicidade: poderei realizar o sonho do meu amor. Eis um menino pra você, coisa linda. Nunca me esquecerei da sua cara de espanto ao ouvir a noticia, ao ver a pirocona na tela, ao chorar e chorar e sorrir como um menino pequeno. Ah, como eu te amo....!

Parabéns shoo, vem vindo nosso free bird, simple man, icaro, nosso rebento, nosso guri.

Status: felicidade infinita.




Chico Buarque - O Meu Guri (1981)

Quando, seu moço, nasceu meu rebento
Não era o momento dele rebentar
Já foi nascendo com cara de fome
E eu não tinha nem nome pra lhe dar
Como fui levando, não sei lhe explicar
Fui assim levando ele a me levar
E na sua meninice ele um dia me disse
Que chegava lá
Olha aí
Olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
E ele chega

Chega suado e veloz do batente
E traz sempre um presente pra me encabular
Tanta corrente de ouro, seu moço
Que haja pescoço pra enfiar
Me trouxe uma bolsa já com tudo dentro
Chave, caderneta, terço e patuá
Um lenço e uma penca de documentos
Pra finalmente eu me identificar, olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
E ele chega

Chega no morro com o carregamento
Pulseira, cimento, relógio, pneu, gravador
Rezo até ele chegar cá no alto
Essa onda de assaltos tá um horror
Eu consolo ele, ele me consola
Boto ele no colo pra ele me ninar
De repente acordo, olho pro lado
E o danado já foi trabalhar, olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
E ele chega

Chega estampado, manchete, retrato
Com venda nos olhos, legenda e as iniciais
Eu não entendo essa gente, seu moço
Fazendo alvoroço demais
O guri no mato, acho que tá rindo
Acho que tá lindo de papo pro ar
Desde o começo, eu não disse, seu moço
Ele disse que chegava lá
Olha aí, olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri


Por M * 10:18 PM


Por sed non satiata * 1:10 AM

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(março de 2007)

Insight: lembro-me de querer chorar muito ao sentir a textura do ingresso. Mas não o fiz, nossa como havia gente querendo que eu evaporasse dali (cada pessoa que chegava na bilheteria era expulsa verbalmente pelos demais coleguinhas da fila: vai logo!!! Anda, que demora! Vai, sai logo! Agiliza! Lesma! Tartaruga!! *Palavrões*)!!! Engoli lagrimas e as chorei baixinho, na volta para Natal. Lagrimas de tanta felicidade, de mais de uma década de um sonho consolado em discos e livros buarqueanos. Mas agora, meu bem, a noite é só minha: terei minha cama, meu travesseiro, um copázio de água, creme no rosto, água morna nos pés. E o protagonista: meu choro de satisfação, alegria, euforia, felicidade. *pegando lencinhos e pondo ao lado do travesseiro*


Por sed non satiata * 1:06 AM

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(19 de março de 2006)



Agora sim posso dizer com convicção: finalmente (com ênfase no finalmente) realizarei meu sonho de infância. Um sonho pueril, agora sonho de mulher mãe. Sonho que nasceu no banco do carro, ouvindo na radio o acalanto do homem inquietante. Não lembro se com 7 ou 8 anos, ou menos, mas de tão pueril, esse sonho envelheceu e finalmente amadureceu: finalmente a fruta caiu da arvore para ser degustada. E que delicia de fruta... não houve hora melhor: a comerei, pedaço a pedaço, como uma grávida em seus momentos de desejo.

Ele diria: dorme minha pequena, não vale a pena despertar... mas acordei. Acordei às 3:30 a.m., e foi estrada, meu caro amigo. E foi estrada... asfalto pra metros e quilômetros de paciência. Senti os ares podres (e mirei as paisagens mórbidas) desse lugar chamado recife às 9:30. Desculpe-me você que nasceu nesse lugar, mas me deprimo ao olhar todo aquele quadro vivo, como se pintado por um ser desesperado, morto de fome e desamor. Se eu pudesse dar uma trilha ao percurso dentro de recife, seria: Construção. Ate gente deitada no asfalto vi, banhada em sangue... Construção. Na contramão, atrapalhando o trafego e tudo. Meu caro amigo, me perdoe por favor: com ares de esperança encontrei o teatro. E fiquei 5 horas na fila. Cinco horas na fila. Cinco horas na fila (repetindo no mesmo ritmo do tic-tac do relógio, cinco horas na fila, cinco horas...). Como um mantra, tapei os ouvidos para esse tic-tac e entoei: Dura na Queda. Mas eu me diverti tanto!

Rosa-dos-ventos total a trilha das cinco horas. Não sei de que adiantou tanta ligação para a bilheteria do teatro, para confirmar o horário inicial da venda. Coitada da mocinha que me atendia, todo dia: *suspiro* isso mesmo, senhora, 8h em ponto a bilheteria abre. Isso mesmo, senhora, sem atraso. Isso, senhora, não se preocupe, 8 da manha...

Coitado do meu relógio, não entendi quando ele me mostrou 9:30. A bilheteria ainda não abrira! Paradoxalmente, cada hora plantada na fila foi divertida. Mas que privilegio essa gravidez foi, consegui uma vaguinha na fila especial! Lá estava eu, em meio a bilhões de senhoras fofinhas, cheirosas, maquiadas, cocotas. Cheias de assuntos gostosos... o tempo não voou, mas se arrastou agradavelmente. 5 horas na fila, meu caro amigo, pobre da minha barriga que doeu tanto. Agora imagine as senhoras, coitadas, em pe, cruelmente fincadas naquele chão feio, naquele calor infernal, naquele barulho de jovens rebeldes da fila ao lado (e haja revolta, protesto, musiquinha de provocação etc). Pronto eu falo, não minto: puta desorganização, puta desorganização. Que fãs educados que nada, uma baixaria, pessoas histéricas, quase se batendo. Aos gritos. Xingando. E tudo... a fila especial (especial em que sentido? E a lei de preferência a idosos, gestantes e deficientes?) parada, a fila ¿normal¿ agitada. Desorganização na bilheteria, seguranças grosseiros, incompetentes, desinformados... no final das contas, parafraseio uma frase do senso comum: os macacos sempre têm razão.

Estou relatando tudo isso por pura perda de tempo. É apenas importante lembrar: qualquer amor, qualquer amor pleno é dicotômico: não só ao céu ele lhe leva, mas ao inferno também (amor a um time, a um homem, a um familiar, a um artista)... quer uma prova de que aquilo que você ama é realmente seu objeto de AMOR? Saiba sobreviver ao paraíso (céu), mas mais ainda ao inferno. EU SOBREVIVI!!! Sorrindo e persistente: Tim tim.

Não me arrependo, e ainda digo mais: por mais masoquista que seja, eu passaria por tudo de novo. Por mais horripilante que seja, só em pensamento. Quando foi que alguém me ensinou a desistir de um sonho? Não, meu caro amigo (vontade de citar todas as musicas do Chico, nhem), desse sonho não desisti.

Sonhos, sonhos são.



Mais do que minha paciência, tiveram aqueles que chegaram ao local lá pelas 5 da matina, que penaram numa fila quilométrica e que só foram atendidos por volta das 15h. beijomeliga honroso a vocês...

Sinceramente: a quem ainda não foi, a quem ainda corre o risco de se irritar ao comprar o ingresso: ignore a fila, a peleja, o cansaço. Pense no que vem, efêmero e eterno.

Sobem os créditos (aqueles que sobem nos finais de telejornais e novelas, as letrinhas ligeiras): agradecimentos a Shoo (amorrr) e Renam, que me levaram ao caos (Recife) para que eu realizasse meu sonho... E o fizeram com paciência, e ainda conseguiram provocar risos. E ainda tornaram a estrada menos entediante. Versão brasileira, Herbert Richards.





Noticias a mais:

http://jc.uol.com.br/2007/03/19/not_134863.php

http://pe360graus.globo.com/diversao360/matler.asp?newsId=83915

status: o meu ingresso já esta desgastado ¿ não paro de pegarrrrrrrrr e babar e alisar e ai ai!


Por M * 10:18 PM


Por sed non satiata * 1:02 AM

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(março de 2007)



Encontrar-te me fez criança, porque já eras meu sem eu saber sequer. Porque és o meu homem e eu tua mulher...Porque tu me chegaste sem me dizer que vinhas. E tuas mãos foram minhas com calma, porque foste em minh'alma como um amanhecer. Te amo lindo, que pena que felicidade causa inveja, e o pior: que pena que ate mesmo dentro da familia essa inveja se nutre, e sendo mais direta ainda: Quando foi que a palavra *irmã* se fez cândida, humanitária, amorosa, ein? Quando foi que uma irmã passou a ser a cobra dentro de casa, passou a ser o veneno que mata a família, quando foi que uma irmã se fez capaz de trair sangue do teu sangue (como diria o senso comum)? Quando uma irmã se fez capaz de matar, de machucar, de magoar? Que inveja é essa, alias que sentimento poluído é esse que ate mesmo a irmã não se salvou? Que diabo poderoso é esse que nutriu tanto ódio na cabecinha dessa caçula? Eu precisei ficar toda arranhada, meu bem, eu precisei por meu filho ao risco, meu bem, para dar uma lição nela. Mas eu teria batido mais, eu teria gritado mais. Ainda tenho ganas, se preciso. Quero entender esse seu nariz empinado e esse seu arzinho prepotente. Quero entender, porque você não passa de uma criança, que pensa que é muita coisa porque aprendeu o que é sexo, o que são drogas e o que é o pseudo-amor. Inexperiência corre no seu sangue, querida irmã, não se iluda. Você esta muito abaixo do que chamamos de maturidade, do que chamamos de respeito, do que chamamos de hipocrisia. Você é como um embrião, que ainda nem se desenvolveu. Se eu pudesse, lhe dopava, lhe colocaria numa mesa cirúrgica e lhe faria uma plástica: seu nariz não seria empinado assim, estaria apontado pro chão. Você se curvaria aos seus pais, não gritaria com sua mãe, aprenderia a ama-la. Respeitaria uma irmã grávida, saberia falar laconicamente *sim senhora, mãe*, *sim senhor, pai*, e saberia o significado de ter irmãs mais velhas. Você sabe que uma irmã mais velha é como uma espécie de vice-mãe? Sabe não? Eu lhe ensino. Vem aqui outra vez, que minha sandália pega fogo, arde pra encontrar sua epiderme.

Essa inveja não leva você a lugar nenhum. Não fiz nenhuma frase de efeito ao dizer: essa sua inveja não lhe traz nada. Curve-se ao seu erro de ter se envolvido com um traste, mas não tenha ódio de mim por eu ter feito por onde ser feliz. Você esta agindo como se fosse o fim do mundo, pobre criança: o príncipe encantado, o único amor da sua vida, a pessoa mais madura do mundo. Espera, eu estou me referindo a uma senhora de 50 anos? Se enxerga, você tem menos de 20 anos. Acha que pílulas e sexo lhe fazem adulta? Acha que se fazer de clone paterno lhe faz mais especial? Aprenda a respeitar sua família, porque por mais que seja clichê, mãe só existe uma. Se ela morrer, quero ver você procurar na sua maturidade alguém que substitua. Digo o mesmo para mim. Digo o mesmo para você, pobre ser pueril. Saiba viver direito, para não perder seu tempo com discórdia. E saiba estudar bem direitinho as palavras: você vai precisar delas quando vier me pedir perdão, quando tiver que receber o perdão da sua mãe. Criança rebelde, jaja lhe ponho num cercadinho, lhe cerco de brinquedos, lhe dou uma chupeta. Quer ser madura sem amadurecer? Sem ter responsabilidades? *estou rindo de você agora*...

Admito que sua cara de boa menina tem um alto cunho teatral: faz seus olhinhos de filhinha do papai, e comove não só ele, mas sua sobrinha, suas amiguinhas e sua irmã mais velha. A mim, não... sabe por que? Eu sei por onde você anda, sei o que você faz. Talvez hoje em dia você se arrependa de sempre ter compartilhado comigo (mesmo não querendo) tudo o que você faz. Talvez você pense que foi um erro sempre ter brincado de boneca comigo ate os 11 anos, talvez você ache um ato nefasto ter dormido ao meu lado por 19 anos, no mesmo quarto, talvez você se arrependa de ter seguido meus passos quando criança, de imitar minhas dancinhas no carnaval, de imitar minhas poses fotograficas. Talvez você ainda não tenha acordado pra tudo isso, e pense que mora num castelo, e que seu trono foi construído com mascaras no liquidificador. Admira-se? Pensa que não sei que no seu guarda-roupas não há roupas, e sim mascaras? Uma para que o papai lhe dê tudo o que pede, uma para que a irmã mais velha lhe acolha em sua casa, uma para que a sobrinha lhe chame de irmã. Hipocrisia, leia essa palavra no dicionário. Vai na letra H. depois passa pela R: respeito; responsabilidade. Depois, volte ao começo, na letra M: maturidade.

*

Extra, extra: saiu nos jornais: irmã do meio se dispõe a queimar as mascaras da caçula. Saiu no jornal nacional: irmã caçula finalmente é punida pelos seus atos.

Natal, 1 de abril de 2546.
Matéria: anedotas de primeiro de abril.


*


Status: estou aprendendo a usar esse tom peremptório que você sabe usar para manipular as pessoas. Status dois: aprendi a parar de falar chorando. A parar de chorar falando. Status três: aprendi a falar e não foi por acaso, se cuide.


Por M * 10:17 PM


Por sed non satiata * 12:51 AM

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(março de 2007)


Uma dose de niilismo

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Reconstruindo pensamentos. Buscando respostas (ai, que clichê... que Romântico, que isso que aquilo, que arquétipo.). Que ódio, que ódio, que ódio. Eu te amo e não consigo, por mais que eu insulte e tente escrever horrores, eu te amo, cara de cuia. Ah, que danado de pessoa é você, que não sei se chamo de irmão, de amigo, de gêmeo, de oposto... Mas só sei que você ta dentro de mim, você ta na minha vida, oww...! Mas, e as brigas? E essa nuvem de farpas e essas coisas bobas de dar uma egípcia na distancia, e essa magoa que surge com qualquer coisinha. E tal... Que coisa mais chata isso, sabia? Que droga, que droga a gente viver assim, se arranhando, ate em *papinhos filosóficos*. O que fazer numa situação dessa? A gente se despede? Se troca juras de amor *te amo pra sempre, ai te admiro, ai etc.*

Que saco.. Fico com medo de estarmos nadando na hipocrisia, como se fosse uma obrigação a gente se amar. Socorro! Qualquer sinal de distancia, ficamos na berlinda. Qualquer sinal de oposição filosófica, ficamos de bico. *queria saber falar palavrão da forma mais esculhambada e vulgar possível. Kika, fale um palavrão, fale, essa é a hora certa! ... vai falar não? Tsc tsc*

Tem como fugir não, não nascemos na mesma família por acaso, mesmo não tendo o mesmo sangue. Nosso destino é sermos assim, amaremos e odiaremos, cravo e rosa, romeu e julieta, cão e gato, policia e ladrão... talvez devamos baixar a cabeça pro conformismo. Garçom, me vê ai um pouco de niilismo... e a conta.


Por M * 10:16 PM


Por sed non satiata * 12:50 AM

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(março de 2007)


Mas vale salientar: isso não foi um pedido de desculpas. Não foi uma bandeira branca para nossa conversa boba pseudo-culta. Continuo no meu batente... Não desci, permaneço daquele jeito...Não se trata de orgulho, por mais que eu tenha. Trata-se de intolerância a frases.de.efeito.tiradas.de.sua.primeira.aula.na.escolinha.nova., ou sei lá o que tenha sido.

*Se me oferecessem a sabedoria com a condição de guardá-la só para mim, sem comunicar a alguém, não a quereria*. - Sêneca
*O descrédito que atualmente se abate sobre a Filosofia se prende ao fato de se ligarem a ela pessoas indignas, pois não deviam dela se ocupar os talentos bastardos, mas os legítimos.* - Platão

ps: lembrar de escrever uma novela: *a senhora da verdade*


Por M * 10:16 PM


Por sed non satiata * 12:50 AM

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(março de 2007)

As cobras profetas, parte II

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To te falando, poxa! Sonhei com cobras, conclusão: algo ruim estava para acontecer. E aconteceu... ainda bem que não comigo. (antes do relato, um egocentrismo: o dia foi perfeito... culpa de uma pessoa muito gotosa.)

Minha *idola*, mestra, tudo assim, terminado em A....(minha tia, puro luxo, culta, chic, elegance, tuuuuuuuuuudo)...a coitada, passou por perrengue infinito. Aquela tribo-dos-caras-armados visitou, depois da minha, a calçada dela. Levou o ecosport dela. Apontou uma arma feia para ela. Eu vi choro no rosto dela. Puta mundo maldito. Um bando de cachorros com os *bogas* (hehehehehe) arrombados.

(eu sou uma negação quando quero falar palavrão, HAHAHA...)

Mas que susto...

Cobras, cobras... acertaram em cheio, mais uma vez. Como em desenho animado: *a liga das super-cobras mais uma vez combate a inocência de kika para um mundo perfeito.* ou algo do tipo... (to um pouco zonza, coma induzido por carinho).

Não apenas esse assalto absurdo, mas também um ataque de *nojo* e repugnância a uma certa amizade. Não adianta, por mais que eu tente, não posso lhe chamar de amigo. Que amizade falsa e hipócrita é essa, que lhe faz, na primeira discussão, falar mal de mim como quem fala mal de um político corrupto? Que ser tolo é você para ser tão fútil, tão narcisista e tão influenciável assim para a qualquer momento se achar a ultima cervejinha do deserto? E explodir dessa maneira... há meses não consigo lhe amar como antes, por mais que eu tente; há meses vejo mais defeitos em você do que qualidades. Apodreceu, e tão cedo. Atitudes vaidosas de alguém que deveria ter 80 anos, de livros, experiências, espelho. Mas não na sua idade. Ai ai... nunca mais, repito, nunca mais seremos daquele jeito. Não preciso dessas vaidades pequenas perto de mim, desse arzinho de *sabedoria plena e universal*, nem você precisa das minhas chatices, da minha *sabedoria* um tanto maior que a sua, em termos acadêmicos (ironia). Sejamos admiradores distantes, admiremos um ao outro, mas como em uma vitrine. Mas o principal de tudo: distantes. Próximos, somos roedores, nos corrompemos. Nos odiamos. Nos contrastamos. Nos magoamos... que triste.

No mais, um dia gostoso, com um cara gostoso, fazendo coisas gostosas, com planos gostosos, e nos últimos preparativos pro casamento gostoso... hehehe! *lembrando do gosto do bolo*


Por M * 10:15 PM


Por sed non satiata * 12:50 AM

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(março de 2007)

As cobras profetas, parte I

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Sonhei com cobras. Sonhei com aquele bicho nojento, aquele bicho nojento que se rasteja perante o resto da fauna. Sonhei com aquele treco molenga, úmido, peçonhento.

Sonhei justamente com aquele bicho pelo qual tenho FOBIA, PANICO, como uma doença mortal: tudo, menos cobra... (explico depois, amiguinhos.)

Dizem que sonhar com cobras é sinal de traição. Um amigo, um parceiro, um colega de trabalho, um familiar. Não importa quem, mas sonhar com cobra é premonição na certa.

Duvida? Mas é batata: isso realmente prevê coisa ruim na minha vida... De 100% dos sonhos que tive com cobras, 100% resultou em uma traição. Na maioria, de um amigo, ou familiar. É de partir o coração... Mas talvez eu possa dizer *ainda bem que não foi traição do parceiro*. Tive a sorte (sorte?) de nunca me ocorrer de ser com o meu parceiro. Mas infelizmente, sofri horrores já com desavenças familiares e com amigos... traição abrange varias coisas: aquele seu melhor amigo falou mal de você, aquela sua irmã mais nova dedurou uma coisa intima sua a seus pais, aquela irmã mais velha brigou com você, aquele colega da faculdade lhe prejudicou no final do semestre. Não são exemplos malucos, já passei por isso tudo. E doeu...

Passo o dia bem pianinho, já preparada pra argumentar, justificar, bater ou correr, dependendo do que vier pra cima de mim, mensagem das cobras. Mas afinal, eu tenho fobia por elas, por que elas estariam sendo *amiguinhas* me avisando oniricamente? Senhora cobra, vamos bater um lero. Você sabe que meu trauma de infância foi por sua causa, que tenho pânico de lhe ver por ai rastejando, mesmo que seja na tv, em filme, em desenho animado, em pintura de quadro... Qualquer menção a cobra me faz pirar. Mas ora ora, dona cobrinha, é mito você ser um símbolo premonitório de traição? Ou seria o personagem ideal apenas para mim? E se outra pessoa sonhar com palhaços? Hehe. E se sonhar com abelhas? Bom, faremos um trato: a senhora continua me avisando sobre dias pianinhos, e eu continuo fugindo de você como o diabo foge da cruz.

Ai ai, que tenso. Já avisei: amor passe o dia inteiro comigo, porque se algo me acontecer, quero colo.

Enfim. Vou resumir, quem sabe em outra oportunidade eu explique melhor...
Eu estava vendo, quando criança [uns 5 ou 6 anos de idade], meu desenho predileto (o da hello kitty na nave espacial). Eu estava na poltrona, Juliana no sofá. Depois de uns bla bla blas da hello kitty, ela faz ¿olha¿, e aponta pro meu pe direito, encostado no chão. Tinha, do lado do pezinho, uma cobra, preta, grossa, longa, soprando a língua, rastejando... ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh... não lembro se sai dali voando, pulando, correndo, mas sei que quando vi, já estava lá em cima, já tinha subido as escadas e já estava em cima da cama. Tremendo. Morrendo. Chorando. Depois desse dia, xuxu, eu não posso ver cobra em canto nenhum, que tenho um ataque, que encolho o pe direito, que me arrepio, que corro, que fecho os olhos (da mesma forma inconsciente como quando fecho ao espirrar)... não importa se é cobra de desenho animado, de tatuagem, de brinquedo, de filme, de tv, qualquer cobra, minhoca, fiapo parecido com o bicho. Eu surto... snif


Mas e ai, o que me acontecera hoje??? (ai, cadê o acento agudo no a? laptop esquisito...)
Beijomeliga.


Por M * 10:12 PM


Por sed non satiata * 12:48 AM

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(março de 2007)
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Teu amor em fúria
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ut melius, quicquid erit, pati... Sapias, vina liques, et spatio brevi spem longam reseces... dum loquimur, fugerit invida aetas.

Teu ciúme me sufoca, mas me provoca o gozo mais pleno do mundo. Mas me sufoca. E eu gozo. Mas sufocada. É como se eu estivesse tirando um cochilo na cama (na tua cama), e tu viesses com um saco cheio de ar, e o estourasses no meu ouvido. Assim, de repente, do nada, um susto, um choque, e bum, teu ciúme. Às vezes sem razão aparente, às vezes com uma ponta de justificativa, mas meu bem, justificativa conjugada no passado.. Não tenhas ciúmes do passado. Eu não tenho do teu... Na verdade, sou tão indiferente ao teu que talvez nem cosquinha na barriga eu sinta.

Mas como eu dissera, teu ciúme me sufoca. Me prende. Me solta. Me provoca gozo, e choro, e tristeza. Teu ciúme não morre, mas me mata, e me atiça. Quod me nutrit me destruit, me arranha, teu ciúme vive, cada dia mais, e cada dia mais parecido com um saco de ar explodindo no meu ouvido. Onomatopéias, e bata a porta do carro mais uma vez, saia andando sem rumo na rua, que eu te ligo novamente, e te busco, e te amo na tua cama.


Por M * 10:11 PM


Por sed non satiata * 12:48 AM

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(março de 2007)
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A diarista - faxina cibernetica
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*Percebi que era necessário, uma vez em minha vida, desconsiderar tudo em que acredito e começar novamente desde os fundamentos, se quisesse estabelecer um conhecimento firme e constante.* - Descartes

orkut reciclado, blog pronto para ser atualizado a qualquer momento, myspace pronto para as fotos. Tudo para que amigos (lê-se: poucos amigos) tenham acesso a noticias sobre a dona kika, glay e o neném (no blog, uma pitada de "querido diario", um tanto pessoal; no myspace, um pouco mais sucinto e generalizado, para todos). Cansei dessa exposição boba ao alcance de todos, esse fotolog expondo bobagens, esse orkut tendo mil visitantes desconhecidos. Parece futilidade, mas eu levo a serio. Por falar em fotolog, daqui para abril desativo.

Kika boba, pensas que mais cedo ou mais tarde esses meios *internetisticos* não estarão nos olhares dos curiosos que espiam tua vida? Boba, boba! Tu não precisas ser famosa para atrair a inveja, o olhar curioso, o rastreamento. Trata de ser feliz bem pianinho, assim que se faz. O Shakespeare, aquele primo do interior, te mandou um recado: falais baixo se falais de amor...!

Braço da Vênus de Milo acenando tchau.


Por M * 10:11 PM


Por sed non satiata * 12:48 AM

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(março de 2007)
Um CD cor de rosa, tocando kings of convenience, um copo de água gelada, um travesseiro gostoso, um cabelo molhado, um bom livro de Filosofia, e uma música: Cayman Islands. A palavra de hoje é: tranqüilidade.


*


..."você me faz pensar no homem que se veste de mulher no carnaval: o sujeito usa enormes conchas de borracha à guisa de seios, desenha duas rodelas de carmim nas faces, riscos pesados de carvão no lugar das pestanas, avoluma ainda com almofadas as bochechas das nádegas, e sai depois por aí com requebros de cadeira que fazem inveza à mais versátil das cabrochas; com traços tão fortes, o cara consegue ser - embora se traia nos pêlos das pernas e nos pêlos do peito - mais mulher que mulher de verdade"

"e?..."

"e tem que isso me leva a pensar que dogmatismo, caricatura e deboche são coisas que muitas vezes andam juntas e que os privilegiados como você, fantasiados de povo, me parecem em geral como travestis de carnaval."

[Um Copo de Cólera - Raduan Nassar]
(um de meus preferidos)


Por sed non satiata * 12:48 AM

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(março de 2007)
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Odeio as almas estreitas, sem bálsamo e sem veneno, feitas sem nada de bondade e sem nada de maldade. Já diria Friedrich Nietzsche.

(Como diria uma amiga: * dizem que sou louca, mas me sinto bem em ser incógnita aos olhos de quem não vê. Se você me olhar com sua alma, serei bem nítida... *)

Odeio a alma pequena, que cultiva a hipocrisia e, o mais deprimente que tudo, a inveja. Odeio quem se esforça para esfregar na felicidade dos outros sua cara de desgosto, sua cobiça, sua imparcialidade, seu desdém. Odeio quem não se esforça, mas de alguma forma deixa transparecer seu desagrado, sua inveja. Odeio quem finge que não se incomoda com certas convenções, e quem faz de conta que acha démodé alguma coisa que outrem faça. Odeio quando essa pessoa demonstra isso, muitas vezes por não ter condições, ou por vergonha de parecer antiquada. Quem sabe ate pelo fato de fazer questão de afirmar sua personalidade (e digo convicta que isso não passa de uma mascara...)....


Sábado, Março 03, 2007. Jantar. Ao fundo: musiquinhas legais. Musica ambiente. Mesa para dois. Prato delicioso, suco (ai, lembrando que to grávida....o vinho ficou no *deixa pra depois*) azedinho, perfeito. Olhares penetrantes, carinhos, beijos, sorrisos, amor solto no ar, como um spray potente, forte, cheiroso, que toma todo o ambiente. Alianças e muitas promessas de felicidade, no passado, no presente e no futuro. Relembramos tanta, mas tanta coisa boa que já vivemos, e admiramos o pouco tempo com que as coisas boas se firmaram. 5 meses, somente 5. Precisamos SO de 5 meses para termos a certeza de que éramos um só destino, sou piegas e assumo. Anéis dourados, e ouvi tanta coisa linda que jamais esperei ouvir dele. Tão fofinho você, viu. Quem diria, quando eu afirmava que ele era um gentleman, romântico, doce, meigo, gostoso, sensível, sensível demais, carinhoso, eu não fazia idéia do que estava por vir. E veio nessa noite. Te amo... te amo também. Assim fechamos a noite, ou melhor, o jantar.

Poxa, um anel dourado tem poderes de revelar faces de uma pessoa, como um pó-da-verdade, ou um chá de ervas sinceras, ou sei lá o que, que existe para tirar a mascara de uma pessoa falsa e invejosa, e mostrar a verdadeira face da cobiça. Como naqueles filmes e seriados americanos, em que existe de tudo para que a testemunha fale no estilo *muitofranca*. E eu, coitada, ou melhor, nós dois, não sabíamos o poder que anéis dourados na mão direita possuíam. Eu vi, eu juro que vi o monstro do armário: olhares tortos, cara feia, e pensamentos gritando, frases no estilo *mamãe sou moderna e acho brega casamento*, apenas com o olhar... Foi um tal de bico, distanciamento... ai, que nojo! Conselho: se alguém chegar para você, com o belo discurso de *ai, acho tão brega casar no civil e no religioso, meu casamentinho vai ser havaiano, vai ser hippie, vai ser numa praia de nudismo, vai ser no cemitério, porque eu defendo a tese de que sou moderninha, e se eu optar pelo casamento tradicional, vão descobrir que não passo de uma farsa.*

Acho que me empolguei, não seria assim o discurso, só se fosse ao modo *muitofranca máster ativar, a saga do anel dourado*. Mas se fosse ao modo mascarado, hipócrita e falso, seria *ai, acho tão breeeeeeega casar no civil e no religioso, meu casamentinho vai ser havaiano, vai ser hippie, vai ser numa praia de nudismo, vai ser no cemitério, porque eu sou moderna, sabe? E não vai ter esse negocio de casar no papel, esse negocio de amem. A gente se junta e pronto... por queeeee, nos dias de hoooooje...*

... sim, como eu ia dizendo: Conselho: se alguém chegar para você, com o belo discurso citado acima, dê em troca uma banana. Ou estire a língua. Ou simplesmente diga: cada um com seu cada qual, cada um com sua opinião. Na verdade, respeito ate *sua* opinião, talvez seja lindo mesmo sua opção de cerimônia. Talvez ate eu fizesse igual, sabe? E ainda pediria sua ajuda. Mas é fato que pais convencionais ainda existem, e cá entre nós, quando há amor... (por mais piegas que seja, eu digo mesmo), lhe juro. Eu poderia ate ficar um tanto desconfortável, mas sendo com a pessoa certa, admita, topamos qualquer coisa, xuxu! Deixa que eu to satisfeita, vamos dizer o amem e mostrar que aprendemos a escrever, assinaremos nossos nominhos no cadernão. (pior seria se fosse com as digitais...)

Inveja existe (calma kika, você não pode afirmar que é inveja... pode ser algo parecido, ou oposto, explique que o que realmente lhe intrigou foi a reação alheia não ter sido coerente com a sua felicidade no momento.). Que triste, sabia? Só me questiono se foi por você não poder fazer o mesmo, ou por orgulho, ou por desgosto 'ela'¿... No final das contas, como disse lá no começo, eu odeio, mas nem ligo. Exato, dicotomia pura, meu bem. Isso passa, depois eu esqueço, ou você acaba se acostumando com esse penduricalho dourado.

Passado o nervosismo: refaço o texto. Sucinto: faz isso não, inveje não... *e uso uma entonação baiana*; faz não... olha, viva da tua maneira, eu to vivendo da minha, que tal ein?


Por M * 10:10 PM


Por sed non satiata * 12:47 AM

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(março de 2007)
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"Era a terceira vez que aquele substantivo e aquele artigo se encontravam no elevador. Um substantivo masculino, com um aspecto plural, com alguns anos bem vividos pelas preposições da vida. E o artigo era bem definido, feminino singular: era ainda novinha, mas com um maravilhoso predicado nominal. Era ingênua, silábica, um pouco átona, até ao contrário dele: um sujeito oculto, com todos os vícios de linguagem, fanáticos por leituras e filmes ortográficos. O substantivo gostou dessa situação: os dois sozinhos, num lugar sem ninguém ver e ouvir. E sem perder essa oportunidade, começou a se insinuar, a perguntar, a conversar. O artigo feminino deixou as reticências de lado e permitiu esse pequeno índice.

De repente, o elevador pára, só com os dois lá dentro: ótimo, pensou o substantivo, mais um bom motivo para provocar alguns sinônimos. Pouco tempo depois, já estavam bem entre parênteses, quando o elevador recomeça a se movimentar: só que em vez de descer, sobe e pára justamente no andar do substantivo. Ele usou de toda a sua flexão verbal, e entrou com ela em seu aposto. Ligou o fonema, e ficaram alguns instantes em silêncio, ouvindo uma fonética clássica, bem suave e gostosa. Prepararam uma sintaxe dupla para ele e um hiato com gelo para ela. Ficaram conversando, sentados num vocativo quando ele começou outra vez a se insinuar. Ela foi deixando, ele foi usando seu forte adjunto adverbial, e rapidamente chegaram a um imperativo, todos os vocábulos diziam que iriam terminar num transitivo direto.

Começaram a se aproximar, ela tremendo de vocabulário, e ele sentindo seu ditongo crescente: se abraçaram, numa pontuação tão minúscula que nem um período simples passaria entre os dois. Estavam nessa ênclise quando ela confessou que ainda era vírgula; ele não perdeu o ritmo e sugeriu uma ou outra soletrada em seu apóstrofo. É claro que ela se deixou levar por essas palavras, estava totalmente oxítona às vontades dele, e foram para o comum de dois gêneros. Ela totalmente voz passiva, ele voz ativa. Entre beijos, carícias, parônimos e substantivos, ele foi avançando cada vez mais: ficaram uns minutos nessa próclise, e ele, com todo o seu predicativo do objeto, ia tomando conta.

Estavam na posição de primeira e segunda pessoas do singular, ela era um perfeito agente da passiva, ele todo paroxítono, sentindo o pronome do seu grande travessão forçando aquele hífen ainda singular. Nisso a porta abriu repentinamente. Era o verbo auxiliar do edifício. Ele tinha percebido tudo, e entrou dando conjunções e adjetivos nos dois, que se encolheram gramaticalmente, cheios de preposições, locuções e exclamativas. Mas ao ver aquele corpo jovem, numa acentuação tônica, ou melhor, subtônica, o verbo auxiliar diminuiu seus advérbios e declarou o seu particípio na história. Os dois se olharam, e viram que isso era melhor do que uma metáfora por todo o edifício. O verbo auxiliar se entusiasmou, e mostrou o seu adjunto adnominal. Que loucura, minha gente. Aquilo não era nem comparativo: era um superlativo absoluto. Foi se aproximando dos dois, com aquela coisa maiúscula, com aquele predicativo do sujeito apontado para seus objetos. Foi chegando cada vez mais perto, comparando o ditongo do substantivo ao seu tritongo, propondo claramente uma mesóclise-a-trois. Só que as condições eram estas: enquanto abusava de um ditongo nasal, penetraria ao gerúndio do substantivo, e culminaria com um complemento verbal no artigo feminino. O substantivo, vendo que poderia se transformar num artigo indefinido depois dessa, pensando em seu infinitivo, resolveu colocar um ponto final na história: agarrou o verbo auxiliar pelo seu conectivo, jogou-o pela janela e voltou ao seu trema, cada vez mais fiel à língua portuguesa, com o artigo feminino colocado em conjunção coordenativa conclusiva."

--redação feita por uma aluna do curso de Letras, da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco - Recife) e que obteve vitória em concurso interno promovido pelo professor titular da cadeira de gramática portuguesa.


~~*~~ usando o linguajar do senso-comum: "tipo assim", já banalizei a palavra *orgasmo* ao me referir a bons textos, boas musicas, boa cultura e tudo mais. Mas o que diria de um texto assim? Misto de risos e muita saudade das minhas Letras. Mas deixe estar, tenho planos pra elas, eis que vem a professorinha mais marota da capitar! Muitograta pelo e-mail cretino, nobre poeta. Gostei, que venham mais... foi como um tapa na pantera (não disse que hoje faço homenagem ao medíocre senso comum?)

Sendo bem sucinta mesmo, ainda na base do senso comum mesmo, do tipo falar frases horrorosamente ridículas, do tipo (e repetir *do tipo* quinhentas vezes, como se eu não tivesse bagagem lingüística, como se não tivesse estudado anos num colégio de bacana, ou do tipo de pessoa que nunca evolui, por mais que a boa cultura tente influenciar.): *to me passando muito* ou *ta tudo bombando*. Esses dias sem pc não me fizeram tanta falta, sabemos que a realidade encontra-se num novo apartamento, ali, cheio de planos e quase todo pronto. Por aqui, deixo palavras brandas, que pouco representam minha felicidade. Deixo como uma pitada de sal na feijoada que tenho feito, gostosa e farta. Mas se é preciso colocar 3 pitadas (a priori), tenham idéia do que digo por aqui... muito pouco, o resto fica na imaginação de vocês. Se eu falar muito sobre essa panela farta de bom tempero, acabo perdendo o tal do *segredo de família*, ou *receita secreta da vovó*. Ai, que bom um devaneio assim, para ninguém entender e ao mesmo tempo as suposições surgirem. Ai ai, o senso comum.

Essa minha aparição cibernética quase que se torna uma tautologia. Mas que nada...


Por M * 10:10 PM


Por sed non satiata * 12:47 AM

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(Fevereiro / março de 2007)
Um copo de cólera

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Passarinhos cantarolariam na janela. Ao fundo, rua silenciosa, calma, as folhas fariam ruídos, ao transarem com o vento. Eu poderia descrever todos os rabiscos dessa tarde gostosa - e aliviante. As folhas gemeriam, trariam a paz necessária a este sábado inesquecível, logo mais a noite. Tardezinha agradavelzinha. Sem mais...

Ouvindo Cayman Islands compulsivamente. Peguei-me sem saber o que fazer com os dois dedos com os quais eu segurava o meu cigarrette. Talvez se eu fizesse outra xícara de capuccino... Mas seria cafeína demais para uma grávida.

Sexta-feira atípica, de repente. Tudo parecia normal, ou dentro do esperado. Eu me encontraria com ele, como todos os dias, e beijaria, e resolveria coisas para nos casarmos em abril, e diria que o amo demais, que vou ficar com saudade. Diria que agora esta quase tudo resolvido. Beijaria sua boca gostosa. Me despediria, e sairia com minha irmã para uma tarde de Noiva. E provaria mais vestidos de noiva do que sou capaz de imaginar. Cada um mais lindo... a mulher é um bicho tolo, se derrete, mesmo que não goste do convencional.

Chegaria cansada em casa, apaixonada, suada, satisfeita, enfadada. Descansaria, leria, comeria algumas frutas cítricas. Conversaria com pessoas inteligentes nessa coisinha funny chamada MSN. Pessoas inteligentes nunca roubam meu tempo, impressionante. Horas, ou ate minutos falando sobre filosofia, musica, bom senso. Gostei.

Lá pelas onze, me arrumaria para mais uma noite gostosa de musica, Beatles, rock, beijos, companhias boas. E esperaria meu pai na garagem, já que meu motorista predileto estaria trabalhando desde cedo... só me restara *painho, me leva?* Mas, eu disse mas, de repente...

Pneu cantando no asfalto, carro freando. Quatro donzelos frenéticos saltam armados... Correria danada, me cortei, me torci o pulso, me bati o corpo inteiro entre carros e portas, ate entrar em casa com o resto da família. Coração acelerou de uma maneira, como se meu ventre fosse sair pela minha garganta. Por pouco não segurei o cordão umbilical, para que Sophia não saísse voando, ou correndo. Malandrinhos, por sorte ou por alguma força parecida, apenas queriam um *novo carro*. Deixaram o *velho carro* - roubado meia hora antes - aqui em frente, e fizeram o pobre do Diego *ceder*, educadamente - com uma nada assustadora arma na cabeça -, seu carro, seus documentos, seu celular. Seriam bandidos fugindo, ou o escambal... Fora sorte, ou o que? Um azar amenizado? O coitado perdera o carro aqui em frente (ah, o Diego é amigo da minha irmã caçula, e estavam papeando na calçada... corajosos, ahn?), mas não houve tiro, não houve invasão de domicilio, não houve violência - digo, violência maior, hehe.. - alivio imenso, foi-se apenas um carro com seguro. Mas ficou, junto com o alivio, a revolta. Para quem só via *acontecer com os outros*, ou em novelas de Manoel Carlos, ou em Telejornais e sites informativos, vi muito mais do que queria, muito mais do que podia, muito mais do que devia.

Um copo d`água, e boa noite. Ah, o corte parou de sangrar.


Por M * 10:09 PM


Por sed non satiata * 12:46 AM

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[Domingo, Julho 08, 2007]


O querido diário foi deletado, restaram os textos de outrem. Uma fase sem verborragia será boa, enjoei de dedilhar o teclado. Peço desculpas se o que eu escrevia entretia alguém, mas eu pelo menos nunca cheguei a reler algum escrito, então aquilo foi se tornando grande, foi perdendo o controle, foi expondo tanto, resolvi dar um tempinho... depois de digitar essas reticências me arrependi. Depois desse ponto final, voltei a me sentir segura: vai ser bom parar com a verborragia. Felicidade, prazer, gozos, tudo isso continua de vento em polpa, mas fora do computador. Confesso até que não era saudável meu hábito, apesar de gostoso (às vezes uma coisa gostosa faz mal, tipo coca-cola). Era uma privacidade não só minha, mas também de personagens da minha vida, e eu fui expondo sem as rédeas da censura. Prazeroso era escrever tudo aquilo, a felicidade me tomava de uma forma que eu só conseguia enxergar o resultado final: querido diário, organizado, bonitinho, datado. Salvei tudo em um blog improvisado, quiçá eu volte a postar tudo. Por ora fica guardado só pra mim, quero ver como será a experiência de "ser feliz em silêncio". Talvez seja até melhor, bem melhor do que falar tudo. Era uma coisa meio boba, mas ao mesmo tempo gostosa. enfim, se alguem gostava de ler, repito: se entretia alguém, peço compreensão.

Convenhamos, é um vício tão singelo que cresce despercebido entre as palavras, me imaginei daqui a um ano, tendo escrito muita coisa: exposição desnecessária, pois a internet é tão... digamos, aberta! Talvez eu não gostasse de algum leitor. Talvez eu não soubesse exatamente quantas pessoas estavam lendo minha vida, ou vivenciando minhas experiências. Eu sabia de algumas, e até me agradava a idéia, eram pessoas queridas. Mas pensei na hipótese de pessoas estranhas lerem meus relatos, de pessoas indesejáveis, negativas etc. Talvez eu quisesse um pouco mais de limitação, ou talvez eu precisasse de um pouco de ar puro... muita gente nasceu nesse mundo para sentar numa cadeira, com um binóculo virtual, buscando em orkut, fotolog, msn e derivados cibernéticos informações alheias, por pura satisfação superficial ou sei lá o que... é chato, eu evito fazer isso e me incomodo quando sou observada (por desconhecidos). Para essas pessoas, uma pergunta: e daí que eu existo? pra quê você me procura, anonimamente? (direcionando a pergunta apenas a desconhecidos, ok?)


antes que eu escreva mais e mais e mais, me faço despedida:

fiquem bem! prometo estar também (é quase eterna a felicidade, como na época em que usei isso aqui para diário)!

kika

Por M * 1:23 AM


Por sed non satiata * 12:46 AM

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[Sábado, Abril 07, 2007]


José Rodrigues Miguéis
[ Mudança de posto ]


Toda a manhã tinha chovido. Pelas duas da tarde a chuva persistia: ligeira, monótona e tranquila. Havia um silêncio pouco habitual na casa, no ar, no ambiente. Das janelas avistava-se um mundo quase opressivo de brancura e pureza: o Tejo, oculto pela cortina da névoa e da chuva, o casario a esbater-se, com a distância, numa paisagem de fantasmagoria urbana - telhados e chaminés, panos de paredes flutuando, sem peso... Daquele abismo sem forma nem limites vinha a espaços o mugir das sereias de vapores e o ranger de cadeias e guindastes no cais e estaleiros.

A família tinha saído logo depois do almoço, para ir passar o fim- de-semana em despedida na quinta dos MacPherson, em Vila-Rica. Eu pretextara afazeres urgentes para me esquivar a ir. Não queria deixar Lisboa. Errando sozinho pela casa, perplexo e antecipadamente nostálgico como sempre que me preparo para mudar de posto, dei comigo na cozinha, à procura já não sei de quê. Ouvi bater à porta de serviço, avistei um vulto através das cortinas, e fui abrir. Era uma rapariga morena, de feições finas, o cabelo escuro empapado de chuva como o xaile esburacado e os trapos que a vestiam. De pé, encostada à ombreira, a olhar-me com um misto de interrogação e zombaria nos olhos rasgados, um pouco oblíquos, orientais, tão comuns nesta gente, e que sempre me intrigam e perturbam. Não teria mais de dezenove anos. Descalça, com o pé esquerdo apoiado no peito do pé direito, como se quisesse evitar assentá-los ao mesmo tempo nos mosaicos alagados do patim desabrigado. Estava grávida - de barriga à boca, no pitoresco dizer da terra.

- Compre-me uma cautelinha - disse.
- Não jogo.
- Então dê-me alguma coisinha pelo amor de Deus.

Aquela pobreza e a gravidez precoce confrangeram-me. Pensei no hábito detestável que têm as nossas mulheres de empinar o ventre ostentosamente, quase agressivamente, como a exibir um milagre nunca visto ou a lançar-nos em rosto a responsabilidade do seu estado, de que no fundo se orgulham tanto. Ficámos a olhar um para o outro até que eu disse. - Entre, não fique aí à chuva.

Ela entrou sem hesitar. Fechei a porta.

- Que idade tem?
- Vou nos dezoito.

Apontei-lhe o ventre, que parecia atravancar a cozinha:

- E isto?

Ela esboçou um sorriso e encolheu os ombros:

- Oh...
- Tem pai?
- Tem e não tem.
- Sabe quem é?

Ergueu as sobrancelhas numa expressão de dúvida quase bem-humorada:

- Calculo. Mas não tenho a certeza.

Havia então mais de um. Não insisti. O coração batia-me.

- Sente-se.

Sentou-se num banco de pinho entre a mesa e a janela, olhei em volta, que podia eu oferecer-lhe? Em cima do fogão estava uma panela. Destapei-a: era sopa de legumes que a Balbina, previdente, me tinha preparado.

- Comia um prato de sopa?
- Pudera não!

Acendi o gás, tirei pratos e copos do armário, talheres e um guardanapo da gaveta, e pus-lhos em frente. Cortei um quarto de pão, deste pão trigueiro e cheiroso como o não sabemos fazer na terra-mãe dos cereais. No frigorífico encontrei peixe cozido com batatas: pus-lho também na mesa, frio como estava. Depois, o galheteiro e uma garrafa de vinho tinto. Ela olhava para mim sem falar, vagamente irónica, infantil, mas adulta. Embaraçado, acendi um cigarro.

- A família tem? - indaguei, esforçando-me por aparentar indiferença.
- Tenho mãe e quatro irmãos. Um mais velho i três mais novos.
- Vivem juntos? - Hm, hm. O mais velho nunca pára em casa. Anda lá não sei por onde.
- E pai?

Abanou a cabeça negativamente.

- Trabalham?
- O mais velho, mas é só quando calha.
- As cautelas dão para viver?
- Quase nada.
- Esmolas?
- Que remédio.

A sopa estava quente, servi-lha. Comeu calada, com sofreguidão, arrancando dentadas ao pão, que engolia quase sem mastigar, ou assim me pareceu. Eu olhava-a e fumava, de pé, sem pensar. Alguma coisa pensava por mim. Dei-lhe segundo prato de sopa e enchi-lhe o copo de vinho. Ergueu os olhos castanhos e sorriu-me:

- Vai-me dar na fraqueza!

Os dentes eram brancos e perfeitos.

- Eu faço-lhe companhia.

Enchi um copo de whisky e bebi-o quase todo de um trago. Ela riu-se. As cores tinham-lhe subido ao rosto delgado e regular, de uma frescura de flor molhada. Lavada da chuva e curtida de ar livre e sol, a sua epiderme tinha um tom cálido. As gotas de chuva luziam suspensas do cabelo crespo e emaranhado. Pude admirar à minha vontade os traços duma beleza delicada e firme, banhada de um estranho misto de malícia e doçura, que é tanto do carácter português. Comendo, ela conservava um pé em cima do outro. O calor da cozinha tinha-os enxugado, e estavam menos vermelhos, embora com as veias salientes. Pareciam grandes e bem modelados, com esse desvio do dedo maior, peculiar dos pés habituados a andar descalços e a "agarrar" o chão, que vemos nas estátuas gregas. As pernas eram delgadas, bem feitas e brunidas. A olhá-las, tive o sentimento repentino da intimidade daquele corpo juvenil deformado pela gravidez e deu-me uma leve tontura. Os dois ali a sós...

Acabou de comer e sorriu-me de novo, afogueada:

- Agora posso lavar os pratos?
- Então não bebe o café?
- Não senhor. Faz-me nervos. Pôs-se em pé. à vista daquele ventre tão cedo habitado e palpitante, o sangue latejou-me nas fontes. Para me distrair fui acender o esquentador de água. Risquei três ou quatro fósforos sem resultado, chamusquei um dedo, e ouvi-a rir nas minhas costas. Pouco depois ela lavava a louça com desembaraço, de ventre apoiado à pia de mármore. Eu não podia desfitá-la. Era só agarrá-la e... Voltei a sentar-me, tomei segundo whisky e acendi novo cigarro, tentando dominar o tremor das mãos. Passava das três e a luz do dia na cozinha tinha uma brancura leitosa e sedativa. Lavada a louça, ela olhou-me:
- E agora?

Não falou em se ir embora. Como se esperasse outra coisa. Eu tinha a boca seca, mas resolvi não beber mais. A ideia explodiu-me na cabeça:

- Gostava de tomar um banho?

Percebi para onde me empurrava a fantasia.

- Onde? numa banheira?
- Sim, na sala de banho.
- Nunca tomei.
- Nunca tomou banho?
- Na banheira. No mar sim, era eu miúda.

Pareceu alarmada ou irritada. Mas logo se riu, com um brilho travesso nos olhos e nos dentes:

- Pois sim.
- Não tem receio, depois de comer? Há pessoas que...
- Receio de quê? Ando sempre à chuva...

Levantei-me, resolvido a tudo. Estava em pleno sonho.

- Então venha.

Demos a volta pelo corredor e entrámos no quarto de banho, antro vasto e de aromas confusos. Ela ficou a olhar os esmaltes e os niquelados, as porcelanas, os vidros reluzentes; passou um dedo vagaroso na bacia do lavatório, mirou-se um instante no espelho, abriu o armário-farmácia com os inúmeros frascos e tubos de remédios, artigos de emergência, pastas e pós de dentes, e aparelhos de barbear. Depois contemplou a mesa de toilette com a saia vaporosa, ajoujada de perfumes, águas de colónia, loções capilares, pomadas e cremes para a pele e para a barba, adstringentes e deodorantes, escovas, bisnagas, pinças depilatórias, tesouras e limas, vernizes de unhas, gargarejos, atomizadores, pós de arroz e de talco, um senfim de batons de diversos matizes - todo o complicado arsenal de camarim de uma vida desafogada mas atormentada de angústias e pavores de impureza, doença, fealdade e morte. Aquele mundo asséptico, antisséptico, artificial, fez-me corar de vergonha. Percebi que odiava, e porque odiava, perfumes: um disfarce da simples natureza. Ela virou-se para mim:

- Tudo tão limpo! Parece um hospital.
- É um hospital - e pude sorrir. Apeteceu-me reduzir tudo aquilo a cacos. O olhar dela, ausente e macio, demorou-se em mim:
- O senhor é casado, pois é? É estrangeiro... Pela fala!

Fingi não ouvir ou não entender a pergunta, que traía tristeza e censura. Curvei-me para a banheira, fechei a válvula e abri as torneiras. A água quente jorrou com força, o vapor invadiu a atmosfera e foi-se condensar nas vidraças foscas da janela, nos espelhos e metais. A morna humidade do ar entorpecia, convidava ao relaxamento, à volúpia, à meditação. No esmalte branco, a água em repouso tinha a transparência luminosa duma áqua-marina. Apetecia entrar nela como num sonho, esquecer a chuva, o dia grisalho e monótono, a minha próxima partida. Disse-lhe:

- Agora dispa-se. Quer que eu me vá embora?

Ela riu-se, abanou a cabeça:

- Preciso da sua ajuda!

Tirei do armário duas toalhas e uma esponja. As mãos tremiam-me. Prometi a mim mesmo não tornar a beber antes de... Ela começou a despegar do corpo os trapos aderentes de humidade: a blusa encardida, a saia remendada, a camisa esburacada... De repente estava nua. Serena e risonha, com a mão esquerda a segurar o ventre, ergueu cautelosamente uma perna, depois a outra, e entrou na banheira que era funda. Ficou de pé, com água pelos joelhos, envolta em rolos vagarosos de vapor. Olhou-me com a audácia do pudor que desiste. Deixei de respirar por instantes. Saberia quanto era bela? Já alguém a teria admirado assim? Menos magra do que parecia à primeira vista, tinha os ossos delicados, mas era rija e madura e combinava as graças e a frescura da pouco mais que adolescente com a imponência da maternidade prometida. Nunca esta me parecera tão sedutora. Os peitos eram redondos, quase rígidos e de bicos aguçados. O ventre mostrava a curva alta da gravidez avançada, mas agora, é curioso, menos óbvia e agressiva. O púbis era uma sombra esfumada. Ficámos ambos imóveis a olhar-nos, ela orgulhosa, eu mudo de assombro. Até que consegui dizer:

- Agora deite-se ao comprido.

Receava com certeza escorregar e cair, pois fez uma careta e agachou- se um pouco, agarrada ao rebordo da banheira. Dei-lhe as mãos a ampará-la, sentindo-lhe a macieza e o calor magnetizante da pele. Estendeu-se no fundo da banheira. O corpo, levemente deformado pela refracção e as interferências da água agitada, parecia estremecer, ondular em movimento de alga ou ninfa. Dei-lhe o sabonete e a esponja, e ela fitou-me, embaraçado inclinei-me e, sem falar, pus-me a lavá-la como a uma criança ou uma doente. Pareceu-me reconfortada e feliz. Ajudei-a a pôr-se novamente de pé, toda luzente de água e a desprender vapores. Abandonou-se às minhas mãos. Não houve recanto, plano ou volume do seu corpos que eu não acariciasse assim, devagar, sentindo-a estremecer sob as minhas palmas ensaboadas. A lisura polida das costas, a tensa proeminência do ventre, a curva robusta das coxas, o grosso das pernas. Era como um cego a tactear uma estátua viva. Ao tocar-lhe os seios, que tinham um brilho, uma elasticidade e uma dureza inesperadas, sentia-a respirar fundo e fraquejar, com as mãos crispadas no meu antebraço. Prolonguei quanto pude o ritual, de uma doçura e voluptuosidade quase místicas, para mim sem precedentes. No meu desejo havia um carinho infinito. A água ficava turva e grisalha. Despejei-a, tornei a encher a banheira, e repeti a operação, até que ela resplendeu de pureza.

Quando saiu enfim do banho, apoiando-se em mim, enxuguei-a com cuidados minuciosos, embriagado pelo aroma quente da sua epiderme, agora liberto. Meti-lhe os pés num par de pantufas e embrulhei-a num roupão de toalha. Ela deixou-me fazer tudo, calada, com uma docilidade infantil e uma gravidade gostosa. Não sei que distantes desejos em mim (ou nela) soterrados eu satisfazia assim.

- Não se vista! - disse-lhe eu, e corri ao roupeiro do quarto vizinho. Lúcido mas impensado - sentia-me voltar a algo de irreal e generoso, uma adolescência restituída - procurei roupas que lhe servissem. Havia ali de tudo, em pilhas metodicamente arrumadas nas prateleiras, artigos usados que a nossa saciedade de puritanos reservava para distribuir, em vésperas de partida, pelos pobres e pelas instituições de caridade, se não vender por meio de anúncio no Anglo-American News. (E era excesso de bagagens que evitávamos!) Escolhi um par de panties elásticos e uma combinação arrendada, ambos cor-de-rosa, mas não me atrevi a tocar nos soutiens, de que aliás ela não precisava. Depois um par de meias de nylon, uma saia de lã axadrezada, e uma blusa de algodão azul-pálido, muito fino. Mas como substituir o xaile? Achei uma jaqueta ou bolero em boas condições. A família nem daria pela falta de nada. E se desse... Creio que não cheguei a pensar nisso.

Voltei com o braçado de roupas para junto dela. A atmosfera tornara- se de banho turco ou sauna, opaca e abafante. Encontrei-a de cabeça baixa, sentada no banquinho ao lado da banheira, com os pés descalços na felpa do tapete. Tinha se desembaraçado do roupão até à cintura. Sorriu-me:

- Estava a suar!

Levantou-se, veio direita a mim através da névoa, trigueira e esbelta, de ventre erguido, enlaçou-me nos braços e aproximou o rosto do meu até se tocarem. Os seus olhos lunares, desmesurados, encheram-me o campo de visão como quando as crianças fazem "olhos-de-mocho". Murmurou:

- Como é que eu lhe hei-de pagar isto? Não quer nada de mim? A sua boca perdeu-se de repente à minha, com a força duma ventosa; os seios comprimiram-se contra o meu peito. A trouxa das roupas, que eu não tivera tempo de largar, separava-nos; devo dizer que nos salvou? (De quê?) Mudo, eu estalava de desejo e tremia no esforço de me conter. E porque me continha? Ficámos assim um longo momento, a aspirar-nos mutuamente em silêncio. O corpo dela vibrava e enlanguescia alternadamente. Separei-a de mim quase com violência e disse-lhe:

- Aqui tem as roupas. Veja se lhe servem.

Fitou-me um instante com um olhar líquido e bom em que primeiro o espanto, porventura o desejo, a gratidão, talvez, e por fim a ironia se espalharam, e começou a vestir-se. A sua expressão tornou-se quase instantaneamente a duma criança que brinca com roupas de adultos. Eram talvez um quase nada folgadas de mais para aquele corpo apenas saído da adolescência. Mas os seios encheram a blusa a estalar, e o ventre estirou a saia de lã grossa. A jaqueta era aconchegada e assentava-lhe bem. Diante do espelho, passou um pente no cabelo ainda húmido, mas agora mais claro, de um castanho crestado. Era outra: mulher, bela e fresca. Só o sorriso de contentamento era ainda infantil. Não tendo achado um par de sapatos que lhe servissem - eram todos, afinal, demasiado grandes para aqueles pés de Vénus vagabunda e jovem! - dei- lhe um par de sandálias rasas.
Fez uma trouxa com as roupas que despira. Voltámos à cozinha.

- Ainda não me disse o seu nome.
- Amália.
- Como a...?
- Sim.
- O meu é Bob. Rima com Job. É melhor sair pela escada de serviço. A porteira não a viu entrar?
- Ninguém me viu.
- Se ela aparecer e lhe disser alguma coisa, mande-a apitar cá para cima.

Abri a porta-janela. Já não tremia. A chuva continuava a cair, agora fina, mansa, com um sussurro casto e fatigado. O Tejo, ainda invisível, era um pressentimento de tons verdes na neblina ondulante. Já no patim, ela voltou-se com gravidade:

- O senhor tem filhas?

A pergunta sobressaltou-me.

- Tenho duas. Uma é quase da sua idade.

Ficou a pensar um momento, de cabeça baixa, depois disse: - Então adeus, e obrigada!

- Não tem de quê. Adeus.

Na escada, de novo mendiga à chuva, tornou a parar e olhou-me. Julguei ver-lhe os olhos molhados. Em todo o caso sorriu com ironia:

- Obrigada por me ter respeitado!

Estrangulado de ternura e pena, não pude responder. Fechei a porta, amargo e confuso, arrependido talvez de não ter vencido os meus escrúpulos, de a ter "respeitado", de querer talvez mais ao desejo do que à posse, mais à virtude que à alegria. Só então percebi que era amor, e não apenas desejo, o que eu sentia. E que o amor me inibira.

A solidão da casa pareceu-me irrespirável, a neblina e a chuva, lá fora, um muro de prisão, a vida um deserto. Porque ia eu deixar isto, a que me prendiam invisíveis laços? Enchi de novo o copo de whisky. E de repente, quando o levava à boca, sem saber porquê, estilhacei-o contra o alisar da chaminé. Porque é que eu não tinha acompanhado a família a Vila-Rica? Que esperanças tinha eu, secretas? Sou um homem que não pode passar sem as suas cadeias!

Na semana seguinte embarquei para Istambul, a ocupar o meu novo posto. Como se não tivesse completado a minha missão em Lisboa. Ou no mundo.



Expresso, 6/1/73,
in Miguéis, José Rodrigues, Paç/ssos confusos, 2.a
edição, Obras Completas de José Rodrigues Miguéis,
Editorial Estampa, Lisboa 1982, pp. 11-20


Por M * 4:50 PM


Por sed non satiata * 12:44 AM

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[Quinta-feira, Abril 05, 2007]


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DE VINÍCIUS DE MORAES PARA CHICO BUARQUE

Mar del Plata, 24 de janeiro de 1971

Chiquérrimo,

Dei uma apertada linda na sua letra, depois que você partiu, porque achei que valia a pena trabalhar mais um pouquinho sobre ela, sobre aqueles hiatos que havia, adicionando duas ou três idéias que tive. Mandei-a em carta a você, mas Toquinho, com a cara mais séria do mundo, me disse que Sérgio [Buarque de Hollanda] morava em Buri, 11, e lá se foi a carta para Buri, 11. Mas, como você me disse no telefone que não tinha recebido, estou mandando outra para ver se você concorda com as modificações feitas. Claro que a letra é sua, e eu nada mais fiz que dar uma aparafusada geral. Às vezes o cara de fora vê melhor essas coisas.

Enfim, porra, aí vai ela. Dei-lhe o nome de "Valsa hippie", porque parece-me que tua letra tem esse elemento hippie que dá um encanto todo moderno à valsa, brasileira e antigona. Que é que você acha? O pessoal aqui, no princípio, estranhou um pouco, mas depois se amarrou na idéia. Escreva logo, dizendo o que você achou.

Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a dum jeito mais quente do que comumente costumava olhar
E não falou mal da poesia como mania sua de falar
E nem deixou-a só num canto; pra seu grande espanto disse: vamos nos amar...
Aí ela se recordou do tempo em que saíam para namorar
E pôs seu vestido dourado cheirando a guardado de tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços como a gente antiga costumava dar
E cheios de ternura e graça foram para a praça e começaram a bailar...
E logo toda a vizinhança ao som daquela dança foi e despertou
E veio para a praça escura, e muita gente jura que se iluminou
E foram tantos beijos loucos, tantos gritos roucos como não se ouviam mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu em paz.





DE CHICO BUARQUE PARA VINÍCIUS DE MORAES

Caro poeta,

Recebi as duas cartas e fiquei meio embananado. É que eu já estava cantando aquela letra, com hiato e tudo, gostando e me acostumando a ela. Também porque, como você já sabe, o público tem recebido a valsinha com o maior entusiasmo, pedindo bis e tudo. Sem exagero, ela é o ponto alto do show, junto com o "Apesar de você". Então dá um certo medo de mudar demais.

Enfim, a música é sua e a discussão continua aberta. Vou tentar defender, por pontos, a minha opinião. Estude o meu caso, exponha-o a Toquinho e Gesse, e se não gostar foda-se, ou fodo-me eu.

"Valsa hippie" é um título forte. É bonito, mas pode parecer forçação de barra, com tudo que há de hippie por aí. "Valsa hippie" ligado à filosofia hippie como você a ligou, é um título perfeito. Mas hippie, para o grande público, já deixou de ser filosofia para ser a moda pra frente de se usar roupa e cabelo. Aí já não tem nada a ver. Pela mesma razão eu prefiro que o nosso personagem xingue ou, mais delicado, maldiga a vida, em vez de falar mal da poesia. A sua solução é mais bonita e completa, mas eu acho que ela
diminui o efeito do que se segue. Esse homem da primeira estrofe é o anti-hippy. Acho mesmo que ele nunca soube o que é poesia. É bancário e está com o saco cheio e está sempre mandando sua mulher à merda. Quer dizer, neste dia ele chegou diferente, não maldisse (ou "xingou" mesmo) a vida tanto e convidou-a pra rodar.

"Convidou-a pra rodar" eu gosto muito, poeta, deixa ficar. Rodar que é dar um passeio e é dançar. Depois eu acho que, se ele já for convidando a coitada para amar, perde-se o suspense do vestido no armário e a tesão da trepada final. "Pra seu grande espanto", você tem razão, é melhor que "para seu espanto". Só que eu esqueci que ia por itens.

Vamos lá:

Apesar do Orestes (vestido de dourado é lindo), eu gosto muito do som do vestido decotado. É gostoso de cantar vestidodecotado. E para ficar dourado, o vestido fica com o acento tendendo para a primeira sílaba. Não chega a ser um acento, mas é quase. Esse verso é, aliás, o que mais agrada, em geral. E eu também gosto do decotado ligado ao "ousar" que ela não queria por causa do marido chato e quadrado. Escuta, ô poeta, não leva a mal a minha impertinência, mas você precisava estar aqui para ver como a turma gosta, e o jeito dela gostar dessa valsa, assim à primeira vista. É por isso que estou puxando a sardinha mais para o lado da minha letra, que é mais simplória, do que pelas suas modificações que, enriquecendo os versos, talvez dificultem um pouco a compreensão imediata. E essa valsinha tem um apelo popular que nós não suspeitávamos.

Ainda baseado no argumento acima, prefiro o "abraçar" ao "bailar". Em suma, eu não mexeria na segunda estrofe.

A terceira é a que mais me preocupa. Você está certo quanto ao "o mundo" em vez de "a gente". Ah, voltando à estrofe anterior, gostei do último versos onde você diz "e cheios de ternura e graça" em vez de "e foram-se cheios de graça". Agora, estou pensando em retomar uma idéia anterior, quando eu pensava em colocá-los em estado de graça.

Aproveitando a sua ternura, poderíamos fazer "Em estado de ternura e graça foram para a praça e começaram a se abraçar". Só tem o probleminha da junção "em-estado", o
"em-e" numa sílaba só. Que é o mesmo problema do "começaram-a". Mas você mesmo disse que o probleminha desaparece dependendo da maneira de se cantar. E eu tenho cantado "começaram a se abraçar" sem maiores danos. Enfim, veja aí o que você acha de tudo isso, desculpe a encheção de saco e responda urgente.

Há um outro problema: o pessoal do MPB-4 está querendo gravar essa valsa na marra. Eu disse que depende de sua autorização e eles estão aqui esperando.

Eu também gostaria de gravar, se o senhor me permitisse, por que deu bolo com o "Apesar de você", tenho sido perturbado e o disco deixou de ser prensado. Mas deu para tirar um sarro. É claro que não vendeu tanto quanto a "Tonga", mas a "Banda" vendeu mais que o disco do Toquinho solando "Primavera". Dê um abraço na Gesse, um beijo no Toquinho e peça à Silvana para mandar notícias sobre shows etc. Vou escrever a letra como me parece melhor. Veja aí e, se for o caso, enfie-a no ralo da banheira ou noutro
buraco que você tiver à mão.

Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a dum jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar
E não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre falar
E nem deixou-a só num canto, pra seu grande espanto convidou-a pra rodar

Então ela se fez bonita como há muito tempo não queria ousar
Com seu vestido decotado cheirando a guardado de tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços como há muito tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça foram para a praça e começaram a se abraçar

E ali dançaram tanta dança que a vizinhança toda despertou
E foi tanta felicidade que toda a cidade enfim se iluminou
E foram tantos beijos loucos
Tantos gritos roucos como não se ouvia mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu
Em paz.

Por M * 1:41 PM


Por sed non satiata * 12:43 AM

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[Domingo, Abril 01, 2007]


Poética - Manuel Bandeira

Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao Sr. diretor.
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário
o cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja
fora de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante
exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes
maneiras de agradar às mulheres, etc
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare

- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

Por M * 9:00 PM


Por sed non satiata * 12:41 AM

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[Sábado, Março 31, 2007]


"Era a terceira vez que aquele substantivo e aquele artigo se encontravam no elevador. Um substantivo masculino, com um aspecto plural, com alguns anos bem vividos pelas preposições da vida. E o artigo era bem definido, feminino singular: era ainda novinha, mas com um maravilhoso predicado nominal. Era ingênua, silábica, um pouco átona, até ao contrário dele: um sujeito oculto, com todos os vícios de linguagem, fanáticos por leituras e filmes ortográficos. O substantivo gostou dessa situação: os dois sozinhos, num lugar sem ninguém ver e ouvir. E sem perder essa oportunidade, começou a se insinuar, a perguntar, a conversar. O artigo feminino deixou as reticências de lado e permitiu esse pequeno índice.

De repente, o elevador pára, só com os dois lá dentro: ótimo, pensou o substantivo, mais um bom motivo para provocar alguns sinônimos. Pouco tempo depois, já estavam bem entre parênteses, quando o elevador recomeça a se movimentar: só que em vez de descer, sobe e pára justamente no andar do substantivo. Ele usou de toda a sua flexão verbal, e entrou com ela em seu aposto. Ligou o fonema, e ficaram alguns instantes em silêncio, ouvindo uma fonética clássica, bem suave e gostosa. Prepararam uma sintaxe dupla para ele e um hiato com gelo para ela. Ficaram conversando, sentados num vocativo quando ele começou outra vez a se insinuar. Ela foi deixando, ele foi usando seu forte adjunto adverbial, e rapidamente chegaram a um imperativo, todos os vocábulos diziam que iriam terminar num transitivo direto.

Começaram a se aproximar, ela tremendo de vocabulário, e ele sentindo seu ditongo crescente: se abraçaram, numa pontuação tão minúscula que nem um período simples passaria entre os dois. Estavam nessa ênclise quando ela confessou que ainda era vírgula; ele não perdeu o ritmo e sugeriu uma ou outra soletrada em seu apóstrofo. É claro que ela se deixou levar por essas palavras, estava totalmente oxítona às vontades dele, e foram para o comum de dois gêneros. Ela totalmente voz passiva, ele voz ativa. Entre beijos, carícias, parônimos e substantivos, ele foi avançando cada vez mais: ficaram uns minutos nessa próclise, e ele, com todo o seu predicativo do objeto, ia tomando conta.

Estavam na posição de primeira e segunda pessoas do singular, ela era um perfeito agente da passiva, ele todo paroxítono, sentindo o pronome do seu grande travessão forçando aquele hífen ainda singular. Nisso a porta abriu repentinamente. Era o verbo auxiliar do edifício. Ele tinha percebido tudo, e entrou dando conjunções e adjetivos nos dois, que se encolheram gramaticalmente, cheios de preposições, locuções e exclamativas. Mas ao ver aquele corpo jovem, numa acentuação tônica, ou melhor, subtônica, o verbo auxiliar diminuiu seus advérbios e declarou o seu particípio na história. Os dois se olharam, e viram que isso era melhor do que uma metáfora por todo o edifício. O verbo auxiliar se entusiasmou, e mostrou o seu adjunto adnominal. Que loucura, minha gente. Aquilo não era nem comparativo: era um superlativo absoluto. Foi se aproximando dos dois, com aquela coisa maiúscula, com aquele predicativo do sujeito apontado para seus objetos. Foi chegando cada vez mais perto, comparando o ditongo do substantivo ao seu tritongo, propondo claramente uma mesóclise-a-trois. Só que as condições eram estas: enquanto abusava de um ditongo nasal, penetraria ao gerúndio do substantivo, e culminaria com um complemento verbal no artigo feminino. O substantivo, vendo que poderia se transformar num artigo indefinido depois dessa, pensando em seu infinitivo, resolveu colocar um ponto final na história: agarrou o verbo auxiliar pelo seu conectivo, jogou-o pela janela e voltou ao seu trema, cada vez mais fiel à língua portuguesa, com o artigo feminino colocado em conjunção coordenativa conclusiva."

--redação feita por uma aluna do curso de Letras, da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco - Recife) e que obteve vitória em concurso interno promovido pelo professor titular da cadeira de gramática portuguesa.



Por M * 10:23 AM


Por sed non satiata * 12:41 AM

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[Domingo, Março 04, 2007]


---===--- Plutarco: como distinguiro amigo do bajulador

[ materia retirada da minha revista predileta de filosofia (do ponto de vista bem reduzido), interessante a quem se dispor a ler ]



RECONHEÇA O VERDADEIRO AMIGO


[ Ao tratar de temas cotidianos, como a amizade e a bajulação, Plutarco produz uma filosofia sobre a vida pública em oposição às abstrações de Platão e Aristóteles e à indiferença dos estóicos e epicuristas ]


O pensador grego Plutarco (~47-120 d.C.) nasceu na cidade grega de Queronéia, na Beócia, e por lá viveu até o final de sua vida. Destacam-se seus estudos em Matemática, Medicina, Retórica e suas viagens pelo Egito, Ásia e Roma. Como cidadão, ele também tomou parte da vida política, participando de diversos cargos importantes do seu tempo.

Seus escritos revelam uma época singular do pensamento grego. Suas reflexões acompanham o período histórico da decadência do mundo romano e o nascimento do cristianismo. Seus trabalhos voltaram-se especialmente para os assuntos morais e, por esse motivo, convencionase intitulá-lo como um dos primeiros moralistas. Dentre suas obras podemos destacar Moralia e As Vidas Paralelas (onde ele aborda, por meio da análise dos dramas individuais, a obra de importantes personalidades gregas e romanas).



---===--- Males do amor-próprio

A filosofia de Plutarco configurase como oposta às abstrações platônicas e aristotélicas e igualmente contrária à indiferença dos estóicos e epicuristas em relação à vida pública. O apego de Plutarco ao subjetivo e a ligação deste com a vida social fazem do pensador um dos autores prediletos de Montaigne, Shakespeare e Schiller.

Como distinguir o amigo do bajulador é um dos 83 textos que compõem a obra Moralia. Consiste em um trabalho rico em citações de filósofos, das tragédias e da mitologia gregas. Ao tentar abordar a distinção entre o bajulador e o amigo, Plutarco inicia o livro explorando o tema do amor-próprio. Segundo seu entender, o amor-próprio, que é algo importante na vida do ser humano, está no limite entre a temperança e a desmedida, que pode ser caracterizada aqui como vaidade. O excesso de amor-próprio é a causa de muitos problemas e, por isso, todo excesso deve ser combatido como um desequilíbrio que ocasiona a doença do corpo.

Tal vaidade facilita o aparecimento dos bajuladores. Plutarco não se preocuparia com a bajulação se esta atingisse apenas os homens vis ou pobres. Entretanto, ela é destinada sempre aos poderosos, uma vez que são esses que possuem as coisas desejadas pelo bajulador ou que, por uma questão de poder ou prestígio, podem ajudar os bajuladores a obtê-las. Tal afirmativa do filósofo deve ser compreendida dentro do contexto do Império Romano. Em Roma, era comum o uso da bajulação na vida pública, nos tribunais e nos discursos. O apelo retórico e a deturpação da própria retórica, por meio do exagero, tornam-se, no entender do pensador, a causa da ruína de muitos impérios.

O objetivo de Plutarco é circunscrever detalhadamente a bajulação. E, para ele, é exatamente nisso que se constitui a prudência. O intuito é perceber quem é e como age o bajulador, pois assim procedendo, podemos nos livrar dele e nos afastar dos seus males. Tal atitude, porém, exige cuidado, pois não se deve afastar um amigo simplesmente pelo fato de ele nos elogiar. Nem todo elogio é procedente de um bajulador. Cabe, portanto, analisar o que seria típico de um bajulador e o que seria típico de um amigo.

Plutarco elenca dois tipos de bajulador: o bajulador declarado e o
bajulador astuto. Segundo ele, devese tomar mais cuidado com o segundo tipo. Afinal, o primeiro, por ser bastante evidente, dispensa muitos cuidados. Já a astúcia do segundo tipo de bajulador repousa no fato de ele parecer amigo. Para Plutarco, aúnica maneira de desmascarar a farsaé analisar a semelhança entre os gostos, pois o que constitui, no seu entender, a essência da amizade é exatamente o gosto pelas mesmas coisas que dividimos com outra pessoa.



---===--- Como desmascarar o bajulador

No entender de Plutarco, o bajuladoré uma espécie de imitador barato. Alguém que não possui nenhuma opinião, mas que segue apenas as daquele de quem deseja obter algum benefício. Dessa forma, a primeira maneira pela qual se pode conhecer um bajulador é simular uma mudança de opinião. Diante de tal ato, ele, invariavelmente, muda também a posição, demonstrando, com extrema clareza, o quanto suas opiniões são volúveis e interesseiras.

A segunda maneira pela qual se conhece o bajulador é fácil de perceber se notarmos que o amigo não é aquele que imita nem mesmo aprova tudo aquilo que fazemos. O verdadeiro amigo aprova apenas o bem no seu amigo. O mesmo não ocorre com o bajulador: por isso, o bajulador é semelhante a um pintor ruim, que só consegue reproduzir aquilo que é mau.

Outra habilidade do bajulador é sempre tentar destacar, invariavelmente em público, aquele a quem deseja agradar. É parte constitutiva da essência do bajulador o excesso de exposição. Seu comportamento é duplo: ele sempre serve a quem pode lhe satisfazer os desejos. Ele não se importa em ceder seu lugar a um poderoso, desde que este retribua dando-lhe, em contrapartida, aquilo que é o seu objeto de desejo. A visão do bajulador está sempre na aparência das coisas, na sua superfície. Ele jamais consegue enxergar as coisas na sua totalidade ou em sua essência. No seu modo de entender, bastam os detalhes. Por fim, um bajulador jamais será franco com alguém, salvo se isso não desagradar à pessoa a quem deseja bajular.



---===--- Estratégias astutas

Para Plutarco, o bajulador está sempre no encalço dos homens devido à própria constituição da alma humana. No entender do pensador, a alma humana possui duas faculdades: a intelectual (ligada à razão e às virtudes) e a irracional (ligada aos erros, aos vícios e às paixões). O bajulador atua sobre a segunda faculdade humana, ou seja, sobre a nossa irracionalidade, oferecendo-lhe o
seu combustível preferencial: os elogios envaidecedores.

A astúcia do bajulador é um dos fatores que dificultam distingui-lo do amigo, se expressa em uma linguagem simples e sem disfarces. Entretanto, segundo Plutarco, há indícios que podem nos revelar a presença de um bajulador. Ao contrário do amigo, que nunca faz questão de ser percebido publicamente, o bajulador exige ser percebido dessa maneira e, por isso, esforça-se para cumprimentar seu bajulado sempre em público e nunca se cansa de acenar para todos aqueles a quem deseja agradar. O verdadeiro amigo, por seu turno, contenta-se com um simples olhar e com um aceno meramente cordial, não necessitando de testemunhas para validar seu gesto.

Diferentemente do amigo, que nunca promete nada e sempre tenta, se possível for, ajudar, o bajulador promete aquilo que não é capaz de fazer. O bajulador necessita aparecer. Ele sempre deseja opinar; já o amigo só opina quando é solicitado a fazê-lo. Por isso, o bajulador sempre teme os verdadeiros amigos do bajulado, pois estes sempre tornam clara a falsidade daquele. A bajulação sedutora é algo que mexe com os orgulhosos e vaidosos. Por isso, segundo Plutarco, aquele que tem consciência da sua finitude e dos seus limites não cai na armadilha dos bajuladores.

---===--- Contra os excessos

Segundo Plutarco, o amigo caracteriza-se pelo uso de sua franqueza. Entretanto, não se deve aqui confundir franqueza com indelicadeza, pois esta nada produz de frutífero numa relação de amizade. Devem-se observar aqui dois tipos de excesso: o da bajulação e o da franqueza destruidora. É interessante perceber que, no entender de Plutarco, o amigo verdadeiro é como um médico. É alguém que sabe a exata medida de sua atuação. A antiga medicina grega afirmava que a saúde residia exatamente no equilíbrio entre as coisas. Logo, há em todo o texto do pensador reflexos de uma tradição médica que vai de Hipócrates a Sócrates na história do pensamento grego.

Por isso, o amigo sempre deve ser franco e jamais repreender em
público. Plutarco recorda aqui, o curioso e irônico episódio em que
Sócrates faz uma censura pública aos seus discípulos. Platão, que observava, afirma que tal ato deveria ter sido feito em particular. Sócrates indaga, então, se ele mesmo não poderia ter esperado o momento em que eles estivessem a sós para fazer tal observação.

Com efeito, a correção de um amigo nunca deve ser confundida com uma humilhação pública. Aquele que humilha não produz nada de bom na sua relação de amizade. Pelo contrário, acaba por destruí-la. Ao agir de tal forma, ele coloca o seu amigo na mão dos bajuladores.

---===--- Atualidade das idéias

O texto de Plutarco é de uma enorme vitalidade. Apesar de toda a sua distância temporal e cultural, seu contexto apresenta grande semelhança com o nosso. São muitos os momentos em que podemos claramente notar os traços da bajulação na nossa sociedade. Qualquer esfera que envolva poder, decisão ou prestígio proporciona o aparecimento da bajulação e do bajulador. Quer nos escândalos governamentais, quer em relações banais, a bajulação e a vaidade sempre estão a nos espreitar.

Por isso, resta a cada um de nós a capacidade de distinguir entre amizade e bajulação, elegendo, por meio da força da nossa vontade ética, aquilo que preferimos. Que bom seria se os nossos governantes estivessem atentos ao que escreveu Plutarco há tantos séculos. Escândalos tenebrosos e finais desastrosos teriam sido evitados em muitos países, incluindo no nosso.



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---===--- Marcio Gimenes de Paula é doutor em Filosofia pela Unicamp e professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie.


Por sed non satiata * 12:41 AM

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[Sábado, Março 03, 2007]


A Alma Humana

Segundo as crenças admitidas pelos filósofos, e que, de      acordo com alguns escritores, teriam sido objeto de ensino especial nos mistérios, as almas existem anteriormente ao nascimento terreno, e são atraídas para a vida pela volúpia, ou se assim quisermos, por Vênus. Giram em torno da terra, como as borboletas em torno da luz, e, quando chegam bem perto, não podem mais afastar-se e são condenadas à vida, cuja imagem sedutora vêem num espelho místico, tão freqüentemente representado nas urnas fúnebres. Sofrem a tentação de beber na taça da vida, na taça de Baco, e, mal tocam com os lábios o licor sagrado, se encarnam num corpo. "A união das almas com os corpos mortais, diz Creuzer, se deve a várias causas: diversos motivos as impelem para as esferas inferiores. Algumas ali descem, porque ainda não tinham descido e são necessárias à manutenção da economia do mundo. São as almas novas ou noviças. Outras voltam aos corpos para expiarem culpas anteriores. Outras, enfim, cedem voluntariamente à sua inclinação pela terra. Tal inclinação provém de haverem elas contemplado o espelho, o mesmo espelho em que se vira Dionísio, antes de criar as existências individuais. Mal vêem a própria imagem, um desejo violento se apodera de todas elas, e o que almejam é descer e viver individualmente. As almas, na sua sede de existência individual, abandonam a morada celestial e partem em busca de novos destinos. Uma vez que tenham bebido na taça de Liber-Pater, embriagadas, apaixonadas pela matéria, perdem pouco a pouco a recordação da origem. E é tal esquecimento que as impele a unir-se aos corpos. As melhores dentre elas, temendo o nascimento, evitam a fatal beberagem cuja sedução as conduzirá à terra. Até entre as que não sabem resistir, há uma diferença. As mais nobres bebem comedidamente, prendem-se fortemente ao Gênio tutelar que lhes é destinado para acompanhá-las na Terra, têm os olhos fitos nele e obedecem-lhe à voz. Outras, porém, não são assim. Bebem a largos sorvos, e este mundo, que não passa de tenebrosa caverna, lhes parece belo. Acabam, pois, de esquecer-se, fascinadas pelos atrativos, pelas delícias da gruta de Dionísio, símbolo do mundo sensível e das suas voluptuosidades." (Creuzer).

"O que chamamos vida, diz Cícero, é uma verdadeira morte. A nossa alma só começa a viver quando, livres dos entraves do corpo, participa da eternidade e, de fato, as antigas tradições nos ensinam que a morte foi concedida pelos deuses imortais, como recompensa aos que eles amavam." (Cícero).

"Os que choramos não nos foram tirados para sempre, e não estão perdidos para nós; estão apenas distantes da nossa vista e do nosso contato por determinado tempo. Assim, quando nós também chegarmos ao termo que a natureza nos prescreveu, voltaremos a privar com eles." (Cícero).

Por M * 4:00 PM


Por sed non satiata * 12:40 AM

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Sexta-feira, Setembro 08, 2006

do luiz:

Mira o monitor a sua frente e o que vê é uma figura cansada a lhe devolver o olhar. Mas muito além, ele olha ao longe como quem olha o mar, vasto e silencioso se estendendo a sua frente ¿ tão vago e tão misterioso quanto esse olhar de poeta que ele lança, como quem traz marcada na visão a impressão de mil coisas maravilhosas que não estão presas ao tempo ou espaço. Com seus olhos baços e encantados, o poeta lança à tela um olhar tal de rede, lançando nesse mar um lanço de esperanças tantas. E fica ali, à deriva de si mesmo, esperando ser tragado por esse mar que é puro instinto e fúria.
Mas basta ele pedir socorro e ela logo surge, uma manifestação divina, como uma entidade invocada vindo de kikômetros de distância para prontamente salvar o poeta de seus apuros. Para salvá-lo de suas reticências e imprecisões. Para salvá-lo de si próprio, afogando-o em verdades e contradições, embalando-o em seu em seu colo furioso, despertando-o para o além. Para alimentar o vício de só pensar em você, materializando-se através da imensidão de pontos de luz a banhar o poeta nesse brilho pálido de lua. Despertando nessa alma velha os impulsos desse novo amor onde o ¿Socorro!¿ soa quase como um pedido de desculpas.
Assim é esse novo paradigma do amor moderno. Desse amor digital que pode soar tão estranho, como o som de um coração descompassado transformado em números binários, passando rápido por redes e fios. Se antes o amor era carnal, espiritual, intelectual; se era presença, soma, desejo, acontecimento, hoje ele soa como um eco. Como o eco de um trovão, batendo seco na chuva serena, como a explosão de algo que simplesmente não acontece, como o grito sufocado na garganta protestando contra sua quase existência.
Mas se esse amor é eco, é ao menos um eco violento que só pode ser sentido no batuque louco de um teclado amoroso ou pela fixação por uma Narcisa que se esconde atrás de uma cortina de palavras. Não uma Narcisa esquizocêntrica, apaixonada pela própria beleza, mas uma Narcisa que é fáustica, que encarna um mito de eternidade, do encanto puro e terreno, que a todos conquista sem consciência da força que tem - o mito da inocência.
Aqui o poeta mais do que nunca se sente percorrendo uma infindável trilha de palavras tendo no horizonte a sua Narcisa a desorientá-lo. Uma narcisa que baila etérea, pairando sobre o ar, girando lépida e graciosa sobre palavras, pessoas, idéias e acontecimentos. Um narcisa que ginga elegante, de óculos escuros, com suas lentes a protegê-la da curiosidade que a cerca (Quem é ela? Quem é ela?) enquanto refletem como lentes de aumento uma miopia generalizada. Ela é ela, ora bolas! A narcisa que corre com suas meias grossas, num círculo de velas, pisando em brasas a atrevida, a girar sua maravilha de ser e existir, a mostrar seu orgulho de ser simplesmente bailarina. Bailando como uma idéia sedutora. Aí está Narcisa a desorientar o poeta. E ele pára, procura, pergunta, se arrisca, e não se encontra.
Como dois mundos, que antes de se chocarem, ficam a procurar seus pontos de contato, centros de gravidade, forças de atração. O poeta não sabe o que se passa do outro lado, não tem como saber. Só lhe resta imaginar, especular, tergiversar, alimentar seu vício, viver nesse estado de contemplação. Pois ainda que haja entre os mundos uma linguagem universal de acolhida, compreensão, simpatia mútua, um sentimento natural de cordialidade e entendimento, o poeta não sabe o que vai por dentro, do sentimento contido naquela que tem complexo de boneca, daquilo que vai onde o poeta realmente queria chegar: no coração daquela que carrega no pensamento.
Porque o poeta existe para dar voz ao coração. Não teria razão se não fosse verdade. Não teria graça se não fosse ilusão. Assim é esse amor. Ele existe? Talvez nos momentos em que ele o cria, em que faz das migalhas o seu pão e alimento, pois desde muito as mentiras sinceras interessam. O poeta sinceramente ama na mentira de ter Kika.
- Socorro!

Por M * 4:00 PM


Por sed non satiata * 12:39 AM

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Quinta-feira, Setembro 07, 2006

Oh, mas digam-me: quem foi o primeiro a proclamar, o primeiro a declarar que o homem faz sujeiras só porque não conhece os seus verdadeiros interesses; e que, se for esclarecido, se alguém lhe abrir os olhos para os seus verdadeiros e normais interesses, o homem deixará imediatamente de fazer pulhices, tornar-se-á sem tardança bom e nobre, porque, iluminado por alguém e na posse da consciência das suas vantagens, ele, consequentemente, começará por assim dizer a fazer o bem? Ó criança! Ó bebé puro e inocente! Mas desde quando, em primeiro lugar, em toda essa ceterva de milhares de anos, o homem age apenas movido pela vantagem própria? Que fazer então dos milhões de factos testemunhando que os homens, conscientemente, ou seja, compreendendo totalmente quais são as suas verdadeiras vantagens, as afastaram para segundo plano e se atiraram por outro caminho, se entregaram ao risco, ao deus-dará, sem serem forçados por nada nem por ninguém, mas não querendo contudo seguir o bom caminho e abrindo teimosa e voluntariosamente o outro, difícil, absurdo, procurando-o por entre a escuridão? Significa que tal teimosia e voluntariedade lhes foi de facto mais atraente do que qualquer vantagem... Vantagem! O que é vantagem? Querereis tomar a responsabilidade de definir com toda a precisão em que consiste exactamente a vantagem para o homem? E se suceder que a vantagem humana, em determinada ocasião, consista, não só possível mas precisamente, em desejar para si o pior e não o que mais lhe convém? Se assim for, se tal ocasião pode acontecer, então toda a vossa regra dá em nada. (...) Porque as vossas vantagens são a prosperidade, a liberdade, a tranquilidade, etcaetera, etcaetera; portanto, um homem que, digamos, alerta e conscientemente agisse em contradição com essa lista seria, na vossa e, sem dúvida, na minha opinião, um obscurantista ou um doido varrido, não seria? (...) A nossa própria, livre e independente vontade, o nosso próprio capricho, por mais absurdo e selvagem que seja, a nossa própria vantasia, desenfreada por vezes até à loucura- eis a mais vantajosa das vantagens, a que foi omitida, a que não se encaixa em nenhuma classificação e que permanentemente faz desmoronarem-se todos os sistemas e teorias. Onde foram todos esses sábios buscar a ideia de que o homem precisa de uma qualquer vontade normal e virtuosa? Por que razão fantasiaram eles que é indispensável ao homem uma vontade sensatamente vantajosa? O que o homem precisa é só de uma vontade independente, custe o que custar e leve aonde levar esta independência. E sabe-se lá que diabo de vontade é essa...


(Fiódor Dostoiévski- CADERNOS DO SUBTERRÂNEO)

Por M * 3:59 PM


Por sed non satiata * 12:39 AM

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"E aí, com uma lua descomunal iluminando a barra da baía de Todos os Santos, eu encarnei todas as deusas do amor, todas as diabas desabridas que povoam o universo, a Luxúria com suas traiçoeiras sombras calentes e seus estandartes imorais, seu chamado à devassidão, à dissipação e à entrega a todos os gozos de todos os matizes até chegar à morte lasciva, eu era a Luxúria integral, baixada ali para reinar como um espírito imisericordioso e invencível, naquele morro assombrado e suas redondezas peetrificadas."

João Ubaldo Ribeiro em A Casa dos Budas Ditosos.


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palavras são gaiolas: citação de rubem alves.

"...Estranha relação é a que temos com as palavras. Aprendemos de pequenos umas quantas, ao longo da existência vamos recolhendo outras que vêm até nós pela instrução, pela conversação, pelo trato com os livros, e, no entanto, em comparação, são pouquíssimas aquelas sobre cujas significações, acepções e sentidos não teríamos nenhumas dúvidas se algum dia nos perguntássemos seriamente se as temos. Assim afirmamos e negamos, assim convencemos e somos convencidos, deduzimos e concluímos, discorrendo impávidos à superfície de conceitos sobre os quais só temos ideias muito vagas e, apesar da falsa segurança que em geral aparentamos enquanto tacteamos o caminho no meio da cerração verbal, melhor ou pior lá nos vamos entendendo, e às vezes, nos encontrando..."


(José Saramago)

Por M * 3:57 PM


Por sed non satiata * 12:39 AM

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O ressentimento segundo Nietzsche

VINGANÇA ADIADA


Todos nós encontramos no dia-a-dia variados tipos de caráter. Muitos filósofos tomaram essa diversidade de caracteres como matéria para a reflexão filosófica; dentre eles, se destacou o alemão Nietzsche, que se autodenominava "psicólogo". Segundo ele, psicólogo é aquele capaz de investigar, sem concessões, a alma humana.

Em seus violentos ataques à moral dominante de sua época, Nietzsche elegeu como alvo a figura do ressentido. O ressentido é o sujeito que padece de ressentimento, isto é, de um sentimento relacionado a alguém e que ele não conseguiu exteriorizar. Esse sentimento que não atingiu sua finalidade volta ao sujeito; daí o prefixo 're', que, junto com 'sentimento', forma a palavra 'ressentimento'. Esse retorno se dá de forma negativa, pois o ressentido começa a fantasiar, a ruminar os pensamentos; com isso se afasta da realidade e se imobiliza.

Todos nós temos afetos negativos como raiva, ódio e inveja, mas, na maioria das vezes, julgamos mais prudente comunicá-los, seja porque avaliamos que estamos errados, seja porque avaliamos as razões daquele que nos causou um mal. Porém, em determinadas situações, o silêncio daquele que foi usurpado pode degenerar em ressentimento, e a principal característica do ressentido é ruminar esse acontecimento e planejar, por longo período, uma vingança. Foi o que Nietzsche chamou de "vingança adiada", pois, da mesma maneira que o ressentido foi incapaz de se defender no momento de agravo, ele será incapaz de consumar sua vingança. Por isso o nosso 'psicólogo' tomava o ressentimento como uma característica dos 'escravos', isto é, daqueles que não afirmam sua vontade.

Segundo as pistas de Nietzsche, a psicanalista Maria Rita Kehl descreve o ressentido como um covarde, que não consegue valer seus desejos, não luta pelos sonhos. Ela usa a expressão psicanalítica "covardia moral" para descrever a impotência daquele que ressente. De onde viria essa impotência? O ressentido foi o filho preferido dos pais, e inconscientemente, exige do mundo a mesma coisa. Julga possuir uma garantia antecipada, pois seus pais, ao mesmo tempo que o cobriram de amor, o preservaram dos desafios da vida. Acha-se predestinado a ocupar os mais altos postos e não se vê obrigado a pôr à prova suas qualidades para obter reconhecimento.

Receita óbvia para o fracasso. Mas o ressentido nunca se responsabiliza por seus atos e, por sua derrota, sempre culpará o outro. Ao se instalar no imobilismo, ele passa a atacar os que celebram e gozam a vida. Sua relação com o outro não passa pela inveja, pois esse pecado capital, de certo modo, mobiliza o sujeito a conquistar o que admira no outro. O ressentido prefere a vingança, que nunca é executada, uma vez que ele se refugia na fantasia. Assim, sua vida passa em suspenso.


[ texto: Luciano Pereira - mestrando em filosofia pela USP - luciano@riseup.net ]

Por M * 3:57 PM


Por sed non satiata * 12:39 AM

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Desiderata - "vem do latim" desideratu": aquilo que se deseja; aspiração".

Este texto foi encontrado com esse título na igreja de Saint Paul, Baltimore, data de 1692.

“Vá placidamente por entre o barulho e a pressa e lembre-se da paz que pode haver no silêncio, sem capitular, esteja de bem com todas as pessoas. Fale a sua verdade, calma e claramente; e escute os outros, mesmo os estúpidos e os ignorantes; também eles têm a sua história. Evite pessoas barulhentas e agressivas.

Elas são um tormento para o espírito.
Se você se comparar a outros pode tornar-se vaidoso e amargo; porque sempre haverá pessoas superiores e inferiores a você.

Desfrute suas próprias conquistas assim como os seus planos.
Mantenha-se interessado na sua própria carreira, mesmo que humilde; é o que realmente se possui na sorte incerta dos tempos.

Exercite a cautela nos negócios; porque o mundo é cheio de artifícios.
Mas não deixe que isso o torne cego à virtude que existe; muitas pessoas lutam por altos ideais e por toda a parte a vida é cheia de heroísmo.

Seja você mesmo. Principalmente não finja afeição nem seja cínico sobre o amor; porque em face de toda aridez e desencantamento ouça o conselho dos anos, renunciando com benevolência às coisas da juventude.

Cultive a força do espírito para proteger-se num infortúnio inesperado. Mas não se desgaste com temores imaginários. Muitos medos nascem da fadiga e da solidão.
Acima de uma benéfica disciplina, seja bondoso consigo mesmo.
Você é filho do Universo, não menos que as árvores e as estrelas.
E quer seja claro ou não para você, sem dúvida o Universo se desenrola como deveria.

Portanto, esteja em paz com Deus, qualquer que seja sua forma de conhecê-lo, e sejam quais forem a sua lida e as aspirações, na barulhenta confusão da vida, mantenha-se em paz com a sua alma.

Com todos os enganos, penas e sonhos desfeitos, este ainda é um mundo maravilhoso.

Esteja atento."


Por sed non satiata * 12:39 AM

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